1743 – O Dia em que Portugal Enforcou a Maçonaria

 


Da Redação

Em 8 de março de 1743, Portugal assistiu a um dos episódios mais sombrios da perseguição inicial à Maçonaria no país: a execução por enforcamento de três homens cujo único "crime" documentado foi pertencerem a uma sociedade secreta considerada herética e subversiva pela Igreja e pela Coroa — a Maçonaria.

Os Irmãos Manoel de Revehot (ou Manuel de Revelhos/Revehot), Damião de Andrade e Cristóvão Diego (também referido como Christoph Diego) foram capturados durante uma ação repressiva contra a chamada Loja Virtude, uma das primeiras estruturas maçónicas ativas em Lisboa. Os três encontravam-se presentes no momento da invasão pelas autoridades. Manoel de Revehot e Damião de Andrade eram aristocratas portugueses, enquanto Cristóvão Diego atuava como "irmão de serviço" (provavelmente um membro de grau ou função auxiliar na loja).

A perseguição ocorreu num contexto de forte repressão religiosa e política. A Inquisição portuguesa, apoiada por éditos reais e bulas papais (como a In Eminenti Apostolatus de Clemente XII, de 1738, que condenava a Maçonaria), via na fraternidade maçónica uma ameaça direta à fé católica, à autoridade monárquica e à ordem social estabelecida. Os maçons eram acusados de promover ideias iluministas, segredos inconfessáveis e rituais que desafiavam o monopólio da Igreja sobre a moral e a verdade.

A captura dos três irmãos deu-se em circunstâncias violentas. Submetidos a interrogatórios brutais — possivelmente com recurso a tortura, prática comum na Inquisição da época —, resistiram em revelar nomes de outros membros da ordem. Apesar disso, a repressão não se limitou a eles: no mesmo ano, outros maçons estrangeiros (como o suíço Johann Coustos, joalheiros franceses e lapidários) foram presos em ações relacionadas, sofrendo torturas severas durante meses, mas escaparam à pena capital graças a pressões diplomáticas (no caso de Coustos, intervenção do rei Jorge II da Inglaterra).

A execução dos três portugueses ocorreu por enforcamento, pena reservada a crimes graves de lesa-majestade ou heresia pertinaz. Não há registo de auto-de-fé público específico para eles (ao contrário de outros casos da época), mas o episódio marcou o auge da primeira grande onda repressiva contra a Maçonaria em Portugal, iniciada em 1738 e intensificada em 1741-1743.

Este trágico acontecimento ilustra o clima de intolerância que marcou o reinado de D. João V (1706-1750), período em que a Inquisição portuguesa atuava com grande autonomia e rigor. A Maçonaria, recém-chegada ao país (com registos de lojas desde 1727), foi vista como importação perigosa de ideias estrangeiras e subversivas.

Mais de 280 anos depois, a memória desses Irmãos permanece como símbolo da luta pela liberdade de pensamento e associação. O seu sacrifício foi um dos primeiros capítulos sangrentos da história maçónica em Portugal — uma história que, apesar das proibições e perseguições subsequentes (inclusive no século XX), sobreviveu e contribuiu para os ideais de tolerância, fraternidade e progresso que moldaram o país moderno.

Nota final: A data de 8 de março de 1743 é recordada em efemérides maçónicas como um marco de martírio pela liberdade de consciência, num tempo em que pertencer a uma loja podia custar a vida






Postar um comentário

0 Comentários