Escolas Filosóficas e Influências na Maçonaria: A Socrática, a Platônica e a Aristotélica (II)


Irmão José Ronaldo Viega Alves
Or.·. de Sant’Ana do Livramento – RS.

Conhece-te a ti mesmo”. (Sócrates)

O ato virtuoso tem breve duração, mas a virtude permanece uma realidade fixa e um instrumento para o pensamento”. (Platão)

A verdade está no mundo à nossa volta”. (Aristóteles)

INTRODUÇÃO

Dando prosseguimento à série de artigos que tem por objetivo montar um panorama geral sobre as escolas filosóficas que influenciaram a Maçonaria, veremos durante o desenvolvimento desse trabalho, três outros importantes pilares filosóficos sobre os quais se assenta parte da doutrina da Maçonaria, assim como, as respectivas biografias de cada um dos mentores dessas escolas de pensamento.

O artigo inaugural e anterior tinha como foco o Pitagorismo ou como ficou conhecida a doutrina do filósofo grego Pitágoras, o qual se inclui no período da filosofia grega denominado de pré-socrático (Séc. VII e VI a.C.), período esse onde os filósofos ocuparam-se fundamentalmente com as questões de ordem cosmológica, além de haverem iniciado a distinção entre o que era mesmo a filosofia e o que era o pensamento mítico.  

No presente artigo veremos mais três escolas, todas importantes e pródigas em matéria de influências: a socrática, a platônica e a aristotélica.

Os três filósofos, Sócrates, Platão e Aristóteles, os criadores dessas escolas, estão inseridos no período da filosofia grega chamado Socrático ou Clássico. (Séc. V e VI a.C.)

Assim, reiteramos o nosso objetivo principal:  uma exposição que visa obtermos aqui um pouco da essência do pensamento de cada um desses filósofos e da contribuição de cada uma das suas escolas, assim como, na medida do possível, evidenciar em que partes suas respectivas doutrinas se encaixam no âmbito dos ensinamentos maçônicos. E pelo fato de ser um tema muito vasto, é de se reforçar o seguinte também: tudo aquilo que for apresentado não esgota quaisquer das possibilidades de descobertas do leitor Maçom em sua busca, de encontrar outros enquadramentos ou outras interpretações relativas ao seu Grau específico.

OS FILÓSOFOS E SUAS ESCOLAS

 Evidentemente, buscando facilitar uma melhor compreensão deste trabalho foram pinçadas muitas das ideias, conceitos, passagens, fragmentos e opiniões de estudiosos maçons no tocante às obras e aos seus autores, para que fiquem patentes as ligações que poderão ser encontradas num paralelo com os ensinamentos contidos na doutrina maçônica, conforme já mencionado anteriormente.

SÓCRATES (469-399 a.C.)

Natural de Atenas. No começo das suas atividades como filósofo esteve do lado dos sofistas (filósofos pragmáticos e muito céticos que haviam abandonado a busca pela verdade absoluta) para depois se transformar em opositor deles. Sócrates combateu o erro e o engano, pois, Sócrates buscou, sobretudo, a verdade. Uma das suas características marcantes foi o misticismo, tanto que nutriu ao longo da sua vida extremo interesse pelas grandes realidades espirituais. Sócrates foi acusado de impiedade porque falava de uma religião não animista, mas, espiritual.

Pendendo para o monoteísmo, o que na época era uma heresia, além de ser acusado de corromper a juventude, por essas e outras foi condenado a beber cicuta, o veneno que pôs fim à sua vida.

 No âmbito das suas muitas ideias filosóficas: definia o homem como sendo fundamentalmente um ser moral, que o ensino da virtude somente leva ao bem e que sendo assim, o homem consciente do que é o bem em sua plenitude jamais cairá na senda do mal. (Battal, págs. 101 e 102, 1990)

Defendia a ideia também de que a educação faria os homens melhores, que os homens instruídos, portanto, serão melhores, o que, convenhamos, está muito próximo dos objetivos da Maçonaria, até porque, complementando o seu pensamento, achava que é com homens de qualidade que se formam sociedades de qualidade.   

Sócrates foi um filósofo que procurou aprofundar-se bastante no estudo da Ética, da Política, do autoconhecimento, na natureza da alma humana, entre outros temas, sendo que, também criou muitos conceitos e métodos novos, a exemplo da Maiêutica(1). Na opinião de muitas das suas ideias revolucionaram a filosofia.

 A relação do Primeiro Grau com a Filosofia Socrática

O Irmão Raimundo Rodrigues, nosso maior estudioso sobre Filosofia e Maçonaria, comenta sobre Sócrates numa relação direta com o Primeiro Grau da Maçonaria Simbólica:

O Primeiro Grau se estereotipa no “conhece-te a ti mesmo”, divisa escolhida por Sócrates como alicerce de sua pregação filosófica. O grande filósofo nos ensina que se quisermos crescer moral e espiritualmente devemos procurar, antes de tudo, conhecer-nos a nós mesmos. Ao lado desse esforço, Sócrates nos alerta para algo muito importante: é preciso aprender a pensar.”

