O Mestre Instalado: Tradição, Controvérsia e Sobrevivência Ritual na Maçonaria


Da Redação

O título de Mestre Instalado ocupa um lugar singular e, muitas vezes, controverso dentro da tradição maçônica. Diferentemente do que alguns supõem, ele não constitui um grau superior, tampouco uma função própria da Loja Simbólica. Trata-se, antes, de uma situação maçônica híbrida, de natureza essencialmente ritualística e honorífica, proibida por muitos ritos e contestada por diversas obediências ao longo da história.

Em sua essência, o Mestre Instalado resulta de uma cerimônia ritual secreta, tradicionalmente reservada aos Veneráveis Mestres em exercício ou àqueles que acabaram de deixar o cargo. Essa cerimônia não confere poderes adicionais nem altera a atividade maçônica regular do iniciado. Seu significado é simbólico: uma entronização ritual, um reconhecimento da função eletiva exercida, sem consequências administrativas ou hierárquicas formais.

A prática da instalação do Mestre evoluiu de forma significativa ao longo dos séculos e sempre gerou debates. Durante muito tempo, sustentou-se a ideia de que o título de “Mestre” não existia nas antigas guildas operativas, sendo reservado a um único homem: o Mestre da Loja. Essa tese, porém, foi posteriormente enfraquecida pela descoberta de manuscritos medievais que comprovam a existência de mestres de ofício.

No século XVII, essa interpretação foi instrumentalizada por maçons abastados que hospedavam as lojas em suas próprias residências. Amparados por essa suposta tradição operativa, passaram a se estabelecer como Veneráveis Mestres vitalícios, defendendo que o cargo não era eletivo, mas comprado, herdado ou adquirido por prerrogativa social. Essa concepção ficou conhecida mais tarde como Maçonaria patrimonial.

Ritualmente, essa visão era reforçada por uma cerimônia secreta de instalação, realizada apenas na presença de outros mestres. O Venerável recebia então um sinal, uma palavra e um toque, comprometendo-se a jamais revelá-los. Mesmo após deixar o cargo, conservava a dignidade adquirida, passando a ser reconhecido como ex-mestre, portador de um status simbólico permanente.

 Rupturas e reformas no século XVIII

A crise sucessória causada pela morte do Príncipe de Bourbon-Condé, em 1771, foi decisiva para o destino dessa tradição na França. A disputa pelo cargo de Grão-Mestre da Grande Loja da França evidenciou a divisão entre os defensores da Maçonaria eletiva e os partidários da Maçonaria patrimonial.

A maioria optou pela ruptura e fundou, em 1773, o Grande Oriente da França, que instituiu de forma clara o princípio da eleição do Venerável Mestre, exigindo que ele fosse “elevado a esta dignidade pela livre escolha dos membros da loja”. Com isso, rejeitaram-se as nomeações vitalícias e as instalações secretas.

A minoria, entretanto, manteve a chamada Grande Loja de Clermont até a Revolução Francesa, preservando o caráter hereditário e ritualístico do Mestre Instalado. Debate semelhante ocorria simultaneamente na Inglaterra, no conflito entre Modernos e Antigos. Os Antigos criticavam duramente os Modernos por rejeitarem a cerimônia esotérica e secreta de instalação do Mestre da Loja, o que alimentou rivalidades por décadas.

Embora as motivações sociais e patrimoniais que deram origem ao Mestre Instalado tenham desaparecido há muito tempo, o ritual sobreviveu. Em algumas lojas ou grupos de lojas, ele ainda é praticado, por vezes de forma discreta ou até clandestina, devido a proibições expressas dentro de certas obediências.

Alguns ritos optaram por incorporar o Mestre Instalado em sua estrutura, situando-o como uma posição intermediária entre os graus simbólicos e os Altos Graus. Outras obediências apenas toleram essa prática como um resquício histórico da Maçonaria tradicional, sem lhe atribuir maior relevância iniciática.

A cerimônia em si não é considerada extraordinária nem particularmente inspiradora do ponto de vista simbólico. Sua marca mais visível permanece sendo o avental de Mestre, distinto por um detalhe específico: as letras M e B são substituídas por dois pequenos cordões de contas douradas, dispostos como um pingente no centro do avental.

O Mestre Instalado representa, portanto, um vestígio vivo das tensões históricas da Maçonaria entre tradição e reforma, hereditariedade e eleição, segredo e transparência. Mais do que um grau ou função, ele simboliza um capítulo complexo da evolução maçônica — preservado por alguns, rejeitado por outros, mas sempre revelador das transformações institucionais e filosóficas da Ordem ao longo do tempo.

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