Por Redação O Malhete
A relação entre a Maçonaria e as diferentes
tradições religiosas é marcada por uma longa história de aproximações,
divergências, incompreensões e, mais recentemente, pela busca de caminhos que
permitam uma convivência baseada no respeito e na liberdade de consciência.
O tema voltou a ser discutido recentemente em
artigo de Manuel Luiz Figueiroa, publicado pelo portal Só Sergipe, no qual o
autor analisa as razões históricas da oposição de algumas instituições
religiosas à Maçonaria e as possibilidades de construção de um diálogo no mundo
contemporâneo.
Uma história marcada por
divergências
A relação entre Maçonaria e religião nunca foi
uniforme. Algumas tradições religiosas estabeleceram restrições formais à
participação de seus fiéis em organizações maçônicas, enquanto outras não
possuem uma condenação institucional.
No cristianismo, a relação com a Maçonaria
ganhou especial complexidade. A Igreja Católica, por exemplo, mantém
historicamente uma posição de incompatibilidade entre a participação na
Maçonaria e a plena adesão à doutrina católica.
Essa posição foi construída ao longo de séculos
e está relacionada a questões como os juramentos maçônicos, o caráter reservado
de determinados rituais, a convivência entre pessoas de diferentes crenças e
divergências sobre autoridade, verdade religiosa e concepções filosóficas.
Também existem diferentes posicionamentos entre
as igrejas evangélicas. Enquanto algumas denominações desaconselham ou condenam
a participação de seus membros na Maçonaria, outras deixam a questão à
consciência individual.
Em outras tradições religiosas, como o
Espiritismo, o Judaísmo, o Hinduísmo, o Budismo e as religiões
afro-brasileiras, não existe uma proibição institucional universal à
participação de seus seguidores na Maçonaria.
A Maçonaria não pretende
substituir a religião
Um dos pontos fundamentais para compreender a
questão é a maneira como a própria Maçonaria se define.
A instituição tradicionalmente se apresenta
como uma organização iniciática, filosófica, fraternal e filantrópica, voltada
ao aperfeiçoamento moral do indivíduo e à prática da fraternidade.
Em muitas Obediências maçônicas convivem homens
pertencentes a diferentes tradições religiosas. A diversidade de crenças, nesse
contexto, não é necessariamente vista como obstáculo à fraternidade.
Liberdade de consciência, tolerância, respeito
às leis, solidariedade, beneficência e aperfeiçoamento moral estão entre os
valores frequentemente associados à tradição maçônica.
Isso permite compreender por que muitos maçons
consideram que a Maçonaria não deve ser entendida como uma religião concorrente
ou substituta das religiões tradicionais.
Fortalecimento ou confronto?
Uma questão particularmente interessante
levantada pelo artigo de Figueiroa diz respeito ao fortalecimento institucional
da Maçonaria.
Fortalecer a instituição pode ser positivo
quando significa ampliar sua atuação social, cultural, educacional, científica
e beneficente. Uma organização mais transparente e atuante pode contribuir de
maneira significativa para a sociedade.
Entretanto, transformar esse fortalecimento em
instrumento de enfrentamento às instituições religiosas seria contraproducente.
A história demonstra que conflitos prolongados
entre instituições raramente produzem resultados duradouros. O prestígio de uma
organização não deveria ser medido pela quantidade de adversários que consegue
enfrentar, mas pela qualidade das obras que realiza.
Liberdade religiosa: um
patrimônio de todos
Em uma sociedade democrática, a liberdade
religiosa precisa ser compreendida em sentido amplo.
Ela envolve tanto o direito de professar uma
determinada fé quanto o direito de não professá-la. Inclui também a liberdade
de participar de organizações filosóficas, culturais e associativas legalmente
constituídas.
Da mesma forma, instituições religiosas possuem
o direito de estabelecer, segundo suas próprias doutrinas, aquilo que
consideram compatível ou incompatível com a sua fé.
O ponto fundamental está em impedir que
divergências doutrinárias se transformem em perseguição, preconceito ou
hostilidade.
Discordar é legítimo. Desrespeitar não.
O que pode aproximar Maçonaria
e religiões?
Apesar das diferenças existentes, há uma
extensa área de valores comuns que pode servir como ponto de encontro.
A defesa da dignidade humana, a solidariedade,
a educação, a assistência aos necessitados, a promoção da paz, a defesa da
liberdade, a justiça e o respeito às instituições são preocupações que
ultrapassam fronteiras religiosas ou filosóficas.
É justamente nesse terreno que o diálogo pode
produzir resultados concretos.
Maçons e religiosos não precisam pensar da
mesma maneira para trabalhar juntos em projetos de interesse social. Campanhas
de solidariedade, ações educacionais, iniciativas culturais e atividades de
assistência podem reunir pessoas com diferentes convicções em torno de
objetivos comuns.
Conhecer para superar
preconceitos
Outro caminho importante é o conhecimento.
Grande parte das controvérsias históricas entre
Maçonaria e religião foi alimentada por desconhecimento, interpretações
equivocadas e informações distorcidas.
O diálogo acadêmico, histórico e cultural pode
ajudar a substituir preconceitos por conhecimento.
Isso não significa exigir que uma instituição
abandone suas convicções. Ao contrário: o diálogo verdadeiro pressupõe que cada
parte mantenha sua identidade, mas reconheça no outro o direito de possuir uma
visão diferente.
A tolerância, portanto, não significa
concordância absoluta. Significa reconhecer a dignidade daquele que pensa de
maneira diferente.
Uma ponte possível
No século XXI, talvez seja mais produtivo
perguntar o que Maçonaria e religiões podem fazer juntas pelo bem comum do que
insistir exclusivamente naquilo que as separa.
As divergências doutrinárias continuarão
existindo. A Igreja Católica continuará defendendo sua posição doutrinária,
assim como outras denominações religiosas manterão seus próprios entendimentos.
A Maçonaria, por sua vez, continuará afirmando sua natureza filosófica,
iniciática e fraternal.
Isso não precisa impedir uma convivência
respeitosa.
O desafio está em construir pontes sem apagar
diferenças; cooperar sem abandonar identidades; dialogar sem transformar o
diálogo em tentativa de conversão.
A sociedade contemporânea é plural. Nela
convivem diferentes religiões, filosofias, pensamentos e formas de compreender
o mundo.
Nesse cenário, a grandeza de uma instituição
não está apenas na capacidade de defender suas próprias convicções, mas também
na capacidade de respeitar a consciência alheia.
Talvez esse seja um dos mais importantes
ensinamentos que a Maçonaria e as religiões possam oferecer ao mundo: é
possível permanecer firme em seus princípios sem transformar a diferença em
inimigo.
Quando a convicção caminha ao lado do respeito,
a divergência deixa de ser uma barreira absoluta e pode transformar-se em
oportunidade de aprendizado, cooperação e crescimento humano.
Fonte e crédito: Artigo de Manuel Luiz
Figueiroa, intitulado “Maçonaria e Religião: entre a divergência histórica e
a construção do diálogo”, publicado originalmente no portal Só Sergipe, em
6 de setembro de 2026, na coluna Domingo em Desbaste. O texto acima é
uma adaptação editorial original para O Malhete, baseada nas ideias e
informações apresentadas pelo autor.
Sobre o autor: Manuel Luiz Figueiroa é
apresentado pelo Só Sergipe como professor, mestre maçom da Loja Maçônica
Clodomir Silva e secretário de Educação e Cultura do GOB-SE
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