MOZART, MAÇONARIA E VIENA

Por Vitor Manuel Adrião - Fonte: Lusophia

Paramentos Maçônicos de Mozart
Na Rua Domgasse, n.º 5, encontra-se a casa em Viena de Mozart, a única que se conserva da dezena que possuiu nesta cidade austríaca. Esta casa (Mozarthaus) onde o compositor residiu com a sua família de 1784 a 1787, consta de seis salas, sendo na terceira que se podem ver objectos maçónicos comprovando a ligação profunda de Mozart à Maçonaria.
Vê-se exposta uma bonita faixa de fundo azul decorada com fios de ouro onde se bordou um triângulo com o Nome de Deus em hebraico, como seja, Yod – He – Vau – Heth = Jehovah, o Grande Arquitecto do Universo. Da faixa pende uma jóia constituída de um pelicano alimentando os seus sete filhotes. São as insígnias do Grau 18 de Cavaleiro do Pelicano ou Príncipe Rosacruz na Maçonaria Escocesa, sendo que o pelicano é a representação simbólica do sacrifício piedoso a favor do próximo em Humanidade, o que confere com a natureza mística deste Grau maçónico de característica essencialmente cristã, onde a mesma ave também aparece na simbologia eclesiástica como indicativa da Paixão de Cristo e da Eucaristia. É, em suma, o símbolo heráldico da piedade. Sob a faixa paramental aparece o avental maçónico do Grau Rosacruz de Mozart, obra bordada à mão com grande mestria onde se vê a Rosa no centro da Cruz, esta expressiva da personalidade e da matéria abrilhantada, iluminada pela flor da individualidade e do Espírito, conferindo a Paz corporal e espiritual que é o que representam os ramos de oliva em volta.
Aparece ainda um outro avental, também bordado à mão ricamente trabalhado. Nele vê-se um Templo ladeado por duas colunas tendo por cima o esquadro e o compasso com o M ao centro, que será indicativa tanto de Maçonaria como de Mozart. Trata-se do avental do Grau 16 de Príncipe de Jerusalém na Maçonaria Escocesa. É um Grau Capitular concedido por comunicação – ao contrário do anterior que é conferido por iniciação – pelo Capítulo Rosacruz ou a Maçonaria Vermelha, cor associada ao sangue do martírio em prol do Bem da Humanidade, da sua evolução moral e intelectual, a favor de uma maior ética e um mais amplo conhecimento que possa transformar o homem de simples profano e neófito em Iniciado e Mestre, assim podendo finalmente penetrar o Templo da Sabedoria Divina que é o que significa o Templo de Salomão retratado no avental.
Johannes Chrysostomus Wolfgang Theophilus Mozart nasceu em Salzburg, Áustria, em 27 de Janeiro de 1756, tendo falecido em Viena em 5 de Dezembro de 1791. Ele preferia ser chamado de Amadeus, pois o nome Theophilus, dado pelo seu padrinho Johannes Theophilus Pergmayr, que significa em grego “amigo de Deus”, tinha na sua forma latina um som mais agradável: Amadeus. Algumas vezes assinava com a forma francesa Amadè. Este incomparável génio da arte musical desde muito cedo andou de proximidades com a Ordem Maçónica, a qual jogou papel importante na sua vida e obra.
Wolfgang Amadeus Mozart foi admitido como Aprendiz na Loja Maçónica vienense Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em 14 de Dezembro de 1784. Foi elevado ao Grau de Companheiro em 7 de Janeiro de 1785, como “aumento de salário”, isto é, promoção ao nível imediato ao Aprendiz. E a sua exaltação a Mestre deverá ter acontecido pouco tempo depois, porque em 22 de Abril de 1785 ele figura já como Mestre Maçom nos arquivos da Loja. Mozart também assistiu a reuniões em uma outra Loja, chamada Zur Wahren Eintratcht (“A Concórdia Verdadeira”). Ambas as Lojas praticavam o Rito Zinnendorf, nome do seu fundador Johann Wilhelm von Zinnendorf (1731-1782), e que até hoje é o Rito mais popular no seio da Grande Loja Nacional dos Franco-Maçons da Alemanha (Große Landesloge der Freimaurer von Deutschland), próximo do Rito Sueco e do Rito Escocês Rectificado e da Estrita Observância. Este Rito Zinnendorf é explicitamente cristão e trinitário, pois não admite não cristãos nos seus altos Graus, no que explicita a crença nos Evangelhos como fonte revelada, assim como na Santíssima Trindade.
