Da
Redação
Em
janeiro de 2026, um escândalo de grandes proporções abalou a pequena comuna
rural de Izvoarele (também conhecida como Izvoru), no condado de Giurgiu,
Romênia. O prefeito da localidade, Silviu Marius Cazacu, tornou-se alvo de uma
investigação criminal por suspeita de pornografia infantil, ao mesmo tempo em
que vieram à tona suas ligações com redes maçônicas e empresariais influentes
na região.
O
caso gerou forte repercussão na imprensa romena e reacendeu o debate sobre
corrupção, abuso de poder e opacidade institucional em áreas rurais do país.
As acusações contra Silviu
Marius Cazacu
As
primeiras revelações surgiram no final de 2025, quando autoridades romenas
realizaram buscas na residência e no gabinete do prefeito. Cazacu foi acusado
de enviar imagens indecentes a uma menina de 13 anos por meio de plataformas
digitais, o que constitui crime grave segundo o Código Penal romeno.
A
denúncia ganhou visibilidade após a publicação de um vídeo no YouTube pelo
usuário Vlad Pirineu, que apresentou supostos documentos e capturas de tela
como evidências. Posteriormente, a promotoria do condado de Giurgiu confirmou a
abertura de um processo criminal por pornografia infantil, com análises
técnicas em andamento nos dispositivos eletrônicos apreendidos.
Em
janeiro de 2026, o Tribunal de Giurgiu decidiu rejeitar o pedido de prisão
preventiva, optando por prisão domiciliar sob supervisão judicial. Entre as
medidas impostas, o prefeito foi proibido de manter contato com menores e de
utilizar determinados dispositivos eletrônicos.
Cazacu
nega todas as acusações e afirma ser vítima de perseguição política. Apesar
disso, o processo segue em investigação, e as autoridades destacam que a
legislação romena prevê penas severas para crimes relacionados à exploração
sexual de menores.
Este caso ocorre em um contexto mais amplo de intensificação do combate à exploração infantil na Romênia, especialmente após reformas europeias de 2024 que ampliaram a vigilância digital e as obrigações legais de proteção de menores online. Organizações como a Save the Children Romênia alertaram para a vulnerabilidade de comunidades rurais, onde denúncias costumam ser mais tardias.
Afiliação maçônica e a Loja
“Sfântul Gheorghe Nº 98”
Um
dos aspectos mais controversos do caso foi a revelação da afiliação maçônica de
Silviu Cazacu. Segundo fontes locais, o prefeito é membro da Grande Loja
Nacional da Romênia (Marea Loja Națională din România), uma das principais
obediências maçônicas reconhecidas internacionalmente.
Cazacu
estaria ligado à loja “Sfântul Gheorghe Nr. 98” (São Jorge nº 98), sediada em
Giurgiu, na rua Șoseaua Sloboziei. Fundada em 1998, essa loja reúne
empresários, funcionários públicos e figuras culturais, sendo descrita como um
espaço de networking, desenvolvimento pessoal e atividades filantrópicas
discretas.
Documentos
alegadamente associados ao caso indicam que a assinatura do prefeito conteria
símbolos e traços típicos da tradição maçônica, semelhantes aos exibidos em
registros oficiais do município.
Histórico da Maçonaria em
Giurgiu
A
Maçonaria romena foi proibida durante o regime comunista de Nicolae Ceaușescu,
mas ressurgiu após 1989. Em Giurgiu, a loja “Steaua Dunării” (Estrela do
Danúbio) foi fundada em 1990, seguida pela criação da “Sfântul Gheorghe Nr. 98”
em 1998.
Embora
oficialmente dedicada a princípios humanistas e iluministas, a Maçonaria local
tem sido alvo de críticas por supostas ligações com redes de influência
política e econômica.
Membros influentes e redes de
poder
O
escândalo revelou nomes de figuras influentes ligadas à loja maçônica de
Giurgiu, muitas delas associadas ao poder político e empresarial regional.
Alexandru Stanca
Ex-Venerável
Mestre da loja e ex-presidente do Rotary Club Danubius Giurgiu. Seu nome
aparece em um processo criminal em andamento relacionado a irregularidades
financeiras (processo nº 18571/3/2025).
Costin Răduca
Atual
líder da loja “Sfântul Gheorghe Nº 98”, empresário do setor de publicidade e
impressão eleitoral, proprietário das empresas RBC Producție Publicitară SRL e Robust
Advertising SRL. É acusado de obter contratos públicos por adjudicação direta,
sem licitação, ao longo da última década. Também foi presidente do Rotary Club
de Giurgiu.
Adrian Răduca
Irmão
de Costin, empresário dos setores agrícola e de construção civil, ligado a
empresas como Unicons Prest Garden SRL, Eurograno SRL e Man SRL. Considerado
colaborador próximo de Cazacu, teria participado de projetos municipais
financiados pelo Estado.
Essas
figuras também mantêm vínculos com o Rotary Club Danubius Giurgiu, organização
humanitária global conhecida por ações filantrópicas, mas que, segundo
críticos, teria sido usada como plataforma de networking político e
empresarial.
Nepotismo, contratos públicos e
suspeitas de clientelismo
O
caso trouxe à tona alegações de nepotismo e favorecimento em contratos públicos
envolvendo membros da Maçonaria local. Segundo críticos, redes maçônicas e
rotarianas teriam sido utilizadas para influenciar licitações e direcionar
recursos municipais.
O
falecido ex-prefeito de Giurgiu, Lucian Iliescu, é citado como exemplo de
dirigente que teria explorado essas redes para desvio de fundos públicos,
reforçando suspeitas sobre a estrutura de poder local.
Organizações
anticorrupção, como a Transparência Internacional Romênia, pediram auditorias
aprofundadas em contratos municipais envolvendo afiliados a essas organizações.
Implicações sociais e críticas à
Maçonaria romena
O
escândalo em Izvoarele reacendeu o debate sobre a falta de transparência em
círculos de poder discretos, especialmente em sociedades pós-comunistas. A
Maçonaria romena, com cerca de 10.000 membros, tradicionalmente se apresenta
como herdeira do Iluminismo, defendendo valores de fraternidade, racionalismo e
progresso moral.
Entretanto,
jornalistas como Florian Tincu alertam para uma “infiltração de elementos de
qualidade inferior” nesses círculos, transformando-os em plataformas de
clientelismo e influência política.
O
caso Cazacu é visto como um exemplo simbólico das tensões entre ideais
humanistas e práticas políticas locais marcadas por opacidade e favoritismo.
Desafios da Romênia rural
O
escândalo também expõe um problema estrutural da Romênia rural: prefeitos e
elites locais exercem poder significativo com supervisão limitada. Em regiões
pequenas, redes pessoais e fraternidades informais podem substituir mecanismos
institucionais de controle, aumentando o risco de abuso de autoridade.
Especialistas
apontam que a falta de fiscalização, somada à influência de redes discretas,
cria um ambiente propício para corrupção e crimes graves permanecerem ocultos
por longos períodos.
Conclusão
O
caso Silviu Marius Cazacu representa uma interseção explosiva entre crime,
política local e redes de influência discretas. Enquanto a investigação
criminal segue seu curso, o episódio levanta questões profundas sobre
transparência institucional, responsabilidade pública e o papel de organizações
discretas na vida política contemporânea.
Mais
do que um escândalo individual, o episódio de Izvoarele expõe fragilidades
sistêmicas da governança local na Romênia e reforça a necessidade de mecanismos
mais robustos de fiscalização e accountability para preservar a confiança
pública nas instituições democráticas.
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