As Raízes Secretas e Ocultas do Nazismo Uma Jornada Pelas Sombras da História

 


Por Alice Dubois

O nazismo, regime totalitário responsável por alguns dos maiores horrores do século XX, costuma ser analisado sob os prismas da política, da economia e da propaganda de massas. Entretanto, por trás da retórica inflamável de Adolf Hitler, das marchas coreografadas e da máquina repressiva da SS, esconde-se uma dimensão menos conhecida e profundamente inquietante: um emaranhado de ocultismo, misticismo racial e doutrinas esotéricas surgidas na virada do século XX.

Essas influências, frequentemente tratadas como excentricidades ou mitos marginais, revelam um fascínio pelo invisível que alimentou, direta ou indiretamente, a ideologia nazista. Viena, epicentro cultural e intelectual do Império Austro-Húngaro, foi também o berço dessa “modernidade oculta”. É justamente esse universo que a exposição “Modernidade Oculta: o Fascínio pelo Oculto no Século XX”, em cartaz no Museu Leopold, lança luz, mostrando como o espiritualismo, a teosofia e a ariosofia pavimentaram o caminho para um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.

 As origens esotéricas: da Teosofia à Ariosofia

No coração dessas correntes ocultistas está a Teosofia, movimento espiritual fundado em 1875 por Helena Blavatsky, mística russa que defendia a existência de uma sabedoria universal primordial. Em obras como A Doutrina Secreta, Blavatsky propunha uma visão da humanidade guiada por mestres invisíveis e organizada em “raças-raiz” sucessivas. Embora sua intenção original fosse conciliadora e espiritual, essas ideias foram reinterpretadas e distorcidas em solo europeu, especialmente nos círculos vienenses do início do século XX, onde se misturaram com teorias racistas e antissemitas já em circulação.

Foi nesse caldo cultural que surgiu a Ariosofia, um desdobramento etnonacionalista da Teosofia, impregnado de eugenia e supremacismo racial. Seu principal expoente foi Jörg Lanz von Liebenfels (1874–1954), ocultista vienense e ex-monge cisterciense. Fundador da Nova Ordem Templária, organização religiosa eugenista, Lanz desenvolveu em sua obra Teozoologia; ou a Ciência Relacionada aos Homens-Macaco de Sodoma e ao Elétron Divino a ideia de uma raça ariana divina, supostamente superior a povos considerados degenerados, que ele chamava de “homens-macaco”.

Seu periódico antissemita Ostara, amplamente difundido, foi lido por um jovem Adolf Hitler durante seus anos de pobreza em Viena. Nessas páginas, o racismo não era apenas biológico ou social, mas elevado a um plano místico, quase sagrado.

Paralelamente, Guido List (1848–1919), escritor e ocultista vienense, desenvolveu o armanismo, uma doutrina que defendia a existência de cinco raças históricas e atribuía aos arianos uma origem divina. List combinava runas germânicas, mitologia nórdica e a suástica — símbolo de origem hindu — criando um sistema simbólico que transformava o ocultismo em ferramenta ideológica. O espiritual deixava de ser caminho de elevação individual para se tornar justificativa do ódio racial.

 Sociedades secretas: do esoterismo ao Partido Nazista

Essas doutrinas não permaneceram restritas a salões intelectuais ou publicações obscuras. Elas se infiltraram em sociedades secretas que funcionaram como verdadeiros incubadores do nazismo. Grupos como a Reichshammerbund, a Ordem Teutônica e, sobretudo, a Sociedade Thule, fundada em Munique em 1918, foram decisivos nesse processo.

Inspirada pela Ariosofia, a Sociedade Thule defendia um pangermanismo místico, segundo o qual os arianos seriam herdeiros de uma civilização primordial perdida, a mítica ilha de Thule, lar dos hiperbóreos. Seus membros praticavam rituais inspirados no paganismo germânico e viam a política como extensão de uma missão espiritual. Não por acaso, esses círculos tiveram papel direto na fundação do Partido Operário Alemão, que mais tarde se tornaria o Partido Nazista.

