“Conhece-te
a ti mesmo”. (Sócrates)
“O
ato virtuoso tem breve duração, mas a virtude permanece uma realidade fixa e um
instrumento para o pensamento”. (Platão)
“A
verdade está no mundo à nossa volta”. (Aristóteles)
INTRODUÇÃO
Dando
prosseguimento à série de artigos que tem por objetivo montar um panorama geral
sobre as escolas filosóficas que influenciaram a Maçonaria, veremos durante o
desenvolvimento desse trabalho, três outros importantes pilares filosóficos
sobre os quais se assenta parte da doutrina da Maçonaria, assim como, as
respectivas biografias de cada um dos mentores dessas escolas de pensamento.
O
artigo inaugural e anterior tinha como foco o Pitagorismo ou como ficou
conhecida a doutrina do filósofo grego Pitágoras, o qual se inclui no período
da filosofia grega denominado de pré-socrático (Séc. VII e VI a.C.), período
esse onde os filósofos ocuparam-se fundamentalmente com as questões de ordem
cosmológica, além de haverem iniciado a distinção entre o que era mesmo a filosofia
e o que era o pensamento mítico.
No
presente artigo veremos mais três escolas, todas importantes e pródigas em
matéria de influências: a socrática, a platônica e a aristotélica.
Os
três filósofos, Sócrates, Platão e Aristóteles, os criadores dessas escolas, estão
inseridos no período da filosofia grega chamado Socrático ou Clássico. (Séc. V
e VI a.C.)
Assim,
reiteramos o nosso objetivo principal:
uma exposição que visa obtermos aqui um pouco da essência do pensamento de
cada um desses filósofos e da contribuição de cada uma das suas escolas, assim
como, na medida do possível, evidenciar em que partes suas respectivas doutrinas
se encaixam no âmbito dos ensinamentos maçônicos. E pelo fato de ser um tema
muito vasto, é de se reforçar o seguinte também: tudo aquilo que for
apresentado não esgota quaisquer das possibilidades de descobertas do leitor
Maçom em sua busca, de encontrar outros enquadramentos ou outras interpretações
relativas ao seu Grau específico.
OS
FILÓSOFOS E SUAS ESCOLAS
Evidentemente, buscando facilitar uma melhor
compreensão deste trabalho foram pinçadas muitas das ideias, conceitos,
passagens, fragmentos e opiniões de estudiosos maçons no tocante às obras e aos
seus autores, para que fiquem patentes as ligações que poderão ser encontradas num
paralelo com os ensinamentos contidos na doutrina maçônica, conforme já
mencionado anteriormente.
SÓCRATES
(469-399 a.C.)
Natural
de Atenas. No começo das suas atividades como filósofo esteve do lado dos
sofistas (filósofos pragmáticos e muito céticos que haviam abandonado a busca
pela verdade absoluta) para depois se transformar em opositor deles. Sócrates
combateu o erro e o engano, pois, Sócrates buscou, sobretudo, a verdade. Uma
das suas características marcantes foi o misticismo, tanto que nutriu ao longo
da sua vida extremo interesse pelas grandes realidades espirituais. Sócrates
foi acusado de impiedade porque falava de uma religião não animista, mas,
espiritual.
Pendendo
para o monoteísmo, o que na época era uma heresia, além de ser acusado de
corromper a juventude, por essas e outras foi condenado a beber cicuta, o
veneno que pôs fim à sua vida.
No âmbito das suas muitas ideias filosóficas:
definia o homem como sendo fundamentalmente um ser moral, que o ensino da
virtude somente leva ao bem e que sendo assim, o homem consciente do que é o
bem em sua plenitude jamais cairá na senda do mal. (Battal, págs. 101 e 102,
1990)
Defendia
a ideia também de que a educação faria os homens melhores, que os homens
instruídos, portanto, serão melhores, o que, convenhamos, está muito próximo
dos objetivos da Maçonaria, até porque, complementando o seu pensamento, achava
que é com homens de qualidade que se formam sociedades de qualidade.
Sócrates
foi um filósofo que procurou aprofundar-se bastante no estudo da Ética, da
Política, do autoconhecimento, na natureza da alma humana, entre outros temas, sendo
que, também criou muitos conceitos e métodos novos, a exemplo da Maiêutica(1). Na opinião de muitas das suas ideias revolucionaram
a filosofia.
A relação do Primeiro Grau com a Filosofia
Socrática
O
Irmão Raimundo Rodrigues, nosso maior estudioso sobre Filosofia e Maçonaria,
comenta sobre Sócrates numa relação direta com o Primeiro Grau da Maçonaria
Simbólica:
“O Primeiro Grau se estereotipa no
“conhece-te a ti mesmo”, divisa escolhida por Sócrates como alicerce de sua
pregação filosófica. O grande filósofo nos ensina que se quisermos crescer
moral e espiritualmente devemos procurar, antes de tudo, conhecer-nos a nós
mesmos. Ao lado desse esforço, Sócrates nos alerta para algo muito importante:
é preciso aprender a pensar.”