Segundo Otto Erich Deutsch, escritor e estudioso maçónico, a Loja Zur Wahren Eintratcht “era a maior e mais aristocrática de Viena. Mozart, como o melhor dos irmãos músicos, foi benvindo em todas as Lojas”. Foi apadrinhado pelo minerologista e metalúrgico Ignaz Edler von Born (Kalsburg, Transilvânia, 26 de Dezembro de 1742 – Viena, 24 de Junho de 1791). A própria Loja de Mozart, Zur Wohltätigkeit, uniu-se a outras duas em Dezembro de 1785, sob a reforma imperial da Maçonaria (o Freimaurerpatent, “Decreto Maçónico”) no mesmo mês, e foi assim que Mozart também chegou a pertencer a uma Loja chamada Zur Neugekrönten Hoffnung (“A Nova Esperança Coroada”), todas seguidoras do Rito Zinnendorf.
Após a sua Iniciação Maçónica, Amadeus Mozart compôs um “Cântico Solene para uma Loja de São João” (Lobgesang Auf Die Feierliche Johannisloge) e foi destinado à cerimónia “Cadeia de União”, que segundo o ritual em uso era como se encerravam todas as sessões das Lojas. Os primeiros versos desse cântico são:
Os sagrados laços que unem os verdadeiros irmãos,Tal como a maior felicidade e delícias do Éden,Para teus círculos sou sempre atraído,Pois torna a vida bela e cheia de encantos.
LEOPOLD MOZART, MESTRE MAÇOM
Na casa de Mozart, em Viena, está exposto um singular livro maçónico do século XVIII que pertenceu ao pai do célebre compositor, Johann Georg Leopold Mozart (Augsburg, 14.11.1719 – Salzburg, 28.5.1787), ele próprio ígualmente músico e, afinal, também maçom como o filho.
Esse livro exposto na Mozarthaus é um manual contendo as fórmulas dos ritos maçónicos aprovados pela Grande Loja da Áustria (Grosse Landesloge von Österreich) e praticados pelas restantes Lojas da época, e que é dedicado ao imperador Leopold II que, entre 1790 e 1792, encabeçou um período muito favorável à expansão dos ideais maçónicos e da própria Maçonaria na Áustria.
Terá sido por influência directa do filho, Amadeus Mozart, que Leopold Mozart afiliou-se à Maçonaria, a qual já de si possuía forte influência nos meios culturais dessa época marcada pelo Iluminismo. Sob o malhete do Venerável Mestre Ignaz Edler von Born da Loja Zur Wohltätigkeit (“A Beneficência”), em Viena, Leopold Mozart foi iniciado Aprendiz Maçom em 6 de Abril de 1785, e nesse mesmo mês, no dia 16, passou ao segundo Grau de Companheiro Maçom, tendo o seu filho Amadeus comparecido a ambas as cerimónias. Por fim, em 22 de Abril desse mesmo ano, foi elevado a Mestre Maçom. Dois dias depois, pai e filho estiveram na Loja para uma homenagem ao seu Venerável Mestre, o responsável máximo da mesma, Ignaz Born, tendo Amadeus Mozart composto uma cantata para a ocasião, a K 471. No dia seguinte ao concerto, Leopold partiu para Salzburg. Nunca mais veria o filho.
Muita da obra musical de Leopold Mozart, com forte influência maçónica na sua composição, veio a perder-se ou a ser esquecida com o passar dos anos devido à sobrevalorização das obras de seu filho Amadeus Mozart, mas a Cassação em Sol para orquestra e a Sinfonia Brinquedo, atribuída no passado a Joseph Haydn, permanecem populares entre as suas sinfonias, assim como o seu Concerto para Trompete.
Leopold Mozart
Como nota de passagem, a letra K, seguida de um ou vários números, que aparece sempre nas obras de Amadeus Mozart, foi a forma que Ludwig von Kochel encontrou para organizar os seus trabalhos em 1862. O K (ou KV em alemão) é a inicial de Kochel, e os números indicam a ordem cronológica das composições. Ainda assim e transpondo o sentido da letra K para o seu significado esotérico, ela também aparece entre os cabalistas e maçons como a inicial hebraica de Kadosh e Kodesh, significando “consagrado” e “eleito”, no que é posta sob a influência sideral de Júpiter, por ser o planeta afim à mais elevada espiritualidade que, afinal, Mozart e seu pai expressaram através da música.
