Viola mágica e encantada

Por Barbosa Nunes
"O violeiro quando toca, as cordas do coração ficam presas entre abraços nos acordes da canção". "Quando pego na viola. Nesta viola querida. Eu me sinto em outro mundo. Numa existência florida: Vão-se todas as tristezas. Todas as mágoas da vida”. “São toadas e versos de Amaro de Oliveira Monteiro e de Nhô Laco, que ponteando este instrumento mágico e encantado que é a viola, símbolo nacional da original música sertaneja, conhecida como moda de viola ou música de raiz. Eles afloram nossos corações e nos permitem agradáveis e felizes momentos através deste instrumento que tem potencial sentimental fora do comum. O violeiro nordestino quer tanto bem à sua viola, assim se declarando: “Sou cantor. Na hora extrema peço esta última esmola. Que o meu caixão seja feito, em forma de uma viola”.
Em 1890 o inglês Percy A. Newberry descobriu, junto ao Rio Nilo, o túmulo do príncipe egípcio Chnum-Hotep, morto em 1900 a.C, com várias pinturas, entre elas uma que retratava um homem tocando a lira de oito cordas. Novos formatos surgiram, com destaque para o alaúde árabe e na sequência, cerca de trezentos anos depois, o instrumento de quatro pares de cordas, em 1350 foram introduzidos em Portugal com o nome de viola. Leia mais

