MAÇONARIA OPERATIVA E ESPECULATIVA: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA

Por Ir\ Arnaldo M.A. Gonçalves (*)

Christopher Wren
1. Introdução
A Ordem dos Franco-Maçons tem as suas raízes mergulhadas no tempo. Uns atribuem as suas origens às corporações de construtores da Idade Média e às guildas de artífices. Outros intentam encontrar os seus antecedentes aos mistérios do Egipto (de Osíris e Ísis), ao Colégio dos Magos do Fogo (Caldeia), às comunidades essénias (Palestina), aos Colegia Fabrorum (Roma), aos Cavaleiros Templários ou aos Rosa-Cruzes.
O que parece hoje claro é que num dado ponto do processo histórico, a maçonaria operativa associada às grandes construções da Antiguidade (catedrais, igrejas paroquiais ou castelos) perdeu o seu carácter “manual” associado à edificação e abriu-se a outros detentores de “segredos”. Obreiros que não vinham dos mesteres e das guildas, mas de classes sociais elevadas como a aristocracia, os homens da Ciência, os clérigos, a aristocracia fundiária e os intelectuais. Porque é que essa evolução ocorreu e em que contexto teve lugar é uma questão em aberto sobre que não existem muitas respostas.

Na origem etimológica a palavra “maçom” vem do germânico “mattjon” que deu lugar a “metze” no alemão antigo e a “makyon” na língua franca para se transformar em “machun” no francês antigo. Designava o “cortador”, o talhador da pedra, no alemão “steinmazer” (trabalhador dos canteiros). No castelhano, a palavra afim é “mazonero” referindo-se ao que fazia a massa ou argamassa para juntar as pedras de uma construção embora a noção mais próxima do vocábulo alemão “metze” seja “canteiro”. O prefixo “franco” aposto a maçom parece ter-se vulgarizado no século XIV em Inglaterra para designar os trabalhadores da pedra que se dedicavam a uma construção mais exigente e qualificada. Para alguns autores, o vocábulo “free-mason” indica o trabalhador livre ou franqueado que não se encontrava vinculado a regulamentos municipais ou reais vinculativos e que podia circular entre os locais de construção. Para outros autores o vocábulo significa o que trabalha a “free-stone” um tipo de pedra calcária que era facilmente talhável ou de fácil cinzelização. O que se entendia por oposição aos “rough-mason”. que trabalhavam a pedra bruta (Hurtado 2006, 32-34).  

Do termo “masson” vem a ideia originária da maçonaria operativa como a corporação dos que realizavam grandes construções com um certo propósito espiritual ligado à exaltação da divindade e que o faziam segundo arquétipos e planos teóricos ligados à tecnologia da construção, à resistência dos materiais de construção e à geometria aplicada. Nas palavras de René Guénon, a palavra “operativo” deve ser tomada não como idêntico a prático mas no sentido do “acabamento do ser que é a realização iniciática, com todo o conjunto de meios de diversa ordem que podem ser empregues com vista a essa finalidade”(Guénon 1953, 195). 

Por simplificação, podemos identificar três escolas de pensamento quanto às origens da maçonaria especulativa. Uma explicação tradicional liga-a à transformação ocorrida na maçonaria inglesa em 24 de Junho de 1717 com a fusão de quatro Lojas Maçónicas para a constituição da Grande Loja de Londres (Stevenson 1990; Ridley 2002, 29). Uma outra explicação transcendental associa-a aos mistérios da antiguidade vendo a Maçonaria testamentária dos grandes mistérios arcanos e emancipando-se gradualmente da sua carga operativa (Wirth 1999; Guénon 1953; Lepage 1990, Palou 1964). Uma terceira explicação liga-a à sorte da Ordem dos Templários, à sua disseminação pela Europa continental e pela Escócia na sequência da execução do Grão-Mestre Jacques de Molay e da perseguição dos seus companheiros, vendo na maçonaria escocesa a linhagem mais autêntica dos descendentes de Jesus, o gnóstico, a chamada ‘the Royal Blood line’ Baigent & Leigh 2006; Knight & Lomas 1997; Knight & Lomas 1998).

Seja qual for a explicação que se priorize é impossível considerar a maçonaria como um edifício monolítico. Desde tempos idos ela passou por várias transformações que se ligam à própria história da Europa, à emergência das grandes nações europeias (e dos impérios), à perda da autoridade da Igreja (e do Papa) nos assuntos políticos e à emergência do protestantismo como a outra extrema do mundo cristão.

Talvez seja mais correcto falar-se em “maçonarias” para qualificar os desenvolvimentos que ocorreram em vários países em circunstâncias mais ou menos fiéis ao modelo original (Jacques 1975). Parece identificar-se nessa evolução um modelo insular (ou britânico) ligado à afirmação política da nobreza fundiária e dignatária em contraponto ao poder absoluto do Rei e um modelo continental representado pelas associações fraternais de assistência, de que a compagnonnage francesa é um bom exemplo.

2. A Maçonaria: Ordem dos Construtores.
Ao longo dos tempos, a maçonaria assume-se como uma ordem iniciática construída à volta da iniciação como processo de apreensão individual do segredo. Ser iniciado significava entrar numa organização que se destinava ao estudo dos mistérios da vida e da Criação e propunha aos que a abordam pistas de progresso espiritual.

Se tomarmos em consideração a arquitectura real das antigas civilizações verificamos que os arquitectos e os maçons desempenharam um papel relevante e que as associações iniciáticas ocupavam um papel central no sistema do poder institucional. No Egipto, a instância cimeira do sistema social era ocupada pelo Faraó enquanto Mestre da Obra, pelos seus conselheiros mais próximos e pelos chefes das principais corporações de artífices. Por isso, a iniciação constituía um evento fundamental porque era o ritual de passagem para o iniciado se integrar no corpo social .

Os Collegia romanos correspondiam a guildas que controlavam os vários ramos do comércio. Vários imperadores romanos tentaram suprimi-los mas os seus éditos revelaram-se ineficazes porque os membros conseguiram sempre provar a sua ancestralidade e natureza religiosa. Vários destes collegia tornaram-se grupos de solidariedade, religiosos ou funerários e detinham privilégios e isenções pelo prestígio do trabalho que realizavam. As suas organizações eram idênticas às lojas maçónicas, dispondo de constituições internas.

As reuniões dos Collegia eram dirigidas por um magister e dois vigilantes (decuriones), dispondo também de um secretário, um tesoureiro e um capelão (sacerdos) Os collegia eram abertos a laicos designados por padroeiros ou especulativos. As lojas dispunham de três graus (aprendizes, companheiros e mestres) bem como de rituais de iniciação que dramatizavam a morte e a ressurreição, usando abundantemente os símbolos maçónicos (esquadro, compasso, fio de prumo, nível e círculo). O Imperador Diocleciano, na sua perseguição ao cristianismo, tentou suprimir os collegia (entretanto transformados em Colégio de Arquitectos) ordenando-lhes que fizessem uma estátua de Esculápio, o Deus da medicina e da cura na mitologia greco-romana, o que eles recusaram. Diocleciano terá mandado torturar quatro Mestres (Cláudio, Nicostrato, Sinfronio e Castorio) e um Aprendiz até à morte. Os quatro seriam registados como os Quatro Mestres Coroados, santos padroeiros dos maçons (Lomas 2006). 

