Da Redação
Há
um momento na caminhada maçônica em que muitos Irmãos enfrentam uma prova tão
importante quanto a própria iniciação. Geralmente, ela surge após dois ou três
anos de frequência regular à Loja. Nesse período, o maçom já decorou boa parte
do ritual, conhece a dinâmica das sessões, participou de comissões, exerceu
algum cargo e adquiriu certa familiaridade com os símbolos e com os costumes da
Ordem.
É
exatamente nessa fase que pode surgir uma ilusão silenciosa e perigosa: a
sensação de que já compreendeu tudo o que havia para aprender.
O
Aprendiz que, há pouco tempo, observava atentamente cada detalhe e ouvia com
respeito os Irmãos mais experientes, pode transformar-se no rigoroso fiscal da
tradição. Passa a corrigir publicamente o recém-iniciado, demonstra impaciência
diante de pequenos equívocos ritualísticos e faz questão de lembrar aos demais
como as coisas "deveriam" ser feitas.
Embora
essa postura costume nascer do desejo sincero de preservar a tradição, ela pode
produzir o efeito contrário ao esperado. Em vez de fortalecer a fraternidade,
cria constrangimentos; em vez de incentivar o aprendizado, gera insegurança; em
vez de ensinar, acaba afastando.
A
Maçonaria nunca pretendeu formar homens que apenas decoram rituais. Seu
propósito é muito mais profundo: moldar o caráter, desenvolver a capacidade de
reflexão e cultivar virtudes que possam ser aplicadas tanto dentro quanto fora
do Templo.
Conhecer
perfeitamente uma cerimônia não significa compreender plenamente seu
significado.
Da
mesma forma, ocupar um cargo não transforma ninguém em autoridade absoluta. A
função representa uma responsabilidade de servir à Loja e aos Irmãos, jamais um
privilégio ou um pedestal. Um diploma, um avental ou uma joia são símbolos de
compromisso, não certificados definitivos de sabedoria.
A
antiguidade maçônica, por sua vez, merece respeito, mas nunca pode servir como
justificativa para a arrogância. Os anos de convivência na Ordem somente
adquirem verdadeiro valor quando são acompanhados de crescimento moral e
espiritual.
A
correção fraterna continua sendo indispensável dentro da Instituição. Afinal,
preservar a regularidade dos trabalhos e transmitir corretamente a tradição são
deveres de todos. Entretanto, existe uma enorme diferença entre orientar e
humilhar.
Uma
observação feita com delicadeza, no momento oportuno e, sempre que possível, em
particular, demonstra respeito pelo Irmão e fortalece os laços de confiança. Já
uma repreensão pública, motivada mais pelo desejo de exibir conhecimento do que
de ensinar, raramente produz bons frutos.
O
verdadeiro mestre não procura mostrar que sabe mais. Procura fazer com que o
outro aprenda melhor.
Essa
diferença parece pequena, mas revela toda a essência da pedagogia maçônica.
Curiosamente,
quanto mais um Irmão estuda a filosofia, a história e o simbolismo da Ordem,
mais percebe a vastidão do conhecimento que ainda lhe falta. Cada símbolo
possui múltiplas interpretações. Cada ritual pode revelar novos significados à
medida que amadurecemos. Cada sessão oferece oportunidades inéditas de
reflexão.
É
por isso que os maçons verdadeiramente sábios costumam ser também os mais
humildes.
Eles
compreendem que a busca pela Verdade nunca termina. Sabem que nenhum livro
encerra todo o conhecimento, nenhuma função representa o ponto final da
caminhada e nenhuma iniciação elimina a necessidade permanente de aprender.
A
própria estrutura da Maçonaria ensina essa lição. O aperfeiçoamento é contínuo.
Cada grau amplia horizontes, mas também revela novas perguntas. Quanto mais se
sobe na escada do conhecimento, maior parece o caminho ainda por percorrer.
Talvez
essa seja uma das maiores lições da Ordem.
Após
dois ou três anos, um maçom pode acreditar sinceramente que compreendeu quase
tudo sobre a Instituição. Depois de vinte, trinta ou quarenta anos de vivência,
muitos descobrem exatamente o contrário: percebem que continuam sendo
aprendizes diante da imensidão dos mistérios, da filosofia e, principalmente,
da complexidade da própria natureza humana.
Essa
consciência não representa fracasso. Pelo contrário, constitui uma das maiores
conquistas da vida maçônica.
Ser
um eterno aprendiz significa conservar a mente aberta, ouvir antes de falar,
ensinar sem humilhar, corrigir sem ofender e reconhecer que sempre haverá algo
novo a descobrir.
A
humildade não diminui o conhecimento; ela o torna mais útil. A fraternidade não
enfraquece a disciplina; ela lhe confere sentido. E o verdadeiro progresso não
consiste em demonstrar quanto sabemos, mas em perceber, a cada novo dia, quanto
ainda podemos aprender.
No
fim das contas, talvez o maior sinal de maturidade maçônica seja justamente
este: deixar de querer parecer sábio para dedicar-se, silenciosamente, a
tornar-se um homem melhor.
Porque,
na Maçonaria, o verdadeiro iniciado jamais deixa de ser, em essência, um eterno
aprendiz.

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