A Viena de Áustria do século XVIII fervilhava de ideais humanistas, nisto tendo a Maçonaria papel destacado. A Loja “A Beneficência” de Viena era uma dentre as 57 que haviam na ocasião (17 na Áustria, 7 na Boémia, 4 na Galícia, 12 na Hungria e 17 nos Países Baixos) filiadas à Grande Loja da Áustria, apoiadas pela poderosa Grande Loja da Alemanha. A Loja “A Beneficência” realizava as suas sessões no templo de uma Loja maior e mais influente, chamada “A Verdadeira Concórdia”. A Ordem floresceu principalmente pelo exemplo dado por Franz Stephen, duque de Lorraine e príncipe-consorte da imperatriz austríaca Maria Thereza. Ele tornara-se maçom em 1731, iniciado em Haia numa Loja ocasional, constituída por Theophilus Desaguiliers (que participara com John Anderson na elaboração da Constituição dos Maçons, por isso chamada Constituições de Anderson) que era Grão-Mestre da Grande Loja de Inglaterra, sediada em Londres.
Atribui-se a Franz Stephen a consolidação da primeira Loja maçónica de Viena, “Os Três Canhões” (Die Drei Kanonen), e também por ter convencido o falecido sogro e imperador, Carlos VI, a não aplicar nos seus territórios a bula papal In Eminenti, sancionada em 1738 por Clemente XII, que condenava os maçons. Desde os primórdios até 1739, a Maçonaria Austríaca desenvolveu-se de forma soberba, tornando-se o principal ponto de encontro da elite intelectual.
O Ritual adoptado para os trabalhos nas Lojas era sobretudo o Rito da Estrita Observância, ou Rito Escocês Retificado, criado em 1761 pelo barão Karl Gathen von Hundt, que compreendia três Graus Simbólicos: Aprendiz, Companheiro, Mestre, e quatro Graus Filosóficos: Mestre Escocês, Neófito, Templário e Cavaleiro Professo. A partir do início do ano de 1785, uma série de éditos desencadeou o ocaso da Maçonaria na Áustria. O Ministério da Polícia e o imperador Joseph II acreditaram nos boatos de que os maçons conjuravam a queda da Casa Real dos Habsburg e que haviam se tornado demasiado influentes, com Lojas cada vez mais ricas e poderosas. Foi então que se coibiu o crescimento acelerado das sociedades secretas e das correntes maçónicas ou paramaçónicas que proliferavam em todo o império austro-húngaro. Publicou-se um decreto de expurgo decretando que cada cidade só poderia ter, no máximo, três Lojas maçónicas.
Reorganizaram-se as nove Lojas de Viena e vários dos seus membros, por temor, afastaram-se. As exigências do imperador sobre listas de membros, cargos e outras informações, é que permitem hoje ter acesso a muitos documentos sobre a Maçonaria Austríaca, Amadeus Mozart, Leopold Mozart e a situação da Ordem no século XVIII.
CENÁRIO ORIGINAL DE “A FLAUTA MÁGICA”
Na Mozarthaus, em Viena, pode apreciar-se a maquete do cenário original da célebre ópera A Flauta Mágica (Die Zauberflöte) K 620, de Amadeus Mozart. Nele vê-se o frontispício de um templo em estilo grego, com as suas colunas, e adiante uma Deusa coroada cercada de estrelas vestida de azul erecta sobre a Lua crescente. Rapidamente pode ser associada ao figurino iconográfico de Nossa Senhora da Conceição, mas é um equívoco: trata-se da representação simbólica da “Rainha da Noite”, a Deusa Ísis, na qual se inspirou a iconografia cristã para criar a imagem tradicional da Virgem da Conceição, esta já de si, tal como Ísis, expressando a concepção ou o conceber do acto de transformação do espesso em subtil, do sólido em ígneo, do profano em iniciado pela conceição da ignorância em Sabedoria.
Essa é a Deusa da Sabedoria diante do Templo dos Sábios, cujo maior nesta ópera iniciática é Sarastro, representação esotérica de Cagliostro ou o itálico Cali Austrus, “Vento Sul” (nisto exposto como Sar Astro, palavra relacionada ao número 5 que os cabalistas afirmam ser afim ao planeta Vénus), o Adepto Maior a quem Mozart terá dedicado secretamente esta obra musical, indo assim retratar os antigos Mistérios Egípcios que, afinal, são reproduzidos na corografia ritualística da Maçonaria, pelo que na mesma ópera observa os seus conhecimentos e a via iniciática para o Conhecimento Superior magistralmente expostos.
Com efeito, a ópera em dois actos de A Flauta Mágica musicalmente é da autoria de Wolfgang Amadeus Mozart, mas o seu libreto alemão é de Emanuel Schikaneder, companheiro de Loja maçónica de Mozart. Estreou no Theater auf der Wieden, em Viena, no dia 30 de Setembro de 1791, ano da morte de Mozart.
