O julgamento envolvendo os
chamados “agentes secretos” ligados à loja maçônica Athanor teve início em
Paris, no dia 8 de abril, trazendo à tona um caso complexo que mistura crime
organizado, relações empresariais e influência indevida. Entre os depoimentos
mais marcantes está o de uma ex-empresária da região de Ain, que afirmou estar
“esmagada pelo peso do remorso e da vergonha” ao relembrar os acontecimentos.
A ex-dirigente, Muriel Brun-Millet, que
atuava como diretora da empresa Apnyl em Izernore, é acusada de ter encomendado
o assassinato de um líder sindical em 2020. O caso faz parte de uma
investigação mais ampla sobre uma suposta organização criminosa conhecida como
“Thugs”, que teria operado a partir da loja maçônica Athanor, localizada no
departamento de Hauts-de-Seine.
Durante o julgamento, Brun-Millet declarou
que, à época, enfrentava uma intensa pressão profissional, marcada por
crescimento acelerado da empresa, exigências constantes de clientes e um quadro
de esgotamento emocional. Segundo ela, esse contexto a levou a uma “espiral
descendente”, na qual já não se sentia capaz de lidar com suas
responsabilidades. “Eu me afoguei, não estava mais à altura da tarefa”, afirmou
em tribunal.
A vítima do suposto plano, o sindicalista
Hassan Touzani, compareceu à audiência e relatou o impacto psicológico que
sofreu ao descobrir que era alvo de um plano de assassinato. Inicialmente
incrédulo, ele afirmou ter vivido meses de medo constante após ser informado
pelas autoridades, chegando a reagir com extrema cautela a qualquer ruído em
sua casa.
De acordo com as investigações, o plano
contra Touzani teria evoluído ao longo do tempo, passando de uma tentativa de
provocar um acidente dentro da empresa para hipóteses mais graves, como um
acidente de carro ou até a simulação de suicídio. O próprio sindicalista
afirmou ter ficado chocado ao tomar conhecimento da vigilância que sofria e das
intenções atribuídas à sua então empregadora.
Em sua defesa, Brun-Millet alegou ter sido
influenciada por integrantes da organização criminosa, destacando que se
encontrava em um momento de fragilidade emocional que teria sido explorado por
terceiros. Seu marido também prestou depoimento, reconhecendo que não percebeu
o estado de esgotamento da esposa à época.
Após um período de detenção, a
ex-empresária afirmou ter sentido alívio por conseguir descansar e se afastar
da pressão que vivia. Desde então, vendeu parte de sua participação na empresa
e iniciou uma nova vida em Lyon, onde atualmente administra negócios no setor
de alimentação.
Já Hassan Touzani, segundo relatos, nunca
conseguiu retomar sua vida profissional, enfrentando problemas de saúde e
convivendo até hoje com as consequências emocionais do caso.
O julgamento, iniciado no fim de março,
deve se estender por cerca de três meses e meio. Ao todo, 22 pessoas estão
sendo julgadas, entre elas militares, policiais e profissionais de segurança.
Treze dos réus podem enfrentar penas de prisão perpétua, dependendo do desfecho
do processo.
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