O Desafio da Construção Interior na Maçonaria
A Maçonaria aprecia palavras grandiosas.
Templo. Luz. Construção. Fraternidade.
São termos que ressoam profundamente na tradição
iniciática e fazem parte do vocabulário cotidiano das lojas. Repetimo-los em
rituais, discursos e reflexões. Porém, ao pronunciá-los tantas vezes, corre-se
o risco de acreditar que basta evocá-los para que se tornem realidade.
Mas sejamos honestos: a Maçonaria fala muito sobre
construção… e, ainda assim, quantos trabalhadores verdadeiramente vemos em
ação?
Nós nos consideramos herdeiros dos antigos
construtores. Falamos das catedrais erguidas na Idade Média, evocamos o
simbolismo do Templo de Salomão, recordamos as figuras de Salomão, Hirão e os
mestres de obra que moldaram a tradição simbólica da Ordem. Utilizamos imagens
como a pedra bruta, a pedra polida, o esquadro e o compasso, a geometria
sagrada e o canteiro de obras iniciático.
Tudo isso é correto e profundamente
significativo.
No entanto, há um detalhe essencial que não pode
ser esquecido: os construtores medievais trabalhavam. E trabalhavam duro. Em
silêncio. Com disciplina e rigor. Sabiam que um edifício não se sustenta por
belas palavras, mas pela precisão das pedras e pela solidez do esforço
coletivo.
Hoje, infelizmente, às vezes parece que alguns
maçons se aproximam mais da figura de palestrantes do Templo do que da de seus
operários.
Falamos de irmandade… mas, não raramente,
alimentamos rivalidades pequenas e desnecessárias.
Falamos de humildade… mas nos apegamos com
facilidade a títulos, cargos e distinções simbólicas.
Falamos de luz… mas muitas vezes resistimos quando
essa mesma luz revela nossas próprias imperfeições.
E então surge uma curiosa inversão: a pedra bruta
quase sempre é a do outro.
É o irmão que fala demais.
O irmão que é orgulhoso demais.
O irmão que é insuficiente nisso ou exagerado
naquilo.
A nossa própria pedra, curiosamente, costuma
parecer muito bem talhada… ao menos aos nossos próprios olhos.
Essa armadilha não é nova. Ela acompanha
praticamente todas as gerações de maçons. Existe sempre a tentação de
transformar o canteiro de obras iniciático em um elegante salão simbólico. As
ferramentas são admiradas, as plantas são discutidas, a altura das colunas é
debatida… mas poucos realmente desejam sujar as mãos no trabalho interior.
E, no entanto, construir é uma atividade
exigente.
A verdadeira construção maçônica requer silêncio,
disciplina e perseverança. Exige autoconhecimento, revisão de atitudes e
constante lapidação da própria personalidade. Acima de tudo, exige uma virtude
que se tornou rara no mundo contemporâneo — e que, paradoxalmente, deveria ser
central no caminho iniciático: a humildade.
Porque existe uma verdade simples, embora às vezes
desconfortável: é perfeitamente possível usar um avental, conhecer os rituais,
citar textos simbólicos, ocupar cargos e ainda assim permanecer, interiormente,
uma pedra bruta.
A Maçonaria autêntica nunca deveria servir para nos
tranquilizar prematuramente. Pelo contrário: ela deve provocar inquietação.
Deve nos lembrar que o Templo não é uma simples metáfora decorativa, mas uma
exigência permanente.
Cada sessão, cada símbolo, cada palavra
ritualística deveria funcionar como um lembrete silencioso de que todos nós —
sem exceção — ainda estamos em construção.
No momento em que um pedreiro acredita que sua obra
está concluída, ele não se torna um mestre.
Ele se torna perigoso.
Por isso, sim, continuemos falando do Templo de
Salomão, dos construtores e do Grande Arquiteto do Universo. Esses símbolos são
parte essencial da tradição maçônica. Mas falemos deles com clareza e
honestidade.
O Templo não foi erguido com discursos.
Foi construído por homens dispostos a trabalhar.
Trabalhar juntos.
Trabalhar em silêncio.
E, sobretudo, trabalhar sobre si mesmos.
E essa tarefa, sejamos francos, é infinitamente
mais difícil do que falar sobre ela.
No final das contas, a questão que permanece diante
de cada maçom é simples e inevitável:
em nossas lojas — e em nossas vidas — ainda somos
trabalhadores do Templo…
ou apenas comentaristas no canteiro de obras?


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