 Arte, espiritualismo e fascínio pelo invisível

O ocultismo vienense não se limitou à política ou à pseudociência racial. Ele também seduziu artistas e intelectuais. Karl Wilhelm Diefenbach (1851–1913), pintor simbolista, teosofista e vegetariano, é um exemplo emblemático dessa fusão entre arte e espiritualidade. Fundador da comunidade alternativa Humanitas, nos arredores de Viena, Diefenbach produziu obras como Ecce Homo (1890) e Esfinge (1897–1907), nas quais o Cristo cósmico simboliza uma ascensão espiritual a planos superiores, ecoando conceitos como corpos astrais e reencarnação.

Outras práticas reforçaram esse clima místico: o espiritualismo, popularizado por Allan Kardec desde a década de 1850, ganhou adeptos; fotógrafos como Adolf Ost e Friedrich Strnischtie tentaram capturar “espíritos” invisíveis; performances hipnóticas, como as da dançarina Magdeleine Guipet, exploravam as fronteiras entre o consciente e o desconhecido. Esse ambiente contribuiu para naturalizar a ideia de realidades ocultas, facilmente apropriáveis por discursos extremistas.

 Influência no nazismo: entre mitos e realidades

Embora Hitler não possa ser descrito como um ocultista convicto, sua Weltanschauung foi permeada por esse universo simbólico. Leituras como Ostara e o contato indireto com essas correntes ajudaram a moldar sua visão messiânica e racial do mundo. Já figuras centrais do regime abraçaram explicitamente essas ideias.

Heinrich Himmler, chefe da SS, era obcecado por runas, castelos medievais e rituais pseudo-germânicos. Sob sua liderança, foi criada a Ahnenerbe, instituição pseudocientífica dedicada a “provar” a superioridade ariana por meio de escavações arqueológicas, estudos folclóricos e especulações ocultistas. Rudolf Hess, por sua vez, demonstrava interesse por astrologia e agricultura biodinâmica.

A exposição do Museu Leopold procura, contudo, evitar simplificações. Ela distingue a teosofia original, de cunho espiritual e universalista, de suas deturpações etnonacionalistas. Os curadores Matthias Dusini e Ivan Ristic destacam como um ocultismo inicialmente emancipatório foi progressivamente corrompido, tornando-se instrumento de exclusão e ódio:

> “Essas sociedades secretas, como a Reichshammerbund, a Ordem Teutônica e a Sociedade Thule, contribuíram para a ascensão do partido nazista.”

Ainda assim, a exposição enfrenta o desafio de tornar acessível uma iconografia densa e hermética, o que pode dificultar a compreensão para o público não iniciado.

 Uma exposição ousada e necessária

Em cartaz no Museu Leopold, em Viena, até 18 de janeiro de 2026, a exposição “Modernidade Oculta: o Fascínio pelo Oculto no Século XX” é uma iniciativa corajosa. Por meio de pinturas, fotografias e extensos textos explicativos, ela traça o fio condutor que liga o ocultismo vienense às bases ideológicas do nazismo. Apesar da predominância do texto e da ausência de recursos multimídia, a mostra é amplamente elogiada por sua profundidade e rigor.

 Lições de um passado sombrio

As raízes ocultistas do nazismo não são meras curiosidades históricas. Elas lembram como o misticismo, quando combinado com racismo e nacionalismo extremo, pode servir para legitimar a desumanização. Em um mundo onde teorias da conspiração e discursos irracionais voltam a ganhar força, revisitar essas sombras é um exercício de vigilância.

Ao explorar esse passado obscuro, a exposição vienense nos convida a defender a luz da razão. Compreender como ideias espirituais foram distorcidas até se tornarem armas ideológicas é essencial para garantir que a história não se repita. Viena, com seu legado ambíguo, oferece-nos um espelho incômodo, mas necessário, dos perigos da irracionalidade.

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