O Destino Humano na Era da Inteligência Artificial: entre a Crise do Logos e o Risco do Pós-Humano

Paolo Ercolani

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A emergência da Inteligência Artificial generativa, o avanço das tecnologias digitais e a crescente influência do poder tecno-financeiro inauguram uma época de contrastes profundos. É um tempo marcado por promessas de progresso impressionante, mas também por ameaças silenciosas à democracia, ao pensamento crítico e à própria noção de humanidade.

O filósofo italiano Paolo Ercolani, professor da Universidade de Urbino e estudioso de Nietzsche e da tradição clássica, tem sido uma das vozes mais lúcidas nesse debate. Em suas reflexões, ele chama atenção para algo que muitos preferem ignorar: a IA não está apenas crescendo — está crescendo às custas da inteligência humana.

Desde Alan Turing, especula-se se as máquinas seriam capazes de igualar o pensamento humano. Para Ercolani, essa não é mais a pergunta relevante. A questão agora é: quanto da nossa própria inteligência estamos perdendo ao terceirizar capacidades cognitivas, emocionais e relacionais para sistemas digitais?

Pesquisas recentes, lembra ele, mostram um declínio das capacidades humanas desde a entrada massiva das tecnologias de última geração em nossas vidas. A IA pode ser uma ferramenta formidável — capaz de potencializar o conhecimento, acelerar descobertas científicas e ampliar possibilidades no campo médico, científico e militar.

Mas o risco maior é a substituição progressiva do pensamento pelo automatismo. Uma sociedade que deixa de pensar se transforma, inevitavelmente, numa sociedade manipulável.

 O fascínio do transumanismo: eterna juventude, corpo digital e a promessa da imortalidade

Para compreender os rumos atuais, Ercolani recorre ao transumanismo — movimento intelectual e tecnológico que enxerga nas máquinas a via para superar definitivamente os limites humanos. Seus idealizadores, inspirados pela filosofia de Nietzsche, dizem que:

 o homem deve abandonar o corpo e fundir-se com a tecnologia,

 o avatar substituirá o organismo,

 o Metaverso será o habitat definitivo,

 a imortalidade é uma possibilidade real.

A grande questão é: o que permanece do humano quando eliminamos o corpo, os limites, a fragilidade e a impermanência?

Ercolani alerta que já vimos no século XX como certas leituras do pensamento nietzschiano foram instrumentalizadas para projetos de engenharia social — e os transumanistas representam, segundo ele, uma nova tentativa de criar uma “super-humanidade”, agora digital.

Os gregos chamavam de logos o tripé fundamental da vida civilizada: estudo, pensamento e palavra — nessa ordem. Era o processo pelo qual um indivíduo se tornava capaz de dialogar, contribuir e participar da vida social.

Ercolani observa que vivemos exatamente o oposto:

 fala-se antes de pensar,

 opina-se antes de estudar,

 reage-se antes de compreender.

As redes sociais aceleram essa degradação: cada indivíduo transforma-se no portador da “sua própria verdade”, impermeável ao diálogo. Esse empobrecimento do logos abre espaço para aquilo que o filósofo chama de sociedade obtusa — uma sociedade que funciona, mas não pensa.


Outro ponto central das análises de Ercolani é a aliança entre tecnologia e finanças globais. Os grandes nomes do Vale do Silício — Elon Musk, Mark Zuckerberg, Larry Page — são, como ele diz, os novos arquitetos do poder. Eles não influenciam a política; eles a determinam.

As principais empresas tecnológicas possuem faturamentos superiores ao PIB de países médios. São elas que:

 moldam o imaginário coletivo,

 controlam dados pessoais de bilhões de indivíduos,

 definem a agenda política e cultural,

 condicionam comportamentos e opiniões.

É um totalitarismo suave, sem polícia secreta, sem prisões, sem censura explícita. Basta uma tela brilhante. E nós a carregamos no bolso.

