Fraternidade: Quando a Palavra Que Deveria Unir Também Pode Separar


Por Luiz Sérgio de Freitas Castro

Há palavras que atravessam os séculos carregando consigo uma força quase sagrada. “Fraternidade” é uma delas.

Na Maçonaria, poucas palavras possuem significado tão profundo. Chamar alguém de Irmão não é apenas uma forma de tratamento. É afirmar a existência de um vínculo que ultrapassa diferenças sociais, econômicas, culturais, religiosas e políticas. É reconhecer no outro alguém que participa de uma mesma caminhada em busca do aperfeiçoamento humano.

Mas a fraternidade possui também um lado menos luminoso. É justamente essa ambiguidade que torna o tema tão interessante — e tão atual.

Um estudo do professor francês Alexandre de Vitry, publicado em 2023 pelo Le Grand Continent, percorre a história da ideia de fraternidade e mostra como ela, ao longo dos séculos, foi simultaneamente instrumento de aproximação e mecanismo de exclusão. O autor é também responsável pelo livro Le droit de choisir ses frères ? Une histoire de la fraternité, publicado pela Gallimard.

A fraternidade nasceu maior que a própria família

Uma das observações mais interessantes apresentadas por De Vitry está na própria história da palavra.

A antiga raiz indo-europeia associada a “irmão” não estaria originalmente limitada ao parentesco biológico. Ela poderia designar vínculos mais amplos dentro de um grupo, comunidade ou círculo espiritual. Somente posteriormente determinados termos passaram a distinguir o irmão de sangue de outras formas de pertencimento.

Isso nos ajuda a compreender algo importante: a fraternidade sempre foi, em alguma medida, uma metáfora para transformar pessoas diferentes em membros de uma mesma comunidade.

O cristianismo ampliou extraordinariamente essa ideia. O “irmão” deixou de ser necessariamente aquele ligado pelo sangue e passou a ser também aquele unido pela fé. A fraternidade cristã podia abranger a comunidade inteira dos fiéis e, simultaneamente, assumir formas mais restritas dentro das comunidades religiosas.

Desde então, aparece uma tensão que acompanhará a história da palavra: quanto mais ampla é a fraternidade, maior é sua vocação universal; quanto mais restrita é, maior pode ser a força do vínculo interno — mas também a possibilidade de excluir quem está do lado de fora.

Da fraternidade universal ao conflito

A Revolução Francesa transformou profundamente o significado político da fraternidade. Ela passou a representar a esperança de superar divisões entre classes, grupos sociais, religiões e povos.

Entretanto, a experiência revolucionária revelou uma contradição dramática.

Aquele que era considerado “irmão” podia deixar de sê-lo quando passava a ser visto como inimigo da revolução. A fraternidade entre os membros de um grupo podia, portanto, fortalecer-se justamente diante da existência de um adversário externo.

O resultado foi paradoxal: uma ideia concebida como universal poderia contribuir para a criação de fronteiras entre “nós” e “eles”. O estudo de De Vitry destaca justamente essa relação histórica entre fraternidade, conflito e violência política. (

Em 1848, a contradição voltou a aparecer de maneira dramática. A fraternidade tornou-se um dos grandes símbolos da República francesa e foi incorporada à famosa divisa “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Porém, os conflitos sociais daquele período demonstraram como a fraternidade proclamada politicamente podia conviver com confrontos violentos entre grupos que, pouco antes, haviam se chamado de irmãos. (E o que isso tem a ver com a Maçonaria?

Muito.

A Maçonaria é uma das instituições modernas em que a palavra “fraternidade” adquiriu um significado particularmente forte. O tratamento entre seus membros como Irmãos expressa uma concepção de igualdade e solidariedade que procura ultrapassar as diferenças existentes no mundo profano.

Historicamente, as práticas maçônicas fazem parte de uma tradição mais ampla de sociabilidades fraternas que também envolveu companheiros de ofício, associações, grupos religiosos, círculos intelectuais e organizações políticas. O próprio estudo de De Vitry menciona a Maçonaria entre as formas históricas de sociabilidade que procuraram concretizar a fraternidade.

Entretanto, existe aqui uma questão que merece reflexão.

Ser Irmão não deveria significar apenas pertencer a um grupo de iguais. Deveria significar aprender a reconhecer a humanidade daquele que ainda não faz parte do nosso grupo.

Essa diferença é fundamental.

