Um athanor que transforma ouro em chumbo…


 Da Redação

Desde que o caso veio a público, este periódico tem acompanhado uma das mais insólitas tramas já registradas no sistema de justiça: um episódio que envolve mais de vinte pessoas, algumas com vínculos pessoais — ainda que não necessariamente criminosos — com serviços de inteligência, e que utilizavam uma loja maçônica como ponto de encontro. Um enredo que, se fosse imaginado antes de sua revelação, provavelmente seria tratado como delírio conspiratório.

No entanto, foi exatamente isso que ocorreu. E, diante de um escândalo dessa magnitude, críticos históricos da Maçonaria encontram terreno fértil para reforçar suas suspeitas, assistindo à cena como se confirmasse antigas teorias. A associação indevida entre a instituição e práticas ilícitas ganha força no imaginário coletivo, ampliada pela repercussão do caso.

Mas a realidade é menos fantasiosa do que parece. Como piratas que se escondem em uma enseada isolada, esses indivíduos encontraram na loja um espaço discreto para encontros — não sua fonte de inspiração. Se assim fosse, seria necessário supor que os cerca de 180 mil maçons franceses — entre profissionais liberais, comerciantes, trabalhadores, empresários e aposentados — estariam, de alguma forma, envolvidos em conspirações para subverter o Estado em benefício de interesses obscuros. Uma hipótese evidentemente absurda, mas que revela como o medo e a desinformação podem distorcer a razão.

Teorias conspiratórias dessa natureza não são novas. Já circulavam no passado e, hoje, encontram ainda mais espaço em um contexto marcado por desconfiança generalizada. A suspeita de conspiração se espalha com rapidez, muitas vezes mais veloz do que ideias de harmonia e cooperação. E, como em qualquer grupo humano, por mais ético e bem-intencionado que seja, sempre haverá indivíduos que se desviam de seus princípios.

Nesse cenário, a Maçonaria sofre um impacto significativo. Torna-se difícil convencer a opinião pública de que a instituição, por sua própria natureza, não dispõe de mecanismos de vigilância rigorosos. Seus regulamentos e práticas formais podem ser facilmente contornados por aqueles que agem de má-fé, especialmente quando evitam expor suas intenções nos espaços formais de discussão.

É importante lembrar que a Maçonaria se baseia na confiança mútua e no respeito à liberdade individual. Seus membros se reúnem com o objetivo de aprimoramento moral e intelectual, sem imposição de dogmas, orientados por uma busca íntima de evolução. Não se trata, portanto, de uma organização voltada à investigação ou ao controle disciplinar permanente — funções que pertencem a instituições do Estado.

Assim, quando um membro comete um crime, cabe à Justiça agir. Em geral, diante de uma condenação, o próprio indivíduo opta por se afastar da Ordem, ou é posteriormente desligado por meio de processos internos. Sugerir que cada loja funcione como um sistema de vigilância constante, à semelhança de regimes autoritários, contraria frontalmente os princípios maçônicos.

Ainda assim, o risco de desvios existe — como em qualquer coletividade — e deve ser enfrentado com responsabilidade. As organizações maçônicas buscam, dentro de seus limites, prevenir abusos, embora nem sempre isso seja visível ao público. Porém, usar um caso isolado para sustentar a ideia de uma conspiração global é tão equivocado quanto atribuir a qualquer outra instituição responsabilidades coletivas por atos individuais.

No fim, o que causa perplexidade não é apenas o crime em si, mas o fato de ele ter ocorrido em um ambiente que, em essência, preza pela fraternidade, pela ética e pela elevação do espírito. Essa contradição profunda leva à sensação de que algo foi corrompido em sua base — como se um espaço destinado à construção do bem tivesse sido momentaneamente transformado em seu oposto.

Daí a metáfora final: um athanor — símbolo alquímico de transformação — que, em vez de elevar o metal vil ao ouro, realizou o inverso, degradando o que deveria ser nobre. Uma imagem forte, que sintetiza o espanto diante de uma distorção tão radical de valores.

 Versão reescrita do texto de Christian Roblin publicada no site 450.fm

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