França: Justiça condena integrantes da antiga Loja Athanor em um dos maiores processos criminais do país


Por Luiz Sérgio de Freitas Castro
Baseado em reportagem de Christopher Hodapp

A Justiça francesa encerrou um dos mais complexos e extensos julgamentos criminais da história recente do país. Após mais de três meses de audiências e aproximadamente 600 horas de depoimentos e debates, um tribunal especial de Paris proferiu os veredictos do chamado "Caso Athanor", que revelou a atuação de uma organização criminosa formada por integrantes de uma antiga loja maçônica da França.

Dos 22 acusados, 17 foram condenados, enquanto cinco foram absolvidos por insuficiência de provas. As penas variaram de seis meses de prisão com suspensão até 30 anos de reclusão, refletindo o grau de participação de cada réu.

O caso ganhou repercussão internacional não apenas pela gravidade dos crimes, mas também por envolver membros da extinta Loja Athanor nº 759, anteriormente vinculada à Grande Loja da Aliança Maçônica Francesa (GL-AMF).

Uma organização criminosa disfarçada de fraternidade

As investigações demonstraram que um pequeno grupo de integrantes da loja utilizava os laços de confiança existentes na fraternidade para organizar atividades criminosas mediante pagamento.

Segundo o Ministério Público francês, a estrutura funcionava como uma verdadeira "empresa do crime", oferecendo serviços que incluíam espionagem empresarial, intimidação, agressões, incêndios criminosos, tentativas de extorsão e assassinatos por encomenda.

Os clientes contratavam os líderes da organização para eliminar concorrentes comerciais, cobrar dívidas ou simplesmente intimidar adversários.

As autoridades concluíram que a rede criminosa atuava pelo menos desde 2016, embora os crimes investigados tenham ocorrido principalmente entre 2018 e 2022.

Os principais condenados

No centro da organização estavam quatro membros considerados os principais responsáveis pela estrutura criminosa.

Frédéric Vaglio, ex-jornalista que passou a atuar na área de inteligência econômica, foi apontado como o intermediador dos contratos criminosos. Segundo a acusação, foi ele quem ordenou a tentativa de assassinato da consultora empresarial Marie-Hélène Dini, concorrente em seu ramo de atuação. Recebeu pena de 25 anos de prisão.

A sentença mais severa foi aplicada a Daniel Beaulieu, ex-oficial da inteligência francesa (DCRI/DGSI), condenado a 30 anos de prisão. O tribunal entendeu que ele era a peça central da organização, responsável por coordenar as operações e recrutar participantes. O fato de ter ocupado cargo de confiança na polícia de inteligência contribuiu para o agravamento da pena.

Também recebeu condenação expressiva Sébastien Leroy, ex-Venerável Mestre da Loja Athanor. Atuando na segurança privada, foi considerado responsável pela execução das ações mais violentas, incluindo o assassinato do piloto de rali Laurent Pasquali, ocorrido em 2018. Leroy foi condenado a 27 anos de prisão, pena superior à solicitada pela própria promotoria.

Outro nome importante foi Jean-Luc Bagur, também ex-Venerável Mestre da Loja, condenado a 16 anos de prisão por cumplicidade na tentativa de homicídio de Marie-Hélène Dini.

O caso Laurent Pasquali

Entre os episódios mais conhecidos está o assassinato do piloto de rali Laurent Pasquali, desaparecido em 2018 e posteriormente encontrado enterrado.

Apesar da condenação de integrantes