Ainda:
o Irmão Raimundo Rodrigues faz referência a outro princípio adotado por
Sócrates, o da luta do EU contra o EGO, sendo que esta luta travada bem no
íntimo é crucial para quem está disposto a desbastar a pedra Bruta.
No
“Vade-Mécum Maçônico” de autoria do Ir.’. João Ivo Girardi, no verbete relativo
a Sócrates há uma passagem que diz assim:
“Nas
lições maçônicas os conceitos socráticos são repetidos ainda hoje, pois, o
itinerário traçado por Sócrates é diuturnamente percorrido pelos maçons que não
esgotaram a ciência da moral.” (Girardi, 2008, pág. 579)
O
método que foi citado logo acima e que foi criado por Sócrates de nome
Maiêutica, funciona assim: era feita uma pergunta, e sobre a resposta era feita
outra pergunta... Isso feito de maneira sucessiva, tinha o objetivo claro de se
chegar o mais perto possível da verdade. Para uns, Sócrates é considerado o
iniciador do método científico.
PLATÃO
(427-347 a.C.)
O
filósofo Platão foi discípulo de Sócrates.
A escola de filosofia fundada por ele estava situada em um bosque que
tinha o nome do herói grego Academos, daí a sua escola ganhar o nome de
Academia, de onde provém o termo “disciplina acadêmica”.
Na
Academia as principais matérias de estudo eram a aritmética, geometria,
astronomia e filosofia. Com isso já podemos adiantar que os ensinamentos
platônicos estão mais afetos ao contexto maçônico do 2º Grau ou Grau de Companheiro
Maçom.
Mas,
as ideias desse filósofo notável vão muito além. Imaginem que há mais de dois
mil anos atrás Platão já defendia a ideia de um Estado ideal, o que consistia num
Estado que fosse responsável pela educação infantil, defendendo a criação de
jardins de infância e semi-internatos públicos. Também era adepto da ideia de
que o Estado deveria formar e educar as mulheres.
O
Irmão Raimundo Rodrigues escreveu sobre a utilidade da filosofia de Platão no
Grau de Companheiro dizendo assim:
“De Platão, o Companheiro herdou a Realidade
Ideal. Platão baseou a sua filosofia no quaternário – sabedoria, fortaleza,
temperança e justiça – que, eticamente, devem ser o apanágio do Companheiro
maçom.” (Rodrigues, pág. 148, 2003)
A
alegoria da caverna de Platão e os seus desdobramentos no pensamento maçônico
Quem ainda não ouviu ou leu algo sobre a alegoria da
caverna de Platão? Este tema faz parte da obra
“A República”, de Platão. Vejamos na sequência uma síntese do que se trata:
—Imaginemos
um grupo de pessoas no interior de uma caverna subterrânea, sendo que elas
estão acorrentadas e de costas para a entrada principal por onde entra um pouco
de luz, sendo que, tudo o que podem ver é uma outra parede da caverna, a que
está à frente deles.
—O
que é dado a enxergar a estas pessoas que estão presas ali, não vai além das
sombras bruxuleantes projetadas nessa parede em frente. Como eles estão ali
desde quando nasceram, elas acham que aquelas sombras e suas formas são tudo o
que existe.
—Chega
um dia em que uma dessas pessoas consegue se libertar das suas correntes e se
dirigir à saída. Por um tempo, a claridade ofusca totalmente a sua visão, até
que, aos poucos, vai podendo retomá-la para poder contemplar a natureza, a
profusão das cores, as flores, os animais, o sol, etc. Sentirá também, pela
primeira vez, uma sensação indescritível da liberdade...
—Mas,
depois de um tempo, começa a pensar naqueles que ficaram lá dentro da caverna,
até que decide voltar. Quando encontra os que lá havia deixado, tenta descrever
o que viu lá fora, ao mesmo tempo em que procura explicar que aquilo que eles
estão vendo ali são meras imitações, reflexos da realidade. Mas, as pessoas não
acreditam, pois, para eles, aquilo é mesmo tudo o que existe...
COMENTÁRIOS:
Imaginemos
agora o que essa alegoria pode provocar em nosso íntimo: novas inquietações
filosóficas, analogias, interpretações, enfim, questionamentos sobre a própria
liberdade ou se somos livres de verdade, sobre o estar preso a conceitos
ultrapassados, sobre a verdade da vida, sobre os caminhos do filósofo, sobre o
conhecimento e a verdadeira luz, sobre os mistérios do universo, sobre o que
nos é dado a conhecer e o que está oculto e, muito mais. E considerar que, tudo
isso que acaba de ser citado pode ser analisado sob a ótica maçônica, ou em
outras palavras, tudo de certa forma está relacionado direta e indiretamente ao
Maçom.
ARISTÓTELES
(384-322 a.C.)
Filósofo
grego nascido em Estagira, na Macedônia. Cedo ingressou na Academia de Platão e
com o tempo se converteu no mais brilhante dos alunos, tanto que Platão deu-lhe
o apodo de “o intelecto”. Depois de deixar a Academia foi ser tutor de
Alexandre, o Grande, filho do rei da Macedônia. Após o seu regresso para Atenas
em aproximadamente 335 a.C., fundou o seu Liceu, onde funcionou a escola
Peripatética.