Uma fraternidade que se limita a proteger os seus pode transformar-se em corporativismo. Uma fraternidade que exige unanimidade pode transformar-se em conformismo. Uma fraternidade que identifica todos os que pensam diferente como inimigos perde sua dimensão iniciática.

A verdadeira fraternidade talvez seja aquela capaz de preservar a identidade do grupo sem transformar o diferente em inimigo.

O perigo do “nós contra eles”

Toda comunidade humana precisa estabelecer algum tipo de vínculo interno. A Maçonaria não é diferente.

O problema começa quando o sentimento de pertencimento se transforma em superioridade.

É possível criar uma fraternidade tão fechada que o mundo exterior passe a ser visto com desconfiança. O “Irmão” deixa de ser simplesmente alguém a quem devemos respeito e passa a ser alguém que merece nossa lealdade independentemente de seus atos.

Esse é um perigo que nenhuma instituição está completamente livre de enfrentar.

A fraternidade não pode significar cumplicidade.

Ser Irmão não significa concordar com tudo o que outro Irmão faz. Pelo contrário: às vezes, a maior demonstração de fraternidade consiste em advertir, orientar e dizer aquilo que precisa ser dito.

A fraternidade madura não elimina a responsabilidade individual.

Liberdade, igualdade e fraternidade

A presença da fraternidade ao lado da liberdade e da igualdade também merece atenção.

A liberdade sem fraternidade pode transformar-se em individualismo.

A igualdade sem fraternidade pode transformar-se em mera regra jurídica.

E a fraternidade sem liberdade pode transformar-se em submissão ao grupo.

Por isso, as três ideias precisam permanecer em equilíbrio.

A liberdade lembra que cada ser humano possui autonomia e consciência próprias.

A igualdade recorda que nenhum homem deve ser considerado superior simplesmente por sua posição social.

E a fraternidade acrescenta uma dimensão que as outras duas não conseguem produzir sozinhas: o compromisso com o outro.

Não basta reconhecer que o outro é livre e igual. É necessário também agir como se sua dignidade nos dissesse respeito.

A lição para o maçom

Talvez essa seja uma das grandes lições que podemos extrair da reflexão sobre a história da fraternidade.

O maçom não deveria perguntar apenas:

“Quem são os meus Irmãos?”

Deveria perguntar também:

“Como trato aqueles que ainda não reconheço como Irmãos?”

É relativamente fácil praticar fraternidade dentro de uma Loja quando todos compartilham símbolos, rituais e compromissos semelhantes.

O verdadeiro teste começa fora dela.

Está na maneira como tratamos o adversário político, o desconhecido, o diferente, o crítico, o desafeto e até aquele que pensa de maneira completamente oposta à nossa.

A fraternidade maçônica não deveria terminar na porta do Templo.

Uma fraternidade sem exclusão

A reflexão proposta por Alexandre de Vitry mostra que a fraternidade é uma ideia muito mais complexa do que parece. Ao longo da história, ela foi promessa de união, instrumento político, ideal religioso, experiência literária, vínculo de combate e também justificativa para separar “irmãos” de “não irmãos”.

Essa ambiguidade não precisa condenar a fraternidade.

Pode, ao contrário, ensinar-nos a praticá-la melhor.

A Maçonaria possui uma oportunidade especial nesse campo. Ao proclamar a fraternidade como princípio, ela pode ajudar a transformar a palavra em comportamento: ouvir antes de julgar, respeitar antes de condenar, ajudar sem esperar recompensa e discordar sem transformar a divergência em inimizade.

No fundo, fraternidade não deveria ser simplesmente a capacidade de reconhecer alguém como irmão.

Talvez seja algo mais difícil:

aprender a agir fraternalmente mesmo quando o outro ainda não nos reconhece como irmão.

Essa talvez seja a passagem da fraternidade de grupo para a fraternidade verdadeiramente universal.

E é justamente nesse ponto que a antiga palavra recupera sua força.

Não como um simples tratamento ritual.

Não como uma palavra repetida mecanicamente.

Mas como um compromisso permanente com a dignidade humana.

Fonte de inspiração: Alexandre de Vitry, “Sois mon frère ou je te tue : ombres et lumières de la fraternité”, Le Grand Continent, 19 de abril de 2023. O texto original apresenta uma síntese das ideias desenvolvidas pelo autor em Le droit de choisir ses frères ? Une histoire de la fraternité, publicado pela Gallimard. (Le Grand Continent)

Para leitura do artigo original: Le Grand Continent — “Sois mon frère ou je te tue”

 


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