A ópera baseia-se na filosofia do Iluminismo, e algumas das suas árias ficaram famosas, como o dueto de Papageno e Papagena, e as duas árias da Rainha da Noite. Os conceitos de Liberdade (livre-arbítrio), de Igualdade (de princípios) e de Fraternidade (universal) que assistiram à Revolução Francesa, transparecem em vários momentos da peça. Por exemplo, quando o valor de Tamino, protagonista da história, é questionado por ser um príncipe, e por tal motivo talvez não conseguisse suportar as duras provas exigidas para entrar no templo, mas vindo Sarastro em sua defesa respondendo: “Mais que um príncipe, é uma pessoa”.
Sarastro (1816)
No Acto I, A Flauta Mágica começa com uma terrível serpente perseguindo Tamino. Em termos ocultistas, trata-se da serpente do Astral ou Mundo Psíquico pondo à prova as emoções e paixões do candidato à Iniciação Espiritual. Cansado, Tamino desmaia. As Três Damas ou Virtudes (Sabedoria, Amor e Justiça) aparecem, dominam a serpente e vão avisar a Rainha da Noite (Ísis, a Verdade) da presença do jovem no seu reino. Ao recuperar os sentidos, Tamino vê Papageno cantar e tocar a sua flauta (expressiva do Som Criador pela Harmonia, Melodia e Ritmo). Papageno (o ser semi-fauno expressivo da Natureza elemental) mente a Tamino dizendo-lhe que o salvou da serpente. Mas imediatamente reaparecem as Três Damas para punir Papageno pela mentira. Elas entregam um retrato de Pamina (contraparte feminina de Pamino) a ele que logo se apaixona. A Rainha da Noite surge e pede para Tamino libertar a sua filha que está prisioneira de Sarastro. As Damas libertam Papageno e eles recebem um carrilhão (simbólico da alegria) e uma flauta com poderes mágicos (simbólica da felicidade). Tês Génios (Fortaleza, Ousadia e Coragem) irão guiá-los nos perigos da jornada (provas iniciáticas). No palácio de Sarastro (o Adepto Superior, o Hierofante), Pamina é vigiada por Monostatos (figuração do Minotauro que vivia no labirinto de Creta, criatura com corpo humano e cabeça de touro feroz). Papageno encontra Pamina e avisa-a que será libertada por Tamino, e saem felizes à sua procura. Os Três Génios guiam Tamino para o templo. No caminho toca a sua flauta, e magicamente os animais selvagens tornam-se mansos (estado edénico). Monostatos (representativo da Besta Astral que os ocultistas chamam Guardião do Umbral) e os seus escravos (os que fracassam na Iniciação e tornam-se vítimas escravas do mesmo Guardião) alcançam Pamina e Papageno, mas ao som do carrilhão eles põem-se a dançar e saem. Ao som de trombetas Sarastro chega imponente e divino, cercado de poderes invisíveis. Pamina (a Alma virgem) conta a Sarastro que fugiu por estar sendo importunada por Monostatos (as paixões ferozes, os vícios que dominam os profanos). Este entra trazendo Tamino preso (em provação). Sarastro expulsa Monostatos da Irmandade (dos Sábios ou Adeptos Perfeitos, os Superiores Incógnitos) e ordena que Pamina e Tamino realizem as provas regulares para entrarem na Irmandade Iniciática.
No Acto II, Sarastro comunica aos sacerdotes os seus planos de iniciar Tamino e pede aos deuses que iluminam o caminho dos jovens na sua demanda da Sabedoria. Pamina, sob a sua protecção deve tornar-se esposa de Tamino (união real da Alma com o Espírito, donde o conceito da Núpcia Filosófica dos antigos Rosacruzes). Pamina adormece (entorpecimento dos sentidos) enquanto Monostatos questiona a sua condição social e racial por não poder ter os mesmos direitos dos outros (alusão velada à condição feminina igualmente tida como apta a receber a Iniciação, independentemente da posição social e racial), mas é detido pela Rainha da Noite (a Sabedoria Divina, Ísis ou Sophia) que aparece. Ela entrega um punhal a Pamina e ordena-lhe que mate Sarastro (alegoria do “discípulo matar o Mestre”, como aconteceu no caso do Arquitecto fenício Hiram Abiff, mas que significa o discípulo tornar-se com o Mestre, fazer-se Adepto Perfeito por seus próprios esforços). Os sacerdotes de Sarastro conduzem Pamino e Papageno para iniciarem a prova do silêncio, onde não poderão conversar com nenhuma mulher (isto é, ceder às paixões). Pamina aparece e Tamino resiste à tentação, deixando-a desiludida. Papageno ao ver Papagena (o aspecto emocional do Mundo Psíquico), não resiste, fala com ela e fracassa na prova. Entretanto, desesperada Pamina resolve matar-se mas é salva pelos Três Génios que lhe explicam a situação (trata-se de “matar a morte”, conquistar a consciência de imortalidade tanto em corpo com em alma). Juntos, Pamina e Tamino realizam as últimas provas: a do fogo (princípio masculino, solar, criador) e a da água (princípio feminino, lunar, criação), sendo então admitidos na Irmandade (dos Filósofos, já de si Andróginos Perfeitos ou que fisicamente uniram a Alma com o Espírito). No final surgem a Rainha da Noite com as Três Damas e Monostatos, este numa última tentativa de apossar-se do poder de Sarastro, mas a Luz da Sabedoria transforma todo o Mal e acaba envolvendo a todos ao som da Flauta Mágica, dando por terminada a peça.