No cristianismo as associações iniciáticas multiplicaram-se. Para os construtores dos edifícios correntes e religiosos a iniciação constituía o acesso a uma função socialmente reconhecida. Na organização social medieval, cada ofício tinha a sua própria iniciação, algo que permitia a cada “mester” receber uma influência espiritual que fazia do ofício não apenas o prolongamento da habilidade manual mas a projecção do seu ser no sentido de uma realização espiritual.

O ofício do construtor (maçom) tinha grande prestígio social nele se compreendendo os que usavam a madeira, a pedra bruta grosseira ou a pedra trabalhada de forma requintada. A pedra indicava uma solidificação no espaço e no tempo e as pedras talhadas ao ritmo dos construtores encontravam o seu lugar próprio na edificação. Desta forma, construíam-se catedrais, igrejas e monumentos. A pedra escolhida pela sua textura mineral para a construção era colocada pelos “companheiros” iniciados sob a direção de um Mestre da Obra que concebia, no plano teórico, a construção divinizada.

Discute-se qual a exata natureza, organização e estrutura dos artífices que desenvolviam o ofício de construtores. Alguns autores admitem que estariam organizados em guildas idênticas aos outros ofícios sendo objeto de regulação mais ou menos sofisticada. Outros autores assinalam que laborariam quase exclusivamente por intermédio de pequenos mestres individuais, volantes, viajando entre os vários locais de construção, à procura de trabalho e consoante os picos.

Knoop e Jones argumentam que as guildas de maçons de carácter municipal eram muito raras nos séculos XIV e XV e que isso se explica porque a maior parte do trabalho era feito fora das cidades. Aí se localizavam as abadias, as catedrais, os castelos mandados edificar pelos bispos, pelos reis e pelos grandes senhores feudais (Knoop & Jones 1932, 344-366).

A ser assim como Knoop e Jones argumentam, a “aprendizagem” não terá tido a relevância e projeção que a historiografia (inclusive maçónica) lhe atribui. Na perspectiva destes autores, a maior parte das edificações em pedra eram construídas por “empreiteiros” ou corporações em sistema de administração direta, dificilmente havendo espaço para um sistema de “formação no trabalho (Koop & Jones 1932, 351). Por outro lado embora alguns maçons se tornassem independentes e ainda outros mestres de obra a grande maioria continuou como trabalhadores à jorna até ao fim da vida. Finalmente o sistema era complicado pois na retribuição do mestre tinha de ser incluída uma parte para o aprendiz, devendo o mestre providenciar-lhe ainda comida, alojamento e vestuário. O que era uma situação pouco competitiva num sistema de baixo salário ao dia que então prevalecia. O sistema de aprendizagem só se viria a consolidar em Londres, já no século XV, daí espalhando-se para o resto da Inglaterra.

Por outro lado, as guildas formaram um sistema de organização social que floresceu apenas num dado período de desenvolvimento industrial (em Inglaterra) destinando-se ao controlo da atividade industrial desenvolvida por pequenos mestres e artífices independentes. As guildas não terão tido o papel crucial que por vezes se figura nas grandes construções realizadas por conta da Igreja, da Coroa ou dos senhores feudais. Estas construções foram realizadas por maçons circunscritos ao sistema de ‘impressment’, uma prerrogativa real que permitia aos reis e ao alto clero impor trabalho compulsivo aos maçons, vinculando-os a título permanente a um determinado edifício por interesse da Coroa. Se foi assim, o argumento conhecido da ligação das guildas de maçons operativos ‘livres’ às lojas de maçons especulativos do século XVIII perde parte da sua credibilidade. 

A Loja terá tido um papel importante na vida desses maçons. Era a casa de madeira onde os operários trabalhavam ao abrigo das intempéries e que podia albergar um pequeno número de obreiros. Segundo se pensa a Loja era relativamente pequena compreendendo o Mestre e os seus assistentes mais diretos, sendo o local onde as refeições eram tomadas, os instrumentos de trabalho guardados assim como os moldes que permitiam fazer (e replicar) os elementos mais complexos de construção (Sherby 1964, 387-403). Os mestres alojavam-se em estalagens onde viviam por períodos prolongados até que a construção ficasse de todo concluída. Imagina-se que a Loja era aberta segundo um ritual não escrito que os maçons operativos deveriam saber de cor, sendo os trabalhos eram precedidos de uma oração religiosa ao Criador, designado por um nome sagrado (Colombier 1992, 43-4).

A loja permitia que mestres, vigilantes, contramestres e outras categorias de construtores se reunissem, preparando os desenhos e modelos respeitantes aos vários elementos de construção, para depois executá-los. Ao que se crê, todo o novo maçom, recebido em Loja, tinha de prestar juramento de guardar segredo da informação que lhe era transmitida, depois da leitura das constituições próprias de cada oficina (Palou 1964, 21-4). Os primeiros regulamentos de organização do ofício remontam a meio do século XIV. Trata-se de um período de maior segurança e desenvolvimento social e é crível que a Loja se tenha tornado o centro da vida dos construtores e centro de formação dos que chegavam para começar o ofício (Quérel 2008).

Papel de destaque era ocupado, na organização medieval do trabalho, pelo Mestre Maçom que não era ao contrário do que invoca um arquitecto conceptor das condições de execução do trabalho. O Mestre Maçom operativo tinha uma responsabilidade mais alargada, sendo ao mesmo tempo arquitecto da construção, oficial administrativo que geria os materiais, o empreiteiro geral e o supervisor técnico da construção. A ‘arte da construção’ não era transmitida por livros, plantas ou desenhos de perspectiva mas através do exemplo vivo dos edifícios construídos. Os conhecimentos obtidos pelos jovens maçons eram passados diretamente pelo Mestre enriquecidos pela experiência de sucessos e insucessos.

O Mestre maçom tinha que ficar associado, de forma estreita, à construção de modo a se assegurar que as suas ideias eram susceptíveis de ser levadas à prática. Não se resumia a isso a sua intervenção, pois quando o Office of Works (Repartição de Obras) foi criado por Henrique III, em 1256, o Mestre-de-obras ficou encarregue de fazer os registos de materiais, a compra de equipamentos e utensílios e a contratação da mão-de-obra necessária. Os regulamentos do ofício de maçom de Londres de 1356 determinavam que o Mestre tinha a obrigação de estipular a jorna diária dos maçons e dos seus assistentes. Segundo o Mason’s Ordinance da Catedral de Iorque de 1370, um maçom que procurasse trabalho era sujeito a um período de experiência de uma semana ou mais para comprovar a sua perícia. Se o trabalho fosse satisfatório era contratado, por ajuste entre os supervisores e o Mestre da Obra (Sherby 1964, 396).

Os maçons reuniam-se em Loja e o Mestre da Loja exercia nesta a autoridade com que dirigia os trabalhos do canteiro, chamando a assembleia à ordem com um golpe de martelo. A Loja era o local de iniciação nos mistérios do ofício. Quando da recepção em Loja, o novo maçom era obrigado a “vestir a loja”, isto é, a desembolsar uma dada quantia que segundo a tradição era entregue à oficina . Mais tarde, os maçons operativos passaram a estar vinculados a regulamentos que arrolavam regras de comportamento (Old Charges) que incluíam normas tão diversas como saber estar à mesa ou como se dirigir ao Mestre, `a sua filha ou mulher, bem como `as pessoas que os rodeavam. O manuscrito Regius (Poema de Deveres Morais datado de 1390) é o mais importante destas antigas ‘charges’, uma espécie de manual de conduta contendo instruções para os mestres e directivas para os operários.