Ainda: o Irmão Raimundo Rodrigues faz referência a outro princípio adotado por Sócrates, o da luta do EU contra o EGO, sendo que esta luta travada bem no íntimo é crucial para quem está disposto a desbastar a pedra Bruta.

No “Vade-Mécum Maçônico” de autoria do Ir.’. João Ivo Girardi, no verbete relativo a Sócrates há uma passagem que diz assim:

“Nas lições maçônicas os conceitos socráticos são repetidos ainda hoje, pois, o itinerário traçado por Sócrates é diuturnamente percorrido pelos maçons que não esgotaram a ciência da moral.” (Girardi, 2008, pág. 579)

O método que foi citado logo acima e que foi criado por Sócrates de nome Maiêutica, funciona assim: era feita uma pergunta, e sobre a resposta era feita outra pergunta... Isso feito de maneira sucessiva, tinha o objetivo claro de se chegar o mais perto possível da verdade. Para uns, Sócrates é considerado o iniciador do método científico.

PLATÃO (427-347 a.C.)

O filósofo Platão foi discípulo de Sócrates.  A escola de filosofia fundada por ele estava situada em um bosque que tinha o nome do herói grego Academos, daí a sua escola ganhar o nome de Academia, de onde provém o termo “disciplina acadêmica”.

Na Academia as principais matérias de estudo eram a aritmética, geometria, astronomia e filosofia. Com isso já podemos adiantar que os ensinamentos platônicos estão mais afetos ao contexto maçônico do 2º Grau ou Grau de Companheiro Maçom.

Mas, as ideias desse filósofo notável vão muito além. Imaginem que há mais de dois mil anos atrás Platão já defendia a ideia de um Estado ideal, o que consistia num Estado que fosse responsável pela educação infantil, defendendo a criação de jardins de infância e semi-internatos públicos. Também era adepto da ideia de que o Estado deveria formar e educar as mulheres.

O Irmão Raimundo Rodrigues escreveu sobre a utilidade da filosofia de Platão no Grau de Companheiro dizendo assim:

“De Platão, o Companheiro herdou a Realidade Ideal. Platão baseou a sua filosofia no quaternário – sabedoria, fortaleza, temperança e justiça – que, eticamente, devem ser o apanágio do Companheiro maçom.” (Rodrigues, pág. 148, 2003)

A alegoria da caverna de Platão e os seus desdobramentos no pensamento maçônico

Quem ainda não ouviu ou leu algo sobre a alegoria da caverna de Platão? Este tema faz parte da obra “A República”, de Platão. Vejamos na sequência uma síntese do que se trata:

—Imaginemos um grupo de pessoas no interior de uma caverna subterrânea, sendo que elas estão acorrentadas e de costas para a entrada principal por onde entra um pouco de luz, sendo que, tudo o que podem ver é uma outra parede da caverna, a que está à frente deles.

—O que é dado a enxergar a estas pessoas que estão presas ali, não vai além das sombras bruxuleantes projetadas nessa parede em frente. Como eles estão ali desde quando nasceram, elas acham que aquelas sombras e suas formas são tudo o que existe.

—Chega um dia em que uma dessas pessoas consegue se libertar das suas correntes e se dirigir à saída. Por um tempo, a claridade ofusca totalmente a sua visão, até que, aos poucos, vai podendo retomá-la para poder contemplar a natureza, a profusão das cores, as flores, os animais, o sol, etc. Sentirá também, pela primeira vez, uma sensação indescritível da liberdade...

—Mas, depois de um tempo, começa a pensar naqueles que ficaram lá dentro da caverna, até que decide voltar. Quando encontra os que lá havia deixado, tenta descrever o que viu lá fora, ao mesmo tempo em que procura explicar que aquilo que eles estão vendo ali são meras imitações, reflexos da realidade. Mas, as pessoas não acreditam, pois, para eles, aquilo é mesmo tudo o que existe...

COMENTÁRIOS:

Imaginemos agora o que essa alegoria pode provocar em nosso íntimo: novas inquietações filosóficas, analogias, interpretações, enfim, questionamentos sobre a própria liberdade ou se somos livres de verdade, sobre o estar preso a conceitos ultrapassados, sobre a verdade da vida, sobre os caminhos do filósofo, sobre o conhecimento e a verdadeira luz, sobre os mistérios do universo, sobre o que nos é dado a conhecer e o que está oculto e, muito mais. E considerar que, tudo isso que acaba de ser citado pode ser analisado sob a ótica maçônica, ou em outras palavras, tudo de certa forma está relacionado direta e indiretamente ao Maçom.    

ARISTÓTELES (384-322 a.C.)

