A MAÇONARIA NA HISTÓRIA: BRASIL E OS MAÇONS - CONSTRUÇÕES PARALELAS

Tiradentes, personagem reivindicado pela pré-história
maçônica (Martírio de Tiradentes, óleo sobre tela, 
Francisco Aurélio de  Figueiredo e Melo, 1893)
A história maçônica no Brasil tem como marco inicial a criação, em 1801, da primeira loja no país, a Reunião, no Rio de Janeiro, que, curiosamente, quando se sabe da rápida, ainda que acidentada, penetração da ordem em Portugal, era vinculada ao Oriente da Ilha de França. Mas, como tudo que envolve a maçonaria, há relatos, permeados por incertezas, de uma pré-história maçônica, a qual, por envolver importantes movimentos de emancipação da futura nação, merece ser revisitada.
No livro Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), Joaquim Felício dos Santos escreve: “(A) Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria; Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. O autor não era maçom e levou outros a se debruçar sobre o tema. A historiadora Françoise Jean de Oliveira Souza listou alguns desses autores em texto para a História Viva, em setembro de 2007. Tenório D’Albuquerque lembra que, quando ocorreu a Inconfidência, a ordem se encontrava proibida de funcionar em Portugal e, consequentemente, nos territórios além-mar. Ele afirma que Tiradentes teria sido maçom e criara uma loja maçônica em Vila Rica, a qual seria o “local onde os conjurados teriam iniciado sua organização”.

O argumento que os adeptos dessas teses utilizam vem das constantes viagens de Tiradentes pelo chamado caminho da Bahia, que ligava o Recôncavo Baiano ao território das minas. Ele teria sido recrutado no porto de Salvador, onde os “irmãos” já marcavam presença, e levado os ideais maçônicos sertão adentro. Raimundo Vargas apresenta outra evidência. Segundo ele, o capitão e maçom Luiz Benedito de Castro, comandando a guarda no largo da Polé, no Rio, no dia em que Tiradentes foi enforcado, em vez da habitual formação em círculo, optou por um triângulo em torno da forca – homenagem que, bem aos moldes da maçonaria, poderia ser entendida pelo confrade, mas não pela população em torno.

Se o envolvimento da maçonaria com a Inconfidência não fica provado, a hipótese não tem nada de fantasiosa. Na civilização urbana do território das Minas, eram muitos os filhos da elite mandados para ser educados em Coimbra ou na França, onde tinham, certamente, contatos com os sedutores métodos e ideais maçônicos, naquele momento bem identificados com o apelo à razão do Iluminismo. Há testemunhos documentais de que uma imagem da maçonaria já se formara naquele período: acusações de maçonaria, ao lado das de judiaria, feitiçaria ou libertinagem, são parte das acusações na região das Minas, dirigidas ao Santo Ofício, ainda no século XVIII.

De toda a forma, a história maçônica apresenta a instalação da loja Reunião como seu ato fundador no Brasil. No ano seguinte, 1802, criou-se na Bahia a Virtude e Razão. As terras – ou mais corretamente, as águas da Bahia, já tinham, no entanto, presenciado o surgimento da Cavaleiros da Luz, a bordo de uma fragata francesa, loja que, instalada depois em Salvador, não conseguiu, ao que parece, manter um funcionamento regular.

Um relato do início daquele século fala da atuação dos maçons baianos no auxílio a um inglês acusado de contrabando, preso em Porto Seguro e levado a Salvador. Em Narrativa de uma viagem ao Brasil, o inglês Thomas Lindley observou: “A maçonaria sempre foi categoricamente proibida pelas leis de Portugal e, por isso, muitas vítimas caíram nas garras da Inquisição e do poder civil. Apesar disso, ela criou raízes nos últimos tempos, tendo se estabelecido diversas lojas em Lisboa, no Porto etc. (...) O governo tudo sabe e tolera tacitamente, o que não é o caso do Brasil, onde também existem diversos membros dessa sociedade, os quais se conduzem com a maior reserva, não dispondo ainda de lojas regulares”.

Em 1804, a maçonaria portuguesa constituiu duas lojas no país, depois de ter tentado colocar a Reunião sob seu controle, sem sucesso. A Constância e a Philantropia, ambas no Rio de Janeiro, funcionavam sob a égide do Grande Oriente da Lusitânia. Quatro anos depois, a corte portuguesa desembarcava no Rio de Janeiro, trazendo muitos membros da ordem – o que não impediu que, em alguns momentos das décadas seguintes, houvesse fases de perseguição política e mesmo proibição de funcionamento das lojas.

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Editor Luiz Sergio Castro