Da Redação
Todos os anos, quando novembro chega, o vento
parece carregar um rumor antigo pelas ruas do Brasil. Um rumor que vem de longe
— dos tempos em que a terra vermelha era riscada por correntes e, mesmo assim,
floresciam batuques, histórias, resistências. É nesse ritmo que o dia 20 de
novembro surge no calendário: não apenas como uma data, mas como uma lembrança
viva.
Foi no século XXI, e ainda tão recente quanto
deveria ser o reconhecimento, que o Brasil colocou oficialmente no calendário o
Dia da Consciência Negra. Mas, na verdade, ele nasceu muito antes — nasceu no
instante em que Zumbi dos Palmares tombou, em 1695, lutando por um sonho
simples e imenso: liberdade.
Zumbi não sabia, mas seu último suspiro se
tornaria um marco: a prova de que a resistência negra nunca foi silêncio,
sempre foi voz.
Décadas depois, estudantes, militantes e
intelectuais negros começaram a resgatar essa memória. Não queriam um feriado
por formalidade; queriam um espelho. Uma data que dissesse às crianças de pele
retinta que sua história não começava na escravidão, mas na dignidade. Em 1971,
o Grupo Palmares, em Porto Alegre, lançou a semente. Em 1978, com o Movimento
Negro Unificado, a semente virou árvore. E em 2011, o Estado brasileiro
finalmente reconheceu o que a rua já sabia: que o dia 20 de novembro é uma
bússola moral.
Hoje, o Dia da Consciência Negra carrega muitas
camadas. Para alguns, é feriado; para outros, é protesto; para outros tantos, é
festa. Mas, no fundo, é tudo isso junto — porque consciência não é algo que se
enquadra num único gesto.
É o menino que olha para o busto de Zumbi na
praça e pergunta ao pai quem ele foi.
É a menina que entra no palco com seu cabelo
crespo em sua forma mais orgulhosa.
É a senhora que relembra a avó contando casos
do quilombo como quem folheia páginas vivas.
É um país que, aos poucos, aprende a enxergar que não há futuro sem encarar o passado de frente.
O 20 de novembro não é um lembrete de tristeza — é um lembrete de movimento. De que o povo negro sempre caminhou, mesmo quando tentaram arrancar o chão. É um dia que fala de dor, sim, mas também de invenção: a língua reinventada, a fé recriada, a música que virou mundo, a força que virou cultura.
No fim das contas, o Dia da Consciência Negra
não celebra a queda de Zumbi, mas a sua teimosia em ficar de pé dentro de cada
brasileiro que sonha com justiça.
E todos nós, de um jeito ou de outro, sabemos
que liberdade verdadeira nunca é dada — é conquistada, relembrada, recontada.
Por isso, quando novembro retorna e o rumor
antigo sopra outra vez, a mensagem é simples: consciência não é um dia, mas um
compromisso. E cada 20 de novembro é apenas o lembrete de que ainda estamos
escrevendo o resto da história.


0 Comentários