Posicionamento do C.E.M.I. em resposta às declarações de Dom Antonio Stagliano


O Conselho do Centro de Estudos Maçônicos Internacionais decide emitir a seguinte posição na resposta às declarações de Antonio Stagliano, (Veja Aqui) Presidente da Pontifícia Academia de Teologia do Vaticano:

É inaceitável que uma instituição reivindique primazia sobre outras devido à forma como entende ou pratica a espiritualidade.

No campo das ideias, a Maçonaria dá ênfase à razão e à busca individual pela verdade, sem exclusões ou limites ao pensamento humano. Em contraste, a Igreja Católica enfatiza a fé e a revelação divina. É evidente que existem diferenças, pois não estamos falando da mesma instituição (existem até variantes maçônicas e cristãs diferentes entre si). Estas divergências não legitimam nem justificam o proselitismo coercivo, a discriminação, a pressão e a perseguição por motivos religiosos ou de consciência.

O catolicismo representa um caminho no vasto oceano da espiritualidade. Qualquer tentativa de estabelecer a supremacia sobre outras expressões espirituais é repreensível.

A fé católica baseia-se na crença na verdade da revelação divina, adotando uma abordagem teísta, ou seja, reconhecendo um Deus que é o criador e governante do mundo. Este ser é pessoal, providente do universo, onipotente, onisciente, onipresente e onibenevolente. Transcende o mundo, mas também intervém nele de forma milagrosa.

Os maçons defendem e promovem a liberdade de consciência, religião e pensamento. Portanto, a imposição de uma fé única é inaceitável. Cada maçom busca sua própria iluminação através do esforço, da razão e do conhecimento de si mesmo e da natureza. A Maçonaria não é uma religião que possa ser rotulada sob parâmetros religiosos. Em vez de estabelecer uma única denominação da divindade, admite tudo sob a fórmula “Grande Arquiteto do Universo”. Diferentemente do que afirmou Stagliano, isso não implica a criação de um novo deus com características especiais.

Stagliano tenta definir a Maçonaria como “Ariana”, o que é um grave erro teológico. Para apoiar esta afirmação, primeiro teria de considerar a Maçonaria uma entidade cristã. Conforme observado, a Maçonaria abrange todas as crenças e filosofias, não apenas as cristãs. Além disso, comete um erro histórico ao fazer recuar a sua instituição mais de um século atrás, ignorando que, no Concílio Vaticano II, a Igreja Católica concordou em respeitar e colaborar com as religiões não-cristãs e cristãs não-católicas. Então, é válido o catolicismo criticar o judaísmo por não reconhecer o caráter messiânico de Jesus? É aceitável atacar a religião muçulmana por atribuir apenas um caráter profético a Jesus? É coerente com o Concílio Vaticano II criticar as correntes cristãs que não admitem a consubstancialidade de Jesus com o Pai? A resposta, de acordo com as decisões adoptadas nesse Conselho, seria que não é válido, não é coerente e não é aceitável. Eles admitem declarações erradas à autoridade? Claro que não.

Stagliano tenta enquadrar a fórmula maçônica do Grande Arquiteto do Universo na teoria do Design Inteligente, considerando o Arquiteto como o Relojoeiro. Ele não compreendeu que a fórmula permite esta e muitas outras considerações. A inclusão do nome Arquiteto se deve ao fato dos ensinamentos maçônicos serem baseados na arte operacional. Embora tenha razão ao afirmar que o caminho espiritual da Maçonaria é a razão, esquece que um dos Padres da sua igreja, Tomás de Aquino, afirmou que a razão e a fé são complementares.

Como afirma Stagliano, certamente, no conceito de fraternidade, “estamos a distâncias siderais”. Os maçons não condenam, torturam, excomungam, declaram pecar, aprisionam ou queimam ninguém por suas crenças. A Maçonaria baseia a fraternidade no amor à humanidade, no sentimento de Irmandade concedido pela tríplice igualdade de origem, necessidade e destino.

Quanto à sua referência à sabedoria esotérica, para a Maçonaria acumula sabedoria humana a partir das expressões primitivas do racionalismo e da espiritualidade, exaltando a gnose espiritual de todos os tempos. Essa sabedoria esotérica é o que guarda o livro sagrado que é a natureza, que procuramos constantemente ler a partir de diferentes formas de pensamento e práticas espirituais. Esse conhecimento foi disponibilizado para quem quis se aprofundar nele e hoje o estamos democratizando através do nosso trabalho digital.

Assumir a primazia de condenar, discriminar, declarar pecadores ou hereges aqueles que pensam diferente ou não assumem suas crenças é um ato abusivo e inapropriado para estes tempos. Desconfiamos de todo dogmatismo e de toda intolerância sectária que se acredita dona da verdade, ainda mais com os precedentes de sacrifícios desumanos a quem promoveu verdades que se impõem no mundo hoje.

Direitos iguais para todas as pessoas, respeito pelas ideias, crenças, práticas religiosas e espirituais de outras pessoas são princípios fundamentais para uma convivência saudável.

O diálogo respeitoso e fraterno é sempre desejável, promovendo a compreensão mútua e colaborando na preservação dos princípios e valores do Humanismo, em busca da paz e de um mundo melhor, com respeito e tolerância. Fazemos um apelo fraterno para que deixemos de fazer condenações e proibições que violam os Direitos Humanos: liberdade de crença, consciência, pensamento, associação, etc. Apelamos a que encontrem e fortaleçam valores comuns. Os inimigos da humanidade são aqueles que procuram a sua degradação, não aqueles que procuram a sua melhoria contínua.

 

HUMANIZANDO O CONSELHO C.E.M.I COM TECNOLOGIA. EM 29 DE FEVEREIRO DE 2024

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