Maçonaria Londrina Aposta no Tiktok e na Tecnologia Para Dialogar Com as Novas Gerações

 



Da Redação

Conhecida historicamente pelo discreto simbolismo, rituais reservados e tradições seculares, a maçonaria londrina vem adotando uma estratégia inesperada: marcar presença ativa nas redes sociais — especialmente no TikTok — para se afastar da imagem de organização secreta e dialogar com as novas gerações, em especial a Geração Z.

Símbolos ancestrais, apertos de mão ritualísticos e linguagem própria agora dividem espaço com vídeos curtos, trilhas de música eletrônica e tendências virais. No mês passado, a Grande Loja Metropolitana de Londres publicou um vídeo que levou milhares de espectadores ao interior do imponente Salão dos Maçons, mostrando centenas de membros em trajes cerimoniais sendo promovidos, ao som de batidas techno. O conteúdo rapidamente alcançou grande repercussão.

Outros vídeos explicativos também chamaram atenção do público. Em linguagem simples e visual, os maçons explicam, por exemplo, o significado das luvas brancas, associadas à pureza, inocência e igualdade, e mostram como identificar um maçom por meio de elementos como o avental, medalhas, pasta preta e demais insígnias. Alguns desses conteúdos já acumulam milhões de visualizações.

Na conta dos Maçons de Londres no TikTok, é possível ver membros de diferentes idades participando de tendências populares da plataforma. Em um dos vídeos, três maçons dublam o áudio viral “in the clerb we all fam”, apontando para seus aventais. Em outro, um integrante dança ao som de um remix da música There She Goes, do The La’s, acompanhado da legenda bem-humorada: “um rebolado por dia mantém a tristeza longe”.

O responsável pela conta, Omaid Hiwaizi, que já soma cerca de 42 mil seguidores, afirmou ao jornal The Times que a iniciativa busca “desmistificar” a maçonaria e mostrar que ela é formada por “pessoas comuns, de todas as classes sociais”. Segundo ele, as redes sociais permitem explicar quem são os maçons, o que fazem e por que a instituição ainda é relevante, de forma direta, acessível e humanizada.

Embora a conta pertença à Grande Loja Metropolitana de Londres, a entidade máxima da maçonaria inglesa, a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), também vem trabalhando há décadas para ampliar a transparência e combater equívocos históricos. Ainda assim, basta uma rápida leitura dos comentários no TikTok para perceber que muitos ainda associam a organização a teorias conspiratórias, como o controle do mundo ou ligações com os Illuminati.

Parte desse imaginário é alimentada por elementos tradicionais da Ordem, como apertos de mão específicos, termos próprios — a exemplo de “a Arte” e “Venerável Mestre” — e rituais iniciáticos que envolvem simbolismos corporais. Recentemente, a percepção de sigilo ganhou novo fôlego após a decisão da Polícia Metropolitana de Londres de exigir que agentes declarem filiação à maçonaria, sob a justificativa de que se trata de uma organização hierárquica cujos membros se comprometem mutuamente. Diante disso, os maçons anunciaram a intenção de contestar judicialmente a medida.

Para Shaun Butler, diretor de membros e comunicações da UGLE, muitos dos estigmas criados no início do século XX “infelizmente ainda persistem”. Maçom há dez anos, Butler afirma ser frustrante, já que grande parte das informações sobre a Ordem está publicamente disponível. A estratégia da UGLE, segundo ele, é substituir mitos por fatos, incentivar o diálogo e convidar o público a conhecer a instituição de perto. Embora não esteja presente no TikTok, a UGLE mantém atuação em outras redes, produz podcasts e organiza visitas guiadas.

Ainda assim, certos aspectos permanecem intencionalmente reservados. As cerimônias de graduação, descritas pela UGLE como experiências simbólicas e pedagógicas que incentivam o desenvolvimento pessoal, não são amplamente detalhadas online. Para Butler, vivenciar o ritual sem prévias é parte essencial do encanto e da tradição maçônica.

Apesar de muitos conteúdos parecerem direcionados aos mais jovens, Hiwaizi destaca que o objetivo é alcançar um público amplo e diverso. Butler reforça que, embora a organização conte hoje com cerca de 165 mil membros, a entrada de pessoas com menos de 40 anos vem crescendo de forma constante na última década, impulsionada pela busca por pertencimento, estrutura e conexão com valores duradouros.

Com origens ligadas aos pedreiros medievais responsáveis por castelos e catedrais da Inglaterra, a maçonaria sustenta princípios como integridade, amizade, respeito e serviço, além de forte atuação filantrópica. Presente em milhares de lojas ao redor do mundo, a Ordem permanece majoritariamente masculina, embora existam também lojas femininas, mantendo viva uma tradição que agora encontra novas formas de diálogo no ambiente digital.

(*) Artigo baseado em matéria publicada no jornal The Times: https://www.thetimes.com/uk/london/article/london-freemasons-swap-secrecy-for-tiktok-and-techno-72zlrszlt

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