Filósofo grego nascido em Estagira, na Macedônia. Cedo ingressou na Academia de Platão e com o tempo se converteu no mais brilhante dos alunos, tanto que Platão deu-lhe o apodo de “o intelecto”. Depois de deixar a Academia foi ser tutor de Alexandre, o Grande, filho do rei da Macedônia. Após o seu regresso para Atenas em aproximadamente 335 a.C., fundou o seu Liceu, onde funcionou a escola Peripatética.

De acordo com o Prof. Mussa Battal, Aristóteles é considerado o pai das ciências e o maior dos enciclopedistas, eis que, abrangeu todo o saber humano. Ele escreveu sobre a filosofia de maneira geral.

Sua escola era denominada peripatética, porque aplicava os ensinamentos enquanto passeava com seus discípulos.

Vejamos o que o Irmão Kennyo Ismail escreveu sobre a influência de Aristóteles na Maçonaria, primeiramente se referindo ao método que é chamado de “dialética aristotélica”:

“trata-se de método de diálogo baseado na contradição de ideias iniciais com objetivo de esclarecimento e geração de novas conclusões.  Sua estrutura é baseada na tese, antítese e síntese. A tese é uma afirmação inicial, a antítese, que é uma nova tese, porém mais correta. Os Rituais maçônicos e até suas instruções foram construídos com base no diálogo e na dialética aristotélica.” (Ismail, pág. 77, 2016)

E mais um outro comentário: 

“Virtudes e Vícios: o termo maçônico ‘Levantar Templos à Virtude e Cavar Masmorras ao Vício’ reflete os conceitos da ética aristotélica, defendidas na obra ‘Ética a Nicômaco’. Quando os Rituais Maçônicos tratam do combate à ignorância, à intolerância, aos preconceitos e o fanatismo, trata-se de vícios opostos das virtudes chamadas por Aristóteles de ‘virtudes intelectuais’ que seriam superiores às ‘virtudes morais’, pois são adquiridas pelo ensino e baseadas na razão. Da mesma forma, o termo ‘vencer minhas paixões’ refere-se ao raciocínio de Aristóteles de que mesmo uma virtude moral, se refém das paixões, tende à deficiência ou ao excesso, tornando-se assim um vício.”  (Ismail, pág. 78, 2016)

Na filosofia de Aristóteles há uma valorização do pensamento lógico e racional, portanto, pela ciência, o que nos faz pensar na importância do estudo das Sete Artes Liberais que constam no Grau de Companheiro Maçom.

COMENTÁRIOS FINAIS:

A Filosofia teve o seu início na Grécia. O estudo da Filosofia, resumido e exemplificado em pontos essenciais dos ensinamentos emanados das doutrinas dos filósofos gregos clássicos aqui abordados, além de constituírem alguns dos pilares básicos da nossa Instituição, são de fundamental utilidade para a formação do Maçom, eis que a busca que escolhemos empreender e os objetivos que estamos dispostos a cumprir dependem em muito da nossa absorção e prática das virtudes, objeto de estudo de todos eles. O aproveitamento que fizermos da filosofia de Sócrates e dos seus discípulos Platão e Aristóteles, consubstanciadas no “conhece-te a ti mesmo”, na maiêutica, na dialética, na Lógica, nas lições advindas da alegoria da caverna, interpretando esses e outros tantos tópicos que são parte das escolas desses três renomados filósofos são importantes ferramentas para o nosso desenvolvimento moral e intelectual, onde o objetivo maior a ser destacado é mesmo o desbastar da pedra bruta.

NOTAS:

Maiêutica(1): O filósofo Sócrates criou a Maiêutica. Através deste método ele procurava dentro do Homem a verdade. A sua frase “Conhece-te a ti mesmo”, dá início à jornada interior da Humanidade, a busca do caminho que vai guiar o homem para a prática das virtudes morais. Por intermédio de questões simples, inseridas dentro de um contexto determinado, a Maiêutica usa de conceitos básicos para chegar às ideias mais complexas. (fonte: Google)

CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:

Internet:

“Maiêutica” – disponível em:

https://www.infoescola.com/filosofia/maieutica/

“Os Primeiros Filósofos e a Busca do Princípio de Todas as Coisas” – Artigo de autoria de Elaine Barbosa - Disponível em: parquedaciencia.blogspot.com.br

Livros:

BATTAL, Moisés Mussa. “Lições de Filosofia Geral e Maçônica” – Editora A Gazeta Maçônica – 1990

CADERNO DE PESQUISAS MAÇÔNICAS 20 – “Os Graus Simbólicos e Sua Filosofia“ - Artigo de autoria do Irmão Raimundo Rodrigues – Editora Maçônica “a Trolha” Ltda. 1ª Edição - 2003

CHAMPLIN, R.N. “Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia” - Hagnos Editora - Volumes I e VI -  9ª Edição – 2008

GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à meia-Noite Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda – 2ª Edição – 2008

ISMAIL, Kennyo. “Debatendo Tabus Maçônicos” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. - 1ª Edição - 2016

 




 


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