Um outro documento, o manuscrito Cooke, detalha a lenda de constituição da maçonaria em Inglaterra atribuída ao rei Athelstan e a adopção do irmão do rei pela corporação dos pedreiros. Esta adopção garantiu-lhes uma constituição real e estatutos conformadores da profissão (The Matthew Cook Manuscript). De acordo com a Carta Real, os maçons passaram a ter o direito a se reunirem em York e serem governados por um Grão-Mestre, o Príncipe Edwin (The Regius Manuscript). Com a morte do príncipe a maçonaria entrou em declínio nos cinquenta anos a seguir, mas seria revitalizada em 1041 pelo Rei Eduardo, o Confessor, que designou Leofric, Conde de Coventry, como superintendente dos maçons. 

À saída da Idade Média surge uma civilização nova que não tem no entanto as mesmas bases e os mesmos objetivos da civilização cristã. Os fatores económicos e políticos tornam-se essenciais e a religião ocupa um lugar decrescente nos assuntos do Estado. É no momento em que se apaga a concepção sagrada da sociedade que surgem as sociedades secretas. Os construtores já não são apreciados como uma classe social de importância determinante até porque a nobreza considera o trabalho manual ‘vil e desonroso’. Hermetistas, alquimistas e astrólogos são olhados com suspeição. Luís XIV, em França, expulsa os astrólogos da Academia das Ciências. A liberdade de associação é coarctada; os governantes temem os pequenos grupos que imaginam a orquestrar conspirações contra o poder real e que sob a forma de “fraternidades” preparam o surgimento de partidos de oposição (Jacq 1975,14).

Entre os grupos sob suspeita estão as lojas dos construtores que abriram as portas a todos os que não se reviam nas doutrinas sociais dominantes, no domínio da religião, das artes e das ciências, reforçando-se por essa via os laços entre as minorias segregadas pela concentração do poder real nas monarquias absolutas da Europa continental. A Maçonaria já não oferece uma qualificação profissional direta (aos que a procuram) mas interioriza os antigos ideais de iniciação em ritualismos que atraem as classes nobres e cultas. Contudo a mentalidade profana que consolida a ascensão da burguesia mercantil toma conta da maçonaria. A maçonaria politiza-se e o simbolismo e a espiritualidade pungente dos maçons medievais torna-se um objecto de museu. Os rituais são adaptados aos gostos diletantes da época.

De certa forma, a constituição da Grande Loja de Londres em 1717 é o toque de finados da antiga mensagem espiritual dos maçons operativos quando a maçonaria se institucionaliza e se transforma em Ordem. A história tem sido contada inúmeras vezes: vários maçons pertencendo a quatro lojas londrinas (Loja n.º 1 do Ganso Grelhado, n.º 2 da Coroa, n.º 3 da Taberna da Macieira e n.º 4 da Taberna Caneca de Vinho) reuniram-se com irmãos mais antigos, na Taberna da Macieira. Resolveram restaurar a comunicação trimestral entre os oficiais das Lojas, reunir-se em assembleia nas festas anuais e escolher de entre eles um Grão-Mestre (Anderson 1723). A identificação da maçonaria com os pubs tinha uma razão prática. Era o local onde as pessoas comuns se reuniam e que funcionava ao mesmo tempo como local de refeições e como clube de convívio.

As lojas reuniam no segundo andar dos pubs onde conduziam as suas cerimónias num ritual abreviado entre a chegada dos pratos e os brindes ou onde jantavam depois da sessão; os obreiros usavam luvas e espadas. O local de sessão não tinha mobiliário especial e os símbolos eram desenhados num painel ou traçados a giz (ou a carvão) no chão para depois serem apagados no final da sessão. O jantar tinha um papel central em todo o cerimonial, bem como a música e as canções. As sessões tinham por objectivo essencial o convívio fraternal entre obreiros (Zeldis, Pietre-Stone). A loja maçónica era um refúgio de paz e tranquilidade num tempo de incerteza política em que a memória da guerra religiosa (entre protestantes e católicos e entre protestantes “oficiais” e “dissidentes”) estava presente na memória de todos.

Quem eram os ‘dissenters’? Os ‘dissenters’ integravam um grupo de protestantes ingleses que se separaram da Igreja Estabelecida (a Igreja Anglicana) durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Depois do restabelecimento da monarquia inglesa em 1660 e como o Acto de Uniformidade de 1662 que exigia a ordenação dos clérigos protestantes muitos abandonaram a Igreja Anglicana, recusando-se a usar o hábito e a interferência da Coroa em assuntos religiosos. Parte significativa deles emigrou para as colónias britânicas no Novo Mundo dando origem aos Estados Unidos da América. 

As viagens marítimas e as invenções técnicas transformaram a economia medieval abrindo novas perspectivas de progresso e humanismo que fizeram recuar o fanatismo e a intolerância associadas à Idade Média. Um tempo novo surgia fértil para o crescimento da maçonaria especulativa (Zeldis, idem).

Christopher Wren
Christopher Wren
Estes maçons especulativos decidiram constituir-se em Grande Loja, reunindo-se para o efeito em assembleia na festividade de S. João Baptista, na Taberna do Ganso Grelhado, na praça da Catedral de S. Paulo. Tendo como reza a tradição eleito “com mão levantada o nobre Anthony Sayer como Grão-Mestre o qual foi imediatamente investido nos adornos do ofício pelo mestre mais antigo e instalado, sendo felicitado pela assembleia que lhe rendeu homenagem”. A subida do Rei Jorge I ao trono levou várias lojas a procurar um protector mais activo, face à incapacidade física de Sir Christopher Wren ‘na expectativa de terem à sua frente um Irmão nobre’ (Vibert 2010) . É importante perceber que a criação da Grande Loja de Londres em 1717 não acontece num vazio. Ela resulta da transformação da Grande Loja dos maçons operativos que usufruía de grande protecção da monarquia inglesa.   

A maçonaria tinha vivido um período de grande prosperidade em Inglaterra sob a protecção do Rei Carlos II. Rei que havia sido iniciado na Arte Real durante o seu exílio em França durante a república de Oliver Cromwell. Tal período culminou, após o regresso do Rei a Inglaterra, com a eleição em 1663 de Henry Jermyn, Conde de St. Albans, como Grão-Mestre, tendo Christopher Wren e John Webb como seus Grandes Vigilantes. Em Junho de 1666, Thomas Savage, Conde de Rivers, sucedeu a Jermyn como Grão-Mestre, tendo Christopher Wren como seu Vice-Grão-Mestre. Christopher Wren era por profissão arquitecto e dirigiu a reconstrução da cidade de Londres pasto de um grande incêndio nesse mesmo ano de 1666. O Grão-Mestre Wren fez adoptar novos regulamentos de construção que impuseram que as futuras construções citadinas fossem feitas em pedra e tijolo, em vez da tradicional madeira.

O Rei Carlos II e o Grão-Mestre Conde Rivers incumbiram Christopher Wren da planificação urbanística, cujo plano de reordenamento não colheu contudo a aprovação da Câmara de Comuns (do Parlamento) sendo a cidade reconstruída de acordo com a antiga traça. Christopher Wren dirigiu a reconstrução da Catedral de S. Paulo, tendo a cerimónia (maçónica) de lançamento da pedra fundamental tido a presença do Rei, do Grão-Mestre e seus adjuntos, da nobreza londrina, do Mayor, dos bispos e do clero. A Fraternidade Maçónica participou na construção de variadíssimas igrejas paroquiais e outros edifícios públicos.