De
acordo com o Prof. Mussa Battal, Aristóteles é considerado o pai das ciências e
o maior dos enciclopedistas, eis que, abrangeu todo o saber humano. Ele
escreveu sobre a filosofia de maneira geral.
Sua
escola era denominada peripatética, porque aplicava os ensinamentos enquanto
passeava com seus discípulos.
Vejamos
o que o Irmão Kennyo Ismail escreveu sobre a influência de Aristóteles na
Maçonaria, primeiramente se referindo ao método que é chamado de “dialética aristotélica”:
“trata-se de método de diálogo baseado
na contradição de ideias iniciais com objetivo de esclarecimento e geração de
novas conclusões. Sua estrutura é
baseada na tese, antítese e síntese. A tese é uma afirmação inicial, a
antítese, que é uma nova tese, porém mais correta. Os Rituais maçônicos e até
suas instruções foram construídos com base no diálogo e na dialética
aristotélica.” (Ismail, pág. 77, 2016)
E
mais um outro comentário:
“Virtudes e Vícios: o termo maçônico
‘Levantar Templos à Virtude e Cavar Masmorras ao Vício’ reflete os conceitos da
ética aristotélica, defendidas na obra ‘Ética a Nicômaco’. Quando os Rituais
Maçônicos tratam do combate à ignorância, à intolerância, aos preconceitos e o
fanatismo, trata-se de vícios opostos das virtudes chamadas por Aristóteles de
‘virtudes intelectuais’ que seriam superiores às ‘virtudes morais’, pois são
adquiridas pelo ensino e baseadas na razão. Da mesma forma, o termo ‘vencer
minhas paixões’ refere-se ao raciocínio de Aristóteles de que mesmo uma virtude
moral, se refém das paixões, tende à deficiência ou ao excesso, tornando-se
assim um vício.” (Ismail,
pág. 78, 2016)
Na filosofia de Aristóteles há uma valorização do
pensamento lógico e racional, portanto, pela ciência, o que nos faz pensar na
importância do estudo das Sete Artes Liberais que constam no Grau de
Companheiro Maçom.
COMENTÁRIOS
FINAIS:
A
Filosofia teve o seu início na Grécia. O estudo da Filosofia, resumido e exemplificado
em pontos essenciais dos ensinamentos emanados das doutrinas dos filósofos
gregos clássicos aqui abordados, além de constituírem alguns dos pilares
básicos da nossa Instituição, são de fundamental utilidade para a formação do
Maçom, eis que a busca que escolhemos empreender e os objetivos que estamos
dispostos a cumprir dependem em muito da nossa absorção e prática das virtudes,
objeto de estudo de todos eles. O aproveitamento que fizermos da filosofia de
Sócrates e dos seus discípulos Platão e Aristóteles, consubstanciadas no “conhece-te
a ti mesmo”, na maiêutica, na dialética, na Lógica, nas lições advindas da alegoria
da caverna, interpretando esses e outros tantos tópicos que são parte das
escolas desses três renomados filósofos são importantes ferramentas para o nosso
desenvolvimento moral e intelectual, onde o objetivo maior a ser destacado é
mesmo o desbastar da pedra bruta.
NOTAS:
Maiêutica(1): O filósofo Sócrates criou a Maiêutica. Através deste método
ele procurava dentro do Homem a verdade. A sua frase “Conhece-te a ti mesmo”,
dá início à jornada interior da Humanidade, a busca do caminho que vai guiar o
homem para a prática das virtudes morais. Por intermédio de questões simples,
inseridas dentro de um contexto determinado, a Maiêutica usa de conceitos
básicos para chegar às ideias mais complexas. (fonte: Google)
CONSULTAS
BIBLIOGRÁFICAS:
Internet:
“Maiêutica” – disponível em:
https://www.infoescola.com/filosofia/maieutica/
“Os
Primeiros Filósofos e a Busca do Princípio de Todas as Coisas” – Artigo de
autoria de Elaine Barbosa - Disponível em: parquedaciencia.blogspot.com.br
Livros:
BATTAL,
Moisés Mussa. “Lições de Filosofia Geral e Maçônica” – Editora A Gazeta
Maçônica – 1990
CADERNO
DE PESQUISAS MAÇÔNICAS 20 – “Os Graus Simbólicos e Sua Filosofia“ - Artigo de
autoria do Irmão Raimundo Rodrigues – Editora Maçônica “a Trolha” Ltda. 1ª
Edição - 2003
CHAMPLIN,
R.N. “Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia” - Hagnos Editora - Volumes
I e VI - 9ª Edição – 2008
GIRARDI,
João Ivo. “Do Meio-Dia à meia-Noite Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e
Editora Ltda – 2ª Edição – 2008
ISMAIL,
Kennyo. “Debatendo Tabus Maçônicos” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. - 1ª
Edição - 2016

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