Perón e Alfonsín eram maçons, confirma loja argentina


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Da Redação

Documentos revelam que os falecidos presidentes argentinos eram membros ativos da loja. Ao longo de sua vida, Perón criticou publicamente a Maçonaria e negou fazer parte dela.

Um conjunto de documentos até então desconhecidos revelou que os falecidos presidentes argentinos Juan Domingo Perón e Raúl Alfonsín eram maçons. A notícia pôs fim a décadas de rumores sobre a suposta filiação de Perón à maçonaria, embora também levante novas questões.

Os documentos foram divulgados pela Grande Loja da Argentina dos Maçons Livres e Aceitos, que os exibiu pela primeira vez como parte de sua exposição de portas abertas em sua sede durante a Noite dos Museus, no sábado, na cidade de Buenos Aires.

O Grão-Mestre argentino Pablo Lázaro disse ao portal de notícias Infobae que a Grande Loja, uma federação composta por lojas menores de toda a Argentina, vem coletando documentos há muito tempo para seu arquivo geral, e foi assim que encontraram esses registros.

Como parte desse processo, os maçons encontraram cartas e documentos que mencionavam diretamente Perón e Alfonsín como membros da loja. Embora poucas informações tenham sido reveladas, uma análise mais aprofundada dos arquivos e de possíveis novos documentos poderia proporcionar uma melhor compreensão da participação deles no grupo, outrora secreto.

Perón, finalmente maçom confirmado

Havia muita especulação sobre o envolvimento de Juan Domingo Perón com a maçonaria, embora ele tenha criticado o grupo publicamente e duramente durante sua vida. Na década de 1940, antes de se tornar presidente, ele fez parte de uma loja militar secreta conhecida como GOU, que se opunha veementemente aos maçons.

Em 1970, durante seu exílio, Perón concedeu uma entrevista histórica ao jornalista Tomás Eloy Martínez, na qual afirmou que os maçons faziam parte da “sinarquia internacional” que derrubou seu governo em 1955, juntamente com “capitalismo, sionismo, comunismo e o clero tradicional”. Nessa mesma entrevista, porém, ele reconheceu que a maçonaria foi fundamental para a Argentina conquistar sua independência da Espanha em 1816.

No entanto, um documento inédito afirma que Perón era, na verdade, um maçom do 33º grau, a posição mais alta que um membro da loja pode alcançar. Isso é mencionado em uma carta escrita pela Grande Loja da Itália, datada de 27 de abril de 1958 — três anos após o golpe que o depôs.

A carta foi enviada a Perón enquanto ele estava na República Dominicana durante seu exílio. Também foi enviada ao ditador nicaraguense Anastasio Somoza e aos presidentes Carlos Armas (Guatemala) e José María Lemub (El Salvador), que são mencionados como maçons do 33º grau.

Na carta, Perón é mencionado como “Soberano Grande Comandante e Grão-Mestre” da maçonaria, o que significa que ele havia alcançado os mais altos graus da loja. Os maçons italianos pediram-lhe ajuda financeira para financiar as candidaturas de alguns de seus membros nas eleições legislativas daquele ano em seu país, alegando que a situação era “séria, complexa e difícil”.

Segundo Lázaro, Perón aparentemente iniciou sua trajetória na maçonaria na Suíça.

“Durante seu exílio, Perón ingressou na Grande Loja Alpina da Suíça”, disse Lázaro ao Infobae. “Ele alcançou o grau 33 alguns anos depois e retornou à Argentina como maçom. Uma loja que atuava no Congresso, a Loja União Nacional, trabalhou muito para isso.”

Perón retornou definitivamente à Argentina em 1973, após quase 18 anos de exílio e proscrição imposta pelos militares, e foi eleito presidente pela terceira vez naquele mesmo ano.


Alfonsín, um presidente maçônico

Ao contrário de Perón, havia pouca ou nenhuma informação que ligasse Alfonsín à maçonaria. Em 2022, Lázaro afirmou publicamente que Alfonsín havia sido pedreiro, mas disse que não havia documentação para comprovar a alegação.

Entre os documentos recentemente revelados, encontra-se um formulário preenchido à mão com os dados de Alfonsín, solicitando admissão na grande loja maçônica de Entre Ríos, datado de 1974, acompanhado de uma foto em preto e branco de Alfonsín, com aproximadamente 47 anos, e sua assinatura. Ele se tornaria presidente da Argentina em 1983.

Além disso, os maçons encontraram uma carta que relatava uma visita de Alfonsín à Grande Loja chilena em 1983, na qual ele solicitava apoio para sua candidatura à presidência. A carta, aparentemente escrita após o falecimento de Alfonsín em 2009, o descreve como um “querido irmão”, termo usado para se referir a outros maçons.

“Desde o presidente Salvador Allende até agora, não tínhamos tido um querido irmão maçom que fosse candidato à presidência. Portanto, a visita do querido irmão Raúl Alfonsín foi duplamente atraente para os irmãos chilenos”, dizia a carta.

Para Lázaro, os documentos referentes a Perón e Alfonsín “não só comprovam que eram membros” da maçonaria, como também demonstram que eram ativos nela.

                 

Alvenaria na Argentina

A Argentina possui uma longa história de líderes maçons, que remonta à época da independência, aos primórdios do país como nação independente. Heróis da independência como José de San Martín e Manuel Belgrano — juntamente com muitos outros que lutaram pela independência argentina — eram maçons, assim como outros importantes líderes e presidentes como Domingo Faustino Sarmiento, Bartolomé Mitre, Julio Argentino Roca e Bernardino Rivadavia, entre muitos outros.

Entre as figuras políticas maçônicas mais modernas, incluem-se o presidente Arturo Illia, o ditador Emilio Massera e o atual deputado nacional Julio Cobos.

A Grande Loja Argentina se descreve como uma “sociedade filantrópica, filosófica e progressista” dedicada ao “aperfeiçoamento moral e intelectual das pessoas”. Em seu site, afirmam trabalhar para “contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária, justa e inclusiva”.

A loja já não é uma sociedade secreta, mas sim “discreta”, como Lázaro a descreveu. Sua sede — chamada Palácio Cangallo, coincidentemente na rua Perón, 1242 — abre as portas para visitantes de tempos em tempos. Ela também aceita mulheres como membros há 24 anos.

Foto da capa: carta da Grande Loja Italiana confirmando que Juan Domingo Perón era maçom.

Fonte: Infobae .






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