Durante o reinado de Jaime II (irmão do Rei Carlos II) a maçonaria deixou de ter a relevância que tinha tido até aí, morrendo o novo Grão-Mestre, o Conde de Arlington, antes do rei ser coroado. Christopher Wren foi eleito Grão-Mestre mas as lojas passaram por um período de funcionamento irregular circunscrito ao Sul de Inglaterra (Lomas 2006, 45-6).  

A maçonaria operativa desapareceu no fim da Idade Média. As lojas que lhe sobreviveram reduziam-se a um punhado. Enuncia-se muitas vezes a questão se há alguma ligação entre as associações de companheiros e as lojas dos maçons especulativos. Os autores dividem-se quanto a essa questão. Sabe-se que as associações de companheiros são assinaladas em França e na Alemanha durante o século XIII e as suas práticas secretas têm pontos de similitude com as dos maçons. René Guinon afirma por exemplo que a maçonaria e o companheirismo não passam de uma e mesma organização de que saíram dois ramos, provavelmente durante a Renascença.

Marius Lepage assinala que existe historicamente uma dupla corrente de influências: do continente para a Inglaterra (durante a Idade Média) e a seguir da Inglaterra para o continente (fim do século XVIII). Isso leva este autor francês a afirmar (o que discordarão seguramente os historiadores ingleses) que a maçonaria inglesa é filha das organizações de companheiros continentais, especialmente das alemães e francesas (Lepage 1990).

Será provavelmente mais prudente dizer-se que a maçonaria continental experimenta uma evolução que tem a ver com os seus condicionamentos históricos, sociais e culturais colhendo seguramente parte da inspiração nas associações corporativas dos companheiros construtores, na sua disciplina de classe e hierarquização profissional. Regras que lhes permitiam funcionar como um lóbi de pressão junto de empregadores, impondo que apenas os maçons que faziam parte das associações fossem recrutados para as obras, fixando mínimos salariais e condições estritas para a aceitação de membros que pouco tinham a ver com as condições fluidas que apontámos quanto à maçonaria operativa inglesa. Na mesma linha de raciocínio não é curial identificar-se a criação da maçonaria especulativa – continental – como uma invenção puramente inglesa desenraizada das transformações sociais que acompanham o surgimento do século das Luzes, o Iluminismo e a dessacralização da vida comunitária na Europa continental. 

3. A Maçonaria Especulativa em Inglaterra e França
O nascimento da maçonaria especulativa, em resultado a criação da Grande Loja de Londres (GLL), inicia um período de grande pujança na vida da Ordem com o surgimento de novas lojas em Inglaterra, as quais atingiram o número de sessenta e quatro em 1725, cinquenta das quais localizadas na cidade de Londres. No continente, surgirá uma loja em Paris em 1725 e outras seis nos anos seguintes, as quais constituíram, em 1743, uma Grande Loja Provincial com a designação de Grande Loja Inglesa de França (GLIF). Esta autonomizou-se, posteriormente, com a designação de Grande Loja de França (Lepage 1990, 47 e 62). Esta expansão não foi generalizada por todo o continente europeu: em 1707, a Dieta imperial (alemã) aprovou um decreto suprimindo a autoridade da Grande Loja de Estrasburgo sobre os maçons alemães. Em 1731 e 1732 dois novos decretos declararam ilegais as confrarias dos construtores, sendo estas forçadas à clandestinidade (Jacq 1975, 23).

Apesar da criação da Grande Loja de Londres (GLL), outras lojas inglesas não seguiram a tendência geral de subordinação a esta Obediência e mantiveram-se autónomas, preservando as antigas tradições rituais. Em 1751 estas lojas juntaram-se numa Grande Loja rival com a designação “A Antiga e Honrosa Sociedade dos Maçons Livres e Aceites”. Escolheram como sua côte d’armes quatro animais representados na visão bíblica de Ezequiel (o leão, o boi, o homem e a águia). Estes maçons designavam-se como os ‘Antigos’ por guardarem as antigas práticas rituais, contrapondo-se aos maçons da GLL que designavam dos ‘Modernos’. A criação da Grande Loja dos Antigos de York recebeu apoio de outras Grandes Lojas.

UGLE
As duas obediências seriam unificadas, quase cem anos depois (1813), pela criação da Grande Loja Unida de Inglaterra, sendo dela primeiro Grão-Mestre, o duque de Sussex, até à sua morte em 1843 (MacNulty 1991, 70-1). Em 1782 iniciou-se o costume da Grande Loja inglesa ser dirigida por um membro da família real com a eleição do Henrique Frederico, Duque de Cumberland e irmão do Rei Jorge III, como Grão-Mestre. A ele se sucederia o Príncipe de Gales em 1790.

A maçonaria estabeleceu-se em França entre 1718 e 1725, em Espanha em 1728, em Praga em 1729, Nápoles em 1723 e na Suécia em 1735. Nas colónias americanas a maçonaria foi reconhecida com a indicação do Grão-Mestre Provincial de Nova Iorque, Nova Jersey e Pensilvânia pela Grande Loja de Inglaterra em 1730. A maçonaria terá chegado a Portugal entre 1735 e 1743. Existem indicações que uma loja inglesa identificada pela Inquisição sob o título “Loja dos Mercadores Heréticos” estaria em actividade no nosso país em 1727. Esta loja seria regularizada em 1735 pela Grande Loja de Inglaterra com o número 135, tendo uma segunda loja sido criada em 1733, a qual adoptaria o nome de ‘Casa Real dos Pedreiros Livres da Lusitânia’ (Gonçalves, Pietre-Stone).

A maçonaria francesa empreendeu o seu próprio caminho e em 1737 os franceses tomaram conta da maçonaria nacional. O duque de Aumont passou a intitular-se ‘Mestre das Lojas’, celebrando com um jantar aberto à aristocracia a sua ascensão a chefe da maçonaria francesa. A nobreza acorria às lojas e a 24 de Junho de 1738, o Grão-Mestre da GLL designa o duque de Autin (Governador de Orleães) como Grão-Mestre da maçonaria francesa. O duque de Autin faria aprovar uma nova Constituição e a maçonaria deixou definitivamente as tabernas acolhendo-se aos salões respeitáveis da aristocracia.

Criada em Inglaterra por pastores protestantes, a maçonaria retém do cristianismo um deísmo muito amplo e o essencial da moral evangélica. Na França do Antigo Regime representa uma novidade com sucesso imediato. Responde à necessidade de sociabilidade que desperta nas relações entre as classes sociais, já que oferece aos que a procuram a filosofia das Luzes abrindo as vias do ocultismo e do misticismo. O misticismo de Dom Pernetey e dos Iluminados de Avinhão, o ocultismo de Martinès de Pasqualy ou de Saint Germain, as influências de homens célebres como Cagliostro, Mesmer ou Casanova são o reflexo da vivência das lojas. Nesse contexto, a ordem maçónica tem a honra de captar Voltaire e fazê-lo iniciar na Loja Três Irmãs em Abril de 1778. Como diz Chevalier nas lojas francesas pratica-se muita filantropia e papel determinante será conferido às lojas de adopção femininas (as Irmãs da Candura) lojas que atraíam a alta nobreza (Chevalier 1975, 411).  

