França julga suposta “máfia maçônica” acusada de comandar esquadrões da morte

 


Da Redação

A França iniciou um dos julgamentos mais complexos e sensíveis de sua história recente, no qual 22 pessoas respondem por acusações que incluem assassinato, tentativa de assassinato, agressões qualificadas e conspiração criminosa. No centro do caso está uma loja maçônica instalada na mansão Athanor, no subúrbio parisiense de Puteaux, acusada de operar como uma organização mafiosa responsável por esquadrões da morte e ataques sob encomenda.

Treze dos réus — entre eles ex-agentes de inteligência, militares e empresários — podem receber penas de prisão perpétua. De acordo com promotores, a rede criminosa utilizava a estrutura da loja maçônica para organizar execuções, agressões, atos de intimidação e crimes contratados.

Rede criminal reunia maçons, agentes públicos e empresários

Entre os acusados, pelo menos quatro são maçons integrantes da loja Athanor. O grupo também inclui:

quatro oficiais da DGSE (Direção Geral de Segurança Externa),

três policiais,

seis executivos,

um segurança,

um médico,

um engenheiro.

A maioria tem entre 30 e 73 anos e não possui antecedentes criminais, o que aumentou o impacto público da investigação.

Segundo a promotoria, o comando da organização criminosa estaria nas mãos de Jean-Luc Bagur, Frédéric Vaglio e Daniel Beaulieu, todos ligados à loja maçônica, além de Sébastien Leroy, apontado como o líder operacional dos esquadrões da morte.

Os quatro são acusados de coordenar agressões e assassinatos realizados por grupos de agressores contratados.

Tentativa de assassinato em 2020 detonou a investigação

A investigação teve início em julho de 2020, após a prisão de dois soldados do regimento de paraquedistas francês, detidos com armas perto da residência da coach de negócios Marie-Hélène Dini. Eles alegaram acreditar que estavam cumprindo uma ordem oficial do Estado francês para matar Dini, sob a justificativa de que ela trabalharia para o serviço de inteligência israelense Mossad.

A versão rapidamente se mostrou falsa. Os investigadores descobriram que a ordem teria partido de Jean-Luc Bagur, de 69 anos, consultor e rival de Dini. Bagur, que ocupava o posto de venerável mestre da loja maçônica, teria pedido a Vaglio que providenciasse a “eliminação” de sua concorrente mediante o pagamento de 70 mil euros.

Vaglio, por sua vez, teria recorrido ao grupo liderado por Beaulieu, ex-oficial da DGSI, que coordenava operações clandestinas com auxílio de Leroy.

Confissões e histórico de crimes associados à loja Athanor

Durante seu depoimento, Sébastien Leroy confessou ter participado de grande parte dos ataques atribuídos à chamada “máfia de Athanor”. Segundo ele, o grupo praticava agressões, roubos, incêndios criminosos e execuções. Entre os crimes mencionados estão:

o assassinato do piloto de corridas Laurent Pasquali, encontrado em uma floresta em 2018;

a agressão e o roubo do computador de uma empresária em um caso de espionagem industrial;

o incêndio do carro de uma associada de Bagur em 2019, após ela descobrir sinais de fraude financeira.

Leroy disse acreditar que trabalhava em nome do governo francês, alegando ter sido manipulado por Beaulieu, que supostamente o fazia pensar que estava prestes a se tornar informante da DGSI.

O escândalo do desvio de agentes do Estado

Para a acusação, um dos aspectos mais perturbadores do caso é que os suspeitos incluem justamente profissionais responsáveis pela defesa da segurança nacional. O advogado de Dini, Jean-William Vézinet, afirmou:

“O que minha cliente achou aterrorizante foi o fato de que as figuras-chave neste caso — policiais, ex-agentes da DGSI e maçons — são justamente as pessoas que deveriam agir para o bem da sociedade.”

Incertezas sobre depoimentos e julgamento prolongado

Um ponto de preocupação para os promotores é o estado de saúde de Daniel Beaulieu, que sofreu uma tentativa de suicídio sob custódia. Segundo seu advogado, ele ficou com a “concentração prejudicada”, o que pode dificultar a obtenção de novos depoimentos considerados cruciais.

O julgamento, que deve se estender por ao menos três meses, promete revelar detalhes inéditos sobre a extensão da rede criminosa e a possível infiltração de agentes públicos em atividades mafiosas.

Fonte: https://www.theguardian.com


 

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