Rossini Tavares de Lima, no seu livro "Moda de Viola, Poesia de circunstância", afirma que "O nome viola já aparece no poema de Alexandre, do século XIII, como instrumento trovador. A viola brasileira, relaciona-se mais diretamente a um instrumento difundido na Península Ibérica, denominado viela ou viola de mão.
Em Portugal a viola era instrumento bem conhecido desde o século XV, muito combatida pelos Procuradores dos Conselhos que reclamavam às cortes dizendo: "Ajuntam-se dez homens e levam uma viola, e enquanto tangem e cantam, os outros escalam as casas e roubam suas fazendas. O rei determinou que se alguém fosse achado com viola pela cidade ou lugar, depois das nove da noite até o amanhecer, desde que não houvesse festas, fosse preso e perdesse a viola, as armas e vestidos que trouxesse”.
A nossa viola veio de Portugal, sofrendo algumas modificações em sua anatomia, em número de cordas. Hoje temos como afirma em seu estudo intitulado "A viola cabocla", cinco tipos de violas de cordas de aço: a paulista, goiana, cuiabana, angrense e a nordestina.
Na mesma pesquisa por mim buscada, encontrei a informação de que a viola entrou nos palcos, nos auditórios, nas estações de rádio e de televisão, através do folclorista paulista Cornélio Pires e a ele deve-se a iniciativa de 1910, organizar um programa de violas no palco da cidade de Tietê. Após, um festival em São Paulo, no então Mackenzie College.
O avô materno de Virgílio Maynard, tropeiro que desde 1870 palmilhou as estradas do Rio Grande do Sul a São Paulo, contava que nunca vira seus peões e camaradas viajarem sem sua viola, quase sempre conduzida dentro de um saco, amarrada à garupa do seu animal. Não havia pouso que após a lida do dia, não tocassem antes de dormir, plangendo sua viola dolentemente.
Em nosso país surgiram  dois grandes focos da viola nas regiões Nordeste e Centro-Sul. Nesta última, principalmente em Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Ficando conhecida como "viola caipira", com diversas afinações, sendo as mais comuns "Cebolão, Boiadeira, Rio Abaixo e Guitarra", como afirma Roberto Nunes Corrêa. A viola, é sem dúvida nenhuma um instrumento especial, hoje altamente valorizada no mundo cultural, encontrando-se presente em grandes concertos.
Da pesquisa "Viola Tropeira", registro os violeiros Florêncio, Tião do Carro, Zé do Rancho, Julião, Laurípio Pedroso, Zé Coco do Riachão, Gedeão da Viola, Mazinho Quevedo, Bambico, Roberto Correia, Helena Meireles, Renato Teixeira, Tião Carreiro e Pardinho, Teddy Vieira, Lourival dos Santos, Sulino, Raul Torres, Piraci, Jacó, Serrinha, Zé Mulato e Cassiano, Téo Azevedo, Jorge Paulo, Almir Sater, Ivan Vilela, Elomar e Vital Farias.
Folcloricamente e como lenda, a viola que não recebe amor do violeiro, pode ficar doente, pois ela tem braço, costas, boca, orelhas, "cacunda", pestana, o que a identifica com o seu tocador. Viola boa tem galhinho de arruda no seu interior, guizo de cascavel para melhor dar voz as cordas e desviar o mau olhado e a inveja. Tocar viola é um dom de Deus para poucos. Violeiro fica contrariado quando um estranho toca em sua viola, pois pode destemperar e transmitir fluidos maléficos. Há violas que se "resfriam" quando guardadas encostadas em paredes. Se colocada dependurada a noite vai sentir frio, pois nos braços do violeiro, ela sente calor. Antes de guardar a viola deve se passar um pano sobre as cordas.
Violeiro que se preza não carrega viola debaixo do braço e sim na mão. "Viola é mulher e quem sai com ela na rua, anda de braço dado", mas ela também cura, matando a saudade, eliminando os males dos homens tristes.
Presto homenagem a Tião Carreiro, amigo, maestro, mestre, majestade, rei da viola. Sepultado no Cemitério da Lapa, em São Paulo, seu túmulo é frequentado no Dia de Finados por milhares de pessoas, tocando viola e cantando suas músicas, que chegam a quase 400, entre elas registro: “Rei do Gado”, “Ferreirinha”, “Boi Soberano”, “Travessia do Araguaia”, “Amargurado”, “A coisa ta feia”, “Pagode em Brasília”, “Rio de lágrimas”, “Cabelo loiro”, “Franguinho na panela”, “Mágoas de Carreiro”, “Chico Mulato”, “Mestre Carreiro”, “Chora Viola” e outras tantas.
Vou ao livro "Iluminuras do Signo", produzido pela Associação dos Magistrados do Estado de Goiás, com poesias exclusivas de Juízes de Direito, e encontro nas páginas 88/89, a declaração de amor pela viola, poema classificado no concurso, do maçom, ex-promotor de justiça e juiz de direito, membro da Loja "União de Canaã" de Goiânia, Barsanulfo Reis da Silva, assim inspirado, como o título de "Viola Consoladora":
"No braço desta viola, eu faço a terra tremer. Faço a noite virar dia, faço o dia escurecer. Com o toque da viola, ninguém pode entristecer. Esta viola de pinho, está sempre em meu caminho. É a razão do meu viver.
Viola consoladora. Aqui vai minha saudação. É o símbolo da alegria, na cidade e no sertão. Tem o som da natureza em qualquer ocasião. Ela sempre anima o povo. Traz alegria de novo para qualquer coração.
Eu olho no horizonte. Com o sol ainda raiando. Os pássaros com alegria, um hino vão entoando. Tudo parece uma orquestra com a natureza amando. Minha alma se consola. Com o toque da viola a festa vai completando.
Converso com a viola e ela fala comigo sempre me acompanhando. No lazer e no perigo é minha melhor amiga e eu seu melhor amigo. Nunca vamos nos separar. A viola eu vou levar até para meu jazigo.
Esta viola famosa é minha consolação. Não me deixa ficar só. Livra-me da solidão. Além de me alegrar, ela anima a multidão. Traz harmonia e amor acabando com a dor deste pobre coração.
Êta viola danada. Bichinho de estimação. Parece que suas cordas pulsam com meu coração. Você possui um encanto. Não é imaginação. Tem vida e tem alegria. Seu corpo é uma poesia que causa muito emoção".

*Barbosa Nunes, é Grão-Mestre Geral Adjunto do Grande Oriente do Brasil

Share on Google Plus

Editor Luiz Sergio Castro