As lojas inserem-se no que se tem designado por uma ‘maçonaria de sociedade’, uma maçonaria impregnada do elemento aristocrático, associada à oferta de um divertimento mundano, à animação dos ‘irmãos’ e das ‘irmãs’ num teatro de sociedade. Elas são palco de uma sociabilidade maçónica marcada por bailes, concertos de amadores, jogos literários e por cerimónias de recepção em que a encenação determina o êxito e a transmissão da essência do grau (Beaurepaire 2005). A ‘maçonaria de sociedade’ é dirigida pela melhor aristocracia francesa (pelos duques de Montmorency -Luxembourg e de Orléans), como na Alemanha o é pelos Schlosslogen e os Hofglogen ou na Rússia pela família imperial. A ‘maçonaria de sociedade’ funciona ao ritmo de abertura das lojas, convenientemente associada ao recrutamento de certos ‘nomes’, ao envio de cartas-convite, à leitura de anúncios nas lojas irmãs, bem como aos bailes e festas que marcam a entrada no teatro mundano. As lojas figuram nos guias de viajem e é de bom tom visitá-las.

A maçonaria combina sociabilidade mundana e hospitalidade doméstica. Emancipa-se do quadro dos Templos para se espalhar pelos apartamentos e hotéis particulares: um quadro de loja portátil, cortinas, fauteuils e graus conferidos, por comunicação, asseguram a mobilidade na cadeia de união (Baurepaire, idem).

É matéria polémica se a maçonaria inspirou os eventos políticos que conduziram à Revolução Francesa de 1789. Os maçons eram numerosos entre aristocratas, quer dizer os privilegiados. Não estariam particularmente animados do espírito democrático, pelo que será abusivo dizer-se que a maçonaria quis intervir de forma deliberada no plano político. Como veículo de ideias (novas) ela desempenhou um papel importante no período pré-revolucionário. Os maçons estavam longe de partilharem as mesmas ideias e a Ordem não lhes impunha uma doutrina precisa. Como recorda Chevalier os maçons eram de tal forma moderados que o terror jacobino concluiu que ser maçom e cidadão constituía qualidades incompatíveis. Durante a revolução, a maçonaria desapareceu tal como as Academias e a grande maioria dos maçons encontrou na ‘igualdade’ do Terminador um sabor bem amargo. O turbilhão revolucionário teve os seus efeitos nas lojas e a participação de clérigos acabou rapidamente o que teve consequências na luta que oporia a Ordem à Igreja Católica em boa parte dos séculos XIX e XX (Chevalier 1975, 323). 

De forma irónica, a maçonaria especulativa ascende das cinzas da maçonaria das corporações, marcada pelo abandono do espírito fundador da construção, pela reserva no acesso a uma elite de construtores e pela perseguição dos verdadeiros construtores nalguns pontos da Europa. Se se tiver em consideração o tipo de obreiros que preenchiam as lojas dos princípios do século XVIII encontramos eclesiásticos, homens políticos, alta burguesia, teístas e ateístas, cientistas e ocultistas . Na maçonaria tradicional (operativa) a lealdade na conduta unia os obreiros à volta de um mesmo desígnio: construir o Templo à glória de Deus e traduzir a experiência espiritual em símbolos. Na maçonaria especulativa essa ideia central ganha os favores apenas de uma das correntes maçónicas. A maçonaria torna-se um local de prestígio a que é importante pertencer-se para se progredir socialmente.

4. Os maçons aceites. Um consenso ético de sobreposição. 
Os maçons mudam: deixam de ser uma espécie de congregação de maçons operativos que aceitam todas as doutrinas da Santa Madre da Igreja e tornam-se uma organização de cavalheiros educados e eruditos. Homens que privilegiam a tolerância religiosa e a fraternidade entre indivíduos de diferentes religiões e argumentam que a simples crença numa divindade substitui as controversas doutrinas teológicas. Na linguagem da época, os maçons operativos foram substituídos pelos ‘maçons aceites’ ou ‘cavalheiros maçons’ ou ainda ‘maçons especulativos’ (Knoop & Jones 1947).

Albert Mackey na sua Enciclopédia de Maçonaria alega que existe uma clara linha divisória entre os ramos operativo e especulativo da maçonaria, embora se deva assumir que a variante operativa é o ‘esqueleto sobre o qual foram aplicados os músculos, tendões e nervos do sistema especulativo’ (MacKey 1999). Mackey define-a como a ‘aplicação científica e a consagração religiosa das regras e princípios, linguagem, ferramentas e materiais da maçonaria operativa na veneração de Deus, na purificação do coração, na interiorização dos dogmas da filosofia da religião’. Trata-se de um sistema ético e como todos os sistemas éticos tem três sub-doutrinas, morais, religiosas e filosóficas.

O primeiro subsistema moral define a maçonaria como uma ‘ciência da moralidade’, fraternidade ou associação de homens unidos por um vínculo particular que inculca, como laivo fundamental dos seus ensinamentos, um dever de gentileza e cordialidade. Há três grandes deveres que o aprendiz está obrigado: para com Deus, o vizinho e si próprio. O dever para com o vizinho é actuar segundo o esquadro e tratá-lo com gostaríamos que nos tratasse a nós próprios. O segundo subsistema religioso não está preso a uma teologia particular mas determina a crença em Deus e na imortalidade da alma, porque ‘conhecemos o espírito fraterno e universal de Deus antes de podermos apreciar convenientemente a fraternidade dos homens’.

O terceiro e último subsistema filosófico procura transformar o neófito num maçon zeloso, levando-o a conhecer e interpretar os símbolos (especial dimensão dos ensinamentos maçónicos) e a relacioná-los com a procura da palavra perdida, a demanda da verdade divina, a forma e maneira dessas descobertas, premiando os que preservam e têm fé. Mackey conclui que enquanto a antiga maçonaria operativa foi o berço da especulativa e transmitia ensinamentos nas suas Constituições sobre as doutrinas morais e religiosas não fazia qualquer referência às doutrinas filosóficas (MacKey idem).   

Não se conhece a razão de ser da transformação da Maçonaria operativa em especulativa. Alec Mellor alega que para preencher os vazios e alimentar a tesouraria as lojas operativas recorreram a um expediente clássico: abrir as lojas a interessados que se distinguiam na arquitectura, a mecenas e sábios, que foram sendo admitidos sob o nome de ‘maçons cavalheiros’, ou ‘maçons aceitos’, iniciados nos segredos do ofício e sujeitos aos antigos juramentos (Mellor 1989, 13-4). O crescimento do elemento ‘aceite’ levou ao desaparecimento dos profissionais dos ofícios, embora algumas lojas meramente operativas subsistissem em Inglaterra e na Escócia. Mellor sugere que uma outra hipótese plausível da transformação da maçonaria operativa em especulativa terá sido a acção da Royal Society, que a partir de 1667 passou a admitir nas fileiras homens eminentes de todas a religiões, inclusive os católicos mais dogmáticos.

 Désaguillers
O pastor Théophile Désaguillers (1638-1739), um dos fundadores da maçonaria especulativa, foi membro da Royal Society como de outras academias estrangeiras, inclusive a Academia de Ciências de Paris. Désaguillers era membro da Loja Antiguidade n.º 2 (uma das fundadoras da Grande Loja de Londres) tornando-se Grão-Mestre em 1719. O que daria a natureza especulativa à maçonaria foi a criação da Grande Loja de Londres que Mellor considera ter sido um expediente para ‘salvar uma maçonaria agonizante’ criando-se um organismo federador, tendo à frente um Grão-Mestre, o primeiro ‘Anthony Sayer, cavalheiro’ (Mellor 1989, 16). 