 A geração ansiosa: jovens hiperconectados e emocionalmente esgotados

Estudos citados pelo filósofo — como os do psicólogo Jonathan Haidt — mostram que a hiperconexão digital criou uma geração simultaneamente dependente e infeliz.

Os adolescentes sabem que os aplicativos os deixam ansiosos, inseguros e vulneráveis. Mas também sabem que, se desconectarem, serão excluídos socialmente. A armadilha é perfeita.

Ercolani argumenta que seria necessário:

 proibir redes sociais para menores,

 restringir celular em ambiente escolar,

 educar para a tecnologia em vez de entregá-la como recreação,

 reforçar a vida concreta e as relações reais.

A dificuldade? Essas medidas colidem com o maior negócio econômico do século.



 A implosão do Ocidente e a democracia ameaçada

Para Ercolani, a crise democrática no Ocidente não é um acidente — é consequência direta da degeneração do logos e do domínio tecno-financeiro.

Se o povo (demos) se dissolve nas redes e na superficialidade, outros assumem o cratos — o poder. E esses “outros” hoje são:

 as grandes corporações,

 os algoritmos,

 os interesses financeiros globais.

A democracia, diz ele, exige cidadãos instruídos, críticos e comprometidos. O que observamos é exatamente o contrário. E o risco, portanto, é duplo:

1. a democracia entra em colapso,

2. o próprio Ocidente implode — levando consigo os valores que moldaram nossa ideia de humanidade.

 A crise da política: quando se perde a visão, resta apenas a gestão

Discípulo de Domenico Losurdo, Ercolani reforça um ponto crucial: a política perdeu sua capacidade de pensar o futuro.

Com o fim das ideologias, desapareceram também:

 as grandes ideias,

 os projetos de longo prazo,

 a vontade de interpretar o presente,

 a capacidade de formular visão.

Sem teoria, a política torna-se apenas administração da emergência — e gestores de curto prazo não conseguem enfrentar a complexidade do nosso tempo, nem proteger o humano diante do avanço tecnológico.

 Nietzsche como profeta da era da IA

No seu livro Nietzsche l’iperborea, Ercolani mostra como o filósofo alemão antecipou a crise atual. Nietzsche é inspiração tanto para movimentos humanistas quanto para projetos radicais de superação do homem.

Seu pensamento é potência pura — mas também dinamite.

Os transumanistas veem nele uma legitimação para a super-humanidade digital. Já outras leituras defendem um retorno ao humano concreto: frágil, mortal, limitado — e por isso mesmo insubstituível.

 Verdade e democracia: horizontes que iluminam, mas nunca se alcançam

Ercolani conclui com uma advertência:

Quem afirma ter encontrado a Verdade ou representar a única forma legítima de democracia abre caminho para conflitos e autoritarismos.

Tanto a verdade quanto a democracia devem ser tratadas como ideais reguladores — guias que orientam, mas que nunca se alcançam plenamente.

Numa época em que indivíduos nas redes sociais se autoproclamam donos da verdade e guardiões da “verdadeira democracia”, lembrar essa velha lição filosófica pode ser um ato de sobrevivência.

A humanidade está diante de escolhas decisivas. A IA pode ampliar nossas capacidades, salvar vidas, transformar a ciência e nos levar a conquistas inéditas. Mas também pode reduzir o humano a engrenagem, a dado, a avatar, a peça de um sistema que funciona sem necessidade de pensamento.

A questão, portanto, não é “o que a IA fará conosco”, mas o que faremos de nós mesmos enquanto ela avança.

Precisamos reconstruir:

 o estudo,

 o pensamento,

 o diálogo,

 a política com visão,

 e o sentido de comunidade.

A técnica pode ser uma aliada poderosa — desde que permaneça nas mãos do homem, e não o contrário.

Caso contrário, arriscamo-nos a perder não apenas a democracia ou o Ocidente, mas algo ainda maior: a própria condição humana.

  


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