Da Redação
Caracas acordou sem ter dormido. A madrugada de 3 de janeiro de 2026 entrou na cidade como um trovão que não pede licença: primeiro o silêncio estranho, depois o estrondo, e por fim a certeza de que nada voltaria a ser como antes. O céu, acostumado a promessas revolucionárias e discursos intermináveis, foi riscado por luzes que não vinham de fogos nem de celebrações, mas de ataques cirúrgicos que deixaram a capital em suspenso — entre o medo e a incredulidade.
Nas ruas, portas fechadas falavam mais alto que qualquer pronunciamento oficial. O comércio abaixou as grades não apenas por prudência, mas por cansaço histórico. A Venezuela já havia aprendido a sobreviver à escassez, à inflação em três dígitos, à espera infinita por um amanhã melhor. O que ninguém esperava era ver o presidente algemado em vídeos gravados longe dali, em solo estrangeiro, enquanto o país tentava entender quem, afinal, estava no comando.
Maduro, agora ausente, tornou-se paradoxalmente onipresente. Seu nome ecoava nas rádios que ainda funcionavam, nos sussurros em filas improvisadas, nas redes sociais intermitentes. Uns falavam em libertação, outros em humilhação nacional. Para muitos, porém, a palavra mais repetida era “incerteza”. Quem governa quando o governo é levado para fora? Quem manda quando há mais de uma posse simbólica acontecendo ao mesmo tempo?
Delcy Rodríguez, amparada pela Suprema Corte, assumia interinamente no papel. María Corina Machado, com a convicção de quem venceu uma eleição contestada, reivindicava outro caminho. E, acima deles, pairava a sombra pesada da administração interina anunciada por Washington, como se a soberania tivesse sido colocada em pausa, aguardando instruções.
Enquanto isso, a vida real seguia seu curso áspero. Hospitais lidavam com apagões. Famílias calculavam refeições com a precisão de quem conta moedas. Quase oito milhões de pessoas precisavam de ajuda humanitária, número tão grande que já não cabia na imaginação, apenas nas estatísticas frias dos relatórios internacionais.
Do lado de fora, o mundo reagia como sempre reage quando a história se acelera demais. O Brasil oficial falava em diplomacia; o Brasil político se dividia em aplausos e condenações. Rússia e China erguiam a bandeira da soberania violada. Na ONU e na OEA, palavras como “contenção” e “mediação” circulavam com a urgência de quem tenta apagar um incêndio com discursos bem-intencionados.
Mas nenhuma dessas vozes estrangeiras alcançava plenamente a cozinha escura de um apartamento em Caracas, onde uma vela improvisada iluminava rostos cansados. Ali, a pergunta não era geopolítica, nem ideológica. Era simples e brutal: haverá paz amanhã? Ou apenas mais um capítulo de uma crise que parece ter feito da Venezuela seu endereço permanente?
A madrugada passou, mas deixou rastros. E o dia
seguinte nasceu frágil, como se o país inteiro estivesse aprendendo novamente a
respirar, sem saber quem segura o relógio da história — nem quanto tempo ainda
resta.



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