A maçonaria especulativa não é algo artificial e composto para efeitos de manutenção dos antigos privilégios das guildas operativas. É uma extensão natural das tentativas dos homens de descobrir as suas origens, de compreender o sentido da vida e perceber qual o seu destino final. Embora a maçonaria, enquanto ordem formada por maçons especulativos, date da segunda década do século XVIII ela não inventou os rituais. Os maçons especulativos perceberam a importância dos rituais antigos que condensaram, codificaram e simplificaram sob a forma usada nos cerimoniais especulativos (Falconer, The Square and the Compasses). Os que criaram as primeiras lojas especulativas não viram o trabalho ritual como um fim em si mesmo mas como uma base para um enriquecimento e debate filosófico. Os cerimoniais cumpridos em Templo deveriam ser um veículo não cerceador, sendo subsidiários da principal função de permitir a cada um comunicar os seus pensamentos em grupo. Os rituais foram concebidos para permitir libertar os obreiros de assuntos profanos, que de outra forma impediriam a libertação dos espíritos. A transmissão exacta do texto do ritual não tinha sentido, a não ser que fosse comunicado de forma a captar a atenção da sua mente, despertar o interesse e incitar a sua compreensão (Falconer, idem).

Constituindo uma base de trabalho, os rituais especulativos deviam permitir a discussão de assuntos com relevância ou interesse, até porque diferentemente de outros animais os seres humanos têm uma enorme curiosidade sobre as suas origens e o que os rodeia. Desde que a história tem registos há 6000 anos, há indicações crescentes de mitos e explicações religiosas (e outras) que procuram dar respostas para esse questionar objectivo que se integra nos propósitos da maçonaria especulativa.

No fim do século XVIII, o ideal da maçonaria moderna traduzia-se em exaltar templos à virtude e esmagar as paixões, combatendo os vícios. Estas intenções de aperfeiçoamento moral completam-se com a vontade de bem-fazer, de assistência, que está reservada aos homens que ocupam um lugar elevado na sociedade. Neste período, as minorias ocupam-se do ocultismo e nesta arte secreta destacam-se nomes como os do filósofo Saint-Martin, do místico Willermoz ou do controverso Cagliostro. Baralha-se espiritualidade e teosofia, simbolismo e adivinhação (Jacq 1975, 255-260).

5. A Maçonaria Republicana no século XIX
A maçonaria do século XIX é antes de tudo política e social (pelo menos no continente europeu), uma vez que a maioria dos maçons não se preocupam tanto com o esoterismo da iniciação e a prática simbólica mas com o comprometimento político da Ordem. As várias tendências e forças políticas da época confundem-se nas lojas. A maçonaria não se apoia nos templos mas em palavras de ordem sonantes como <liberdade, igualdade e fraternidade>. A Ordem maçónica não adopta uma orientação política específica já que ela favorece um quadro de discussão mais ou menos amplo sobre os temas da actualidade. A maçonaria novecentista toma contudo posições políticas claras e promove os valores democráticos e republicanos. O ‘livre-pensamento’ sob todas as formas torna-se o seu princípio cardinal. A maçonaria pequeno-burguesa transforma-se num super-partido que luta contra a Igreja (e a sua doutrina) e encontra o seu ponto de glória na criação da Sociedade das Nações.

Três exemplos podem avocar-se do significativo grupo de maçons políticos e intelectuais do século XIX. Émile Justin Combes, presidente do conselho do seu departamento municipal, senador, torna-se presidente do grupo da esquerda democrática em 1893. É iniciado na Loja Les Amis Réunis de Barbezieux e filia-se em Pons na Loja Tolérance et Étoile de Saintonge. Entra no governo de Léon Bourgeois como ministro da instrução pública, das artes e da cultura e desdobra-se na defesa da república e do laicismo. Manda encerrar em poucos dias 2500 escolas religiosas. Em 1904 faz publicar uma lei que interdita os padres de ensinar (Daudin 2003, 34). Jules François Ferry, advogado e redactor do jornal Le Temps é eleito deputado republicano em 1869 e torna-se perfeito do Seine e depois em Paris em 1870. É um anticlerical determinado, ministro da instrução pública constrói uma rede de escolas públicas suprimindo as congregações religiosas. Determina-se em enfraquecer a Igreja enquanto poder com projecção política e ideológica sobre a sociedade do tempo (Daudin 2003, 60). É iniciado na Loja Clémenté Amitié de Paris e adere a outra Loja, a Alsace-Loraine. Como ministro da educação impulsiona as grandes reformas educativas da República Francesa: laicismo, gratuitidade do ensino primário, extensão do ensino secundário público às raparigas. Léon Gambetta advogado e político, membro do governo de defesa nacional. Foi membro do governo de Jules Grévy, chegando à presidência do Conselho. Foi membro de várias lojas do Grande Oriente de França, designadamente La Réforme de Marselha. É responsável pela introdução da discussão política nas lojas do Grande Oriente, recebendo por isso críticas dos mais tradicionalistas como Oswald Wirth (Daudin 2003, 291).    

Esta predominante associação da via iniciática ao combate político e republicano agrava-se no século XX, o que é contemporâneo por um lado da emergência de ideologias fascistas que conduzem ao nazismo na Alemanha e ao fascismo em Itália, Espanha e Portugal. Há uma fragilização do espírito iniciático na maioria e das lojas e as ideias-força da igualdade, da fraternidade e do combate pela liberdade tornam-se prevalecentes. A aposta no igualitarismo sem princípios conduz à confusão entre valores espirituais e políticos no seio das lojas. Estas transformam-se em escolas nocturnas ou reuniões de comités. Os partidos que emergem com o republicanismo confundem-se com as lojas, arregimentam milicianos para os golpes militares que desferem contras a monarquias europeias de direito divino. A mistura entre os propósitos e valores da maçonaria e da carbonária foi generalizado. A segmentação entre maçons e antimaçons é acentuada com a publicação da encíclica Ecclesiam pelo Papa Pio XII de 13 de Setembro de 1821. 

Pio VII
Pio VII
Nela se exprime claramente a abjuração dos maçons pelo chefe da Igreja Católica (Encíclica Ecclesiam, Papa Pio VII):
Nada ignora o prodigioso número de homens culpados que se uniram nestes tempos tão    difíceis, contra o Senhor e contra Cristo, e aplicaram todos os esforços em enganar os fiéis dirigindo-os para uma falsa e vã filosofia e arrancando-os ao seio da Igreja com a esperança       de arruinar essa mesma Igreja. Para alcançar mais facilmente os seus fins a maior parte            deles formaram sociedades ocultas, seitas clandestinas, procurando por essa via agregar o maior número ao seu complô. (…) nesse aspecto é necessário assinalar que há uma nova sociedade formada recentemente e que se propaga por toda a Itália e outros países, a qual         ainda que dividida em vários ramos e escondendo-se sob vários nomes, segundo as circunstâncias, é única tanto pelo conjunto de opiniões e pontos de vista como pela sua constituição. Ela a maioria das vezes aparece designada pelo nome de Carbonária.

Este desafio do chefe da Igreja Católica aos maçons conduz ao reforço do poder interno dos que visavam combater a Igreja e fazer cessar os seus privilégios acumulados por séculos de associação entre o poder temporal e espiritual. Isso conduz à rejeição da dimensão espiritual da Maçonaria e à supressão do Grande Arquitecto do Universo como princípio instituidor da Ordem Maçónica. Trata-se de uma realidade ditada pelas circunstâncias do continente europeu que a Maçonaria Inglesa desconhece até pelo facto de, na sequência do cisma com Roma, a Igreja Nacional Inglesa ter-se reformado institucionalmente reconhecendo o Rei como autoridade suprema da Igreja Anglicana. Assim se explica que parte importante do episcopado seja formada por maçons que detêm posições importante na Ordem. A mesma tendência foi seguida nos países escandinavos e na Alemanha em que os luteranos foram autorizados a continuarem na maçonaria, revelando a estrutura das confissões protestantes simpatia pela actividade das lojas. A ‘profissão política’ das lojas do Grande Oriente de França não deixou de ser criticado pela corrente tradicionalista que a considerou uma adulteração dos princípios e do ideário maçónico. Guénon por exemplo dizia o seguinte (Guénon 1953, 265):

O que é lamentável e que há que verificar é a ignorância completa em muitos maçons do simbolismo e da sua interpretação esotérica, o abandono dos estudos iniciáticos sem os   quais o ritualismo não é mais que um conjunto de cerimónias vazias de sentido.

Em 1877, as novas Constituições do Grande Oriente de França suprimem a referência ao Grande Arquitecto do Universo (GADU). Na Assembleia Geral que teve lugar a 13 de Setembro de 1877, o GODF proclama que não é necessário a um candidato à maçonaria, na sua área de jurisdição, declarar a crença no GADU. Em 1878 dá-se a ruptura com a Grande Loja Unida de Inglaterra que deixa de reconhecer o GODF como potência regular (Buta, Pietre-Stone).

Oswald Wirth
Oswald Wirth
Ao lado desta maçonaria politizada e social emerge uma maçonaria iniciática cujo representante mais conhecido é Oswald Wirth que funda em 1912 a revista Le Symbolisme onde difunde a via simbólica e ritualista. Iniciado em 1882 na Loja La Bienfaisance Châlonnaise critica o abandono do simbolismo pela maçonaria francesa. Filia-se na Loja Travail et Les Vrais Amis Fidèles da Grande Loja Simbólica Escocesa. Participa na criação da Grande Loja de França nela se mantendo até à sua morte, em 1943. Publica vários livros importantes ‘O Livro do Aprendiz’, ‘O Livro do Companheiro’, ‘O Livro do Mestre’, ‘O Ideal Iniciático’ ou ‘Os Mistérios da Arte Real’.

Na sua continuação, Édouard de Ribaucourt vem defender que a herança dos construtores das catedrais é o principal acervo da maçonaria e que o GADU ‘e uma base intangível da Ordem tal como o Livro da Lei Sagrada simbolizado na Bíblia (Jacq 1975, 244). Ao confrontar o Grande Oriente da França com estas ideias, Ribaucourt é demitido do Grande Oriente e funda em 1913 a Grande Loja Nacional Independente e Regular para a França e as Colónias Francesas, a qual se tornará mais tarde a Grande Loja Nacional Francesa. No manifesto de 27 de Dezembro de 1913, proclama ‘fomos levados para salvaguardar a integridade dos nossos rituais rectificados e a manter em França a verdadeira Maçonaria de Tradição, a única que existe a nível internacional, a nos constituirmos em Grande Loja Nacional independente para a França e as colónias francesas’ (Jacq idem). 

6. O regresso à via tradicional no século XX
As primeiras décadas do século XX vêem por isso a maçonaria francesa envolvida nos grandes confrontos políticos desse tempo. Em 1917, a maçonaria encoraja a revolução russa contra o Império dos czares, rebelião em que participam as lojas russas clandestinas dirigidas por Nikolai Nekrasov e Alexander Kerensky e apoiadas pelos franceses. A possibilidade de legalização da maçonaria russa, a seguir à Revolução de Outubro, frustra-se quando Lenine e Trotsky ilegalizam a maçonaria, vendo-a um instrumento dos interesses dos países capitalistas. Em França, o Partido Radical, o braço político da maçonaria, decresce no apoio que tinha antes da Primeira Guerra Mundial. Surgem novos partidos de esquerda que não se revêem nos valores e ideário da maçonaria. O Grande Oriente de França e a Grande Loja Francesa participam no Congresso de Genebra de 1921 com o objectivo de repensar-se e redefinir-se os objectivos da Ordem depois da destruição trazida pela Guerra.

A maçonaria é definida como uma instituição filosófica e progressiva que procura o progresso material, social, intelectual e moral e o bem-estar da humanidade (Jacq 1975, 246). O Congresso define que a maçonaria francesa deve-se situar na união das esquerdas para organizar uma efectiva defesa nacional. Em Novembro de 1922, o quarto congresso da Internacional Comunista, em Moscovo, decreta o rompimento de relações com a maçonaria universal. Os filiados comunistas que sejam maçons – determina a Internacional Comunista - deverão demitir-se das obediências a que pertencem. A maioria dos maçons franceses abandona o partido comunista e mantém-se nas lojas. As relações entre os dois lados arrefecem e apenas em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, são restabelecidas.  

Em 1929, a Grande Loja Unida de Inglaterra questiona a conformidade das obediências francesas face aos princípios da regularidade. A saber o reconhecimento da soberania absoluta da GLUI, a crença na vontade revelada de um Grande Arquitecto, a existência visível em Loja das Três Grandes Luzes da Maçonaria (O Livro da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso) e a interdição de toda a discussão política e religiosa. A estes critérios, apenas a Grande Loja Nacional Francesa, se adequa. O Grande Oriente de França opta por se manter na ‘irregularidade’ a ceder à exigência de reconhecimento da soberania inglesa em questões de orientação maçónica. No princípio do século XX, afirmam-se, portanto, duas tendências distintas no seio da Maçonaria Universal: de um lado, a Grande Loja Unida de Inglaterra como guardiã das tradições e do carácter simbólico e iniciático da maçonaria; do outro, o Grande Oriente de França, defensor de uma maçonaria aberta, laica, livre-pensadora onde a prática política é considerada uma via legítima para o aperfeiçoamento individual e o progresso da Humanidade.

Cartaz de Propaganda (Governo de Vichy)
A Segunda Guerra Mundial interrompe a acção dos maçons que visavam a restauração da dimensão tradicionalista da Ordem. Aos movimentos anti-maçónicos segue-se a perseguição geral, que se inicia com o decreto do governo de Vichy de 14 de Agosto de 1940, que interdita e suprime todas as sociedades secretas. Multiplicam-se em França as prisões e execuções sumárias e os funcionários públicos maçons são despedidos, assim como é proibida a admissão de indivíduos conectados com a Ordem. Três anos depois, por decreto de 15 de Dezembro de 1943, o General de Gaulle anula o decreto do governo de Vichy legalizando a actividade das lojas maçónicas em França (Jacq 1975, 250-4). A maçonaria encontra-se num estado debilitado com as lojas dizimadas pela guerra, tornando indispensável a sua depuração e reintegrando os obreiros que não haviam sido cúmplices dos ocupantes alemães. O Grande Oriente de França conta com 5500 filiados contra os 35000 que detinha em 1939 (Deleclos & Caradeau 2006, 584). 

O recrutamento é estimulado e em 1947 as diversas obediências maçónicas retomam a sua actividade mantendo umas a orientação mais interventiva (ou menos interventiva), nas questões sociais e políticas, que havia marcado a sua orientação antes da eclosão da Segunda Guerra. As cinco grandes obediências francesas (o Grande Oriente de França, a Grande Loja de França, a Grande Loja Nacional Francesa e o Direito Humano) procuram retomar a sua própria identidade. O Grande Oriente continua marcado pelos valores da Terceira República e a acção social. O Direito Humano mantem uma orientação semelhante. A Grande Loja Nacional Francesa integra os maçons ingleses e americanos que vivem em França e isso conduz ao abandono do principal rito da obediência – o Rito Escocês Rectificado – e a adopção do Rito de Emulação seguido pelas lojas inglesas. Problemas no funcionamento desta última grande loja levam a uma cisão em 1958, com a criação da Grande Loja Nacional Francesa Opera que adopta, mais tarde, a designação de Grande Loja Tradicional e Simbólica Opéra. Grande Oriente e Grande Loja Nacional disputam a maioria dos maçons franceses. Novas obediências surgem entretanto, sendo a mais significativa a Grande Loja Feminina de França, organização exclusiva de mulheres, que resulta da autonomização das lojas de adopção do Grande Oriente. Outras obediências mais pequenas são a Ordem Iniciática Tradicional da Arte Real, a Grande Loja Mista Internacional, a Grande Loja Mista de França e a Grande Loja Independente e Soberana dos Ritos Unidos.

Não constituindo seguramente um problema exclusivamente francês, as grandes questões com que se confronta a Maçonaria Especulativa são desde logo: a divisão administrativa e jurídica entre as obediências, as lojas ‘regulares’ reconhecidas como tal pela Grande Loja Unida de Inglaterra e outras que os primeiros dizem ‘irregulares’. E se a Maçonaria não é uma religião, no sentido do cristianismo, do judaísmo ou do Islão, não passa despercebido que estas religiões têm uma dimensão exotérica que intervém em sociedade, moldando o comportamento dos ‘fiéis’, fixando valores referenciais que se manifestam nas instituições que caracterizam as sociedades em que uma e outra religião são dominantes. No capítulo maçónico, isso tem como consequências a interdição de visita a lojas consideradas ‘irregulares’, por parte de lojas e obediências alinhadas com a Grande Loja Unida de Inglaterra e, também, o inverso. O segundo problema é a exclusão das mulheres da actividade maçónica. Isso cria um problema pois transforma as obediências mistas e femininas militantes de uma causa de ‘igualdade dos géneros’ e contra a discriminação sexual. Na verdade, a regra de interdição do acesso das mulheres à maçonaria estabelecida nas Constituições de Anderson não é compaginável com a realidade dos nossos dias onde na vida civil e profana não só não existe discriminação em resultado do género como ela é socialmente combatida.

Maçonaria Mista (Espanha)
O terceiro problema é o da perda de influência da maçonaria na esfera social, já não tanto na esfera político, uma vez que a maçonaria regular desistiu de ter uma intervenção mais vincada no plano das causas sociais. Embora individualmente os maçons conservem alguma intervenção como activistas das causas da família, do planeamento familiar, da política criminal e da abolição da pena de morte, e também a nível partidário e sindical, a sua militância está aquém do que aconteceu em décadas anteriores. Não constitui, aliás, a regra geral entre maçons. Algumas associações inter-obediências surgem nas últimas décadas mas dificilmente se pode interpretar a sua acção como a tentativa de criar vias de comunicação que ultrapassem as divisões programáticas e de alinhamento. Em regra são associações que procuram mostrar ao mundo e ao poder legislativo o poder da unidade moral da maçonaria, apesar da sua diversidade e fragmentação. O quarto problema é a ênfase do ‘negocismo’ que uma imprensa voraz de escândalo se aplica a colar à maçonaria. A possibilidade de um maçom usar a sua pertença à maçonaria para fazer lobby por um dado projecto empresarial é sempre algo possível mas não exclusivo da maçonaria enquanto organização. Pode ser replicado por qualquer outra organização social em que um grupo de pessoas partilha uma identidade comum e a coloca ao serviço do grupo. Diga-se em abono da verdade que as obediências não têm meios de prevenir este tipo de fenómenos. Sendo as lojas plataformas naturais de encontro entre pessoas diferentes, esta vocação para o agrupamento de interesses é congénita, não sendo contudo muito diferente das associações de condiscípulos, das agremiações desportivas, dos sindicatos ou uniões de empregadores ou das inúmeras associações internacionais como os rotários, os Lions, a Civitan International, ou o National Exchange Club.    

7. Posfácio
Traçámos um quadro, se bem que sintético, da transformação da maçonaria operativa em especulativa, explicando que a primeira surgiu no contexto da sociedade medieval de forma a permitir a transmissão do conhecimento dos construtores e das suas associações num tempo em que não havia livros, nem desenhos, nem planos de construção, sendo os edifícios finalizados a prova da arte dos seus arquitectos e artífices. Referimos, também, a ligação entre a vivência religiosa das comunidades da Idade Média e o plano material da vida em comunidade.

A passagem da era medieval à moderna foi acompanhada pela erosão do papel social dos construtores das catedrais, das igrejas paroquiais, dos castelos e monumentos, à medida que a máquina foi ocupando o lugar do trabalho braçal dos homens e o engenho dos artistas. Colocada na eminência de desaparecer, a maçonaria operativa viu-se forçada a abrir as suas portas a maçons não operativos, designadamente nobres, aristocratas, clérigos e intelectuais que pertencendo às classes superiores da sociedade poderiam lhe assegurar a sua sobrevivência. Com esta mudança a maçonaria torna-se definitivamente especulativa e busca a protecção de um benfeitor endinheirado ligado à casa real, Foi essa a tendência da maçonaria inglesa com a criação da Grande Loja de Londres em 1717 que impulsiona a criação de outras obediências na Europa continental e daí para todo o mundo.

No século XIX, a natureza especulativa dos rituais e das práticas cerimoniais deixa de atrair a atenção dos obreiros das lojas e estas tornaram-se palco do debate político e das lutas sociais com a afirmação do projecto republicano contras as monarquias de direito divino que dominavam a Europa. Já no século XX a maçonaria especulativa tornar-se-ia mais plural e diversa com a explosão de obediências teístas alinhadas (e reconhecidas) pela maçonaria britânica e outras mais laicas e interventivas alinhadas com o Grande Oriente de França. Este cisma, entre estas duas grandes famílias maçónicas, mantem-se até aos nossos dias, apesar de tentativas para ultrapassar a divisão doutrinária e administrativa. Na sua cauda, surgem novas obediências com menor peso nacional e internacional, resultantes de disputas de liderança ou divergências sobre o papel que à maçonaria está reservada. Esta pluralidade de obediências é deplorada por alguns, mas é sintoma da riqueza e diversidade da maçonaria e a razão porque um tão grande número de pessoas se revê nos valores e nas respostas da maçonaria para os problemas do mundo. O papel da maçonaria feminina e mista crescente em lojas e influência é um dos desafios que se colocam às maçonarias de tradição e liberal e algo que nunca esteve na ponderação dos que, há quase trezentos anos, lhe estabeleceram o corpo dos seus princípios fundadores. Deve a maçonaria abrir-se aos novos ventos da modernidade ou manter-se inabalavelmente fiel aos mandamentos e princípios constitutivos? Essa é a pergunta para que não há resposta. Pelo menos por agora.

Arnaldo M.A. Gonçalves 
(*) O Ir\ Arnaldo M.A. Gonçalves é V:.M:. Loja Sun Yat Sen Or\ de Macau Cidade na República Popular da China
**Macau é uma das regiões administrativas especiais da República Popular da China desde 20 de dezembro de 1999, sendo a outra Hong Kong.

NE: Mantemos a  grafia original usada nesse artigo que  é do português de Portugal e Macau












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·         Zeldis, Leon. “England around 1717. The foundation of the first Grand Lodge in context”, Pietre-Stones Review of Freemasonry, in http://www.freemasons-freemasonry.com/zeldis21.html

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Editor Luiz Sérgio Castro