Decifradas as cartas criptografadas de Maria Antonieta ao seu amante Hans Axel von Fersen

CULTURA - Fonte: Sul21
Maria Antonieta em carta ao amante: "Nada no mundo poderá impedir-me de amá-lo até a morte” | Foto: Reprodução
Maria Antonieta em carta ao amante: “Nada no mundo poderá impedir-me de amá-lo até a morte” | Foto: Reprodução
Adélia Porto
Especial Sul21
A última rainha da França, a célebre Maria Antonieta, manteve uma relação íntima e secreta com o conde e militar sueco Hans Axel von Fersen. Cartas criptografadas da rainha para o amante acabam de ser decifradas e serão divulgadas pelos Archives Nationales franceses ainda este mês. Sempre houve uma suspeita a respeito da natureza da relação de Maria Antonieta com o conde, o que as cartas agora confirmam. O assunto foi publicado pela edição digital da revista semanal Le Nouvel Observateur.
Carta criptografada
Carta criptografada
“Nada no mundo poderá impedir-me de amá-lo até a morte”, diz Maria Antonieta ao amante numa das cartas. “Adeus. Tenha pena de mim. Ame-me. Principalmente, julgue-me por coisas que me vir fazer somente depois de ter-me ouvido. Eu morreria se por um só momento fosse desaprovada pelo ser que adoro e que jamais cessarei de adorar”. As cartas abrangem um período que vai de junho de 1791 a agosto de 1792, dois anos antes de Maria Antonieta morrer na guilhotina. Além de candentes juras de amor, as cartas revelam os temores da rainha quanto ao futuro e suas manobras para tentar firmar alianças com potências estrangeiras e restaurar a monarquia. Leia mais
Segundo o Nouvel Observateur, os amantes usavam um código complexo, denominado “polialfabético”, que exige dois elementos para a decifração: uma tabela de decodificação e uma palavra-chave que a rainha e o conde mudavam a cada mensagem. Não se sabe como eles conseguiam informar um ao outro a palavra-chave. Fala-se de códigos costurados no forro de chapéus ou esconderijos em escrivaninhas.
Valérie Nachef, criptóloga da universidade de Cergy-Pontoise | Foto:  www.u-cergy.fr
Valérie Nachef, criptóloga da universidade de Cergy-Pontoise | Foto: www.u-cergy.fr
A decodificação foi feita pelos criptólogos Valérie Nachef, da universidade de Cergy-Pontoise, e Jacques Patarin, professor da universidade de Versailles, que trabalharam com um acervo dos descendentes do conde Fersen, adquirido pelosArchives Nationales. Agora, eles querem ir mais adiante e decifrar trechos propositalmente rasurados de cartas do jovem conde e saber o que se esconde sob os rabiscos. Análises laboratoriais permitirão distinguir a diferença de tintas – a tinta original dos amantes e a tinta usada para suprimir certas passagens. As cartas, inclusive a tabela de decodificação, serão publicadas ainda em janeiro no site dosArchives Nationales.
Apelido ofensivo
Marie Antoinette Josèphe Jeanne de Habsbourg-Lorraine era a décima-quinta filha do imperador Francisco I e da imperatriz Maria Teresa da Áustria. Seu casamento aos 14 anos com o delfim da França, que subiria ao trono com o título de Luis XVI, serviu ao propósito político de aproximar os inimigos históricos França e Áustria. Enfrentando uma união problemática (o delfim não se aproximava da esposa e o casamento não se consumava) e um longo período de turbulência financeira e política que desembocou na Revolução Francesa, Maria Antonieta tornou-se uma das figuras mais conhecidas e populares da história da França. Considerada superficial, perdulária e promíscua, ela ganhou da população um apelido ofensivo associado ao seu país de nascimento: autre-chienne, que quer dizer “outra cadela” e cuja pronúncia é quase igual a autrichiènne, que significa “austríaca”. Acusada de alta traição, Maria Antonieta foi julgada pelo Tribunal Revolucionário e executada em 16 de outubro de 1793. O carrasco mostrou sua cabeça cortada ao público, que gritava “Viva a Revolução!”.
Hans Axel von Fersen chegou à corte francesa em 1744 | Foto: wikipedia
Hans Axel von Fersen chegou à corte francesa em 1744 | Foto: wikipedia
O amante, filho de um nobre, militar e político sueco, chega à corte francesa em 1744, durante uma viagem de aprimoramento cultural pela Europa. Conhece a esposa do delfim num baile e é admirado pela corte, que o considera belo, sério e educado. “Com sua bela figura e espírito não poderia deixar de ter sucesso na sociedade, o que fez completamente”, comentou então o embaixador da Suécia. Fersen regressa a seu país, mas volta à França em 1778, tornando-se íntimo de Maria Antonieta. Foi ele que, em 1791, organizou a frustrada fuga da família real para Varennes, depois que uma multidão invadiu o Palácio de Versalhes.
A corte suspeitava da relação entre os dois – sabe-se que Fersen costumava visitar a rainha no Petit Trianon, pequeno palácio junto a Versalhes – e até especulava-se sobre a paternidade de uma das crianças da rainha, mas os biógrafos dela não podiam afirmar qual a intensidade desse contato. Com as cartas agora decifradas, é possível assegurar que a relação era para valer.
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Editor Luiz Sergio Castro