CRIPTA-CAPELA DE SÃO VIRGÍLIO
A cripta-capela de São Virgílio (cripta Virgilkapelle), próxima da catedral de Santo Estevão, é um dos interiores góticos melhor conservados em Viena, ainda que seja inusitado uma capela da Idade Média encontrar-se sobre uma estação de metropolitano, a Stephansplatz, por onde passam as linhas U1 e U3. Mas o facto é que esta cripta-capela esteve desaparecida durante séculos e só foi redescoberta em 1973 durante os trabalhos de construção de estação do metro, procedendo-se à remoção do entulho, ao seu restauro e finalmente a sua abertura ao público em Dezembro de 2015.
A história desta cripta-capela é ainda muito pouco conhecida. Sabe-se que datará de 1230-1246 e que foi concebida com subestrutura para a posterior construção de uma capela de estilo gótico primitivo. Estando doze metros abaixo da Praça de Santo Estevão (Stephansplatz), tem formato rectangular (aproximadamente seis metros de largura por dez de comprimento) e apresenta seis nichos, que cerca de 1246 foram decorados com pinturas de santos e cenas religiosas nas juntas e com cruzes greco-bizantinas nas absides, apresentando-se o tecto com nervuras simples. O espaço tem como centro o altar dedicado a São Virgílio, que veio a dar o nome ao espaço.
Apesar das crónicas do século XIII não mencionarem esta capela, dando origem à especulação de ter sido um projecto falhado, ainda assim atribui-se a sua construção à iniciativa de Friedrich der Streitbare (1211-1246), o último duque austríaco da Casa de Babenberg, que desejava que Viena fosse sede episcopal e para isso fez construir a cripta consagrando-a a St.º Coloman de Stockerau, destinado a patrono da nova diocese.
Este espaço subterrâneo aparece mencionado em crónicas do século XIV. É dito que no ano de 1307 a piedosa família vienense Chrannest, constituída por comerciantes cuja burguesia (donde burgomestre) detinha o poder da cidade ou burgo, adquiriu esta cripta transformando-a em capela funerária, dizendo-se ainda que o seu altar principal foi consagrado a St.º Vergilius de Salzburgo.
Capela da Madalena de Viena (1609)
Com a construção posterior da capela de St.ª Maria Madalena (Magdalenskapelle), talvez por volta de 1310-15, imediatamente acima da cripta, em 1473 Hans Viereck de Eisner mandou construir um mezanino semi-subterrâneo que se destinou a ossário, passando os serviços fúnebres e respectivas missas definitivamente para a pequena capela gótica da Madalena. Nessa época, o espaço da Stephansplatz era um vasto cemitério público murado ao lado da catedral. Daí a utilidade geral da capela de Santa Maria Madalena e da particular da cripta de São Virgílio, da família Chrannest, imediatamente abaixo daquela, hoje desaparecida mas cujo esboço em cor vermelha está desenhado no pavimento da Stephansplatz, ao lado da catedral de Santo Estevão, enquanto a cripta está esboçada em cor branca, dentro do esquisso da capela.
Com efeito, o cemitério em torno da Stephansplatz foi fechado em 1732, enquanto a capela de St.ª Maria Madalena foi destruída pela fogo em 1781 e não foi reconstruída, presumivelmente porque sem um cemitério não havia necessidade de uma capela funerária, cuja responsabilidade dos serviços e ofícios fúnebres passou a ser responsabilidade da catedral. Com o entulho da capela ardida encheu-se a cripta de São Virgílio e esta desapareceu na obscuridade e no esquecimento, até que com grande felicidade foi novamente redescoberta e mais recentemente aberta ao público como testemunha marcante e rara da cidade medieval, em pleno coração de Viena.

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Editor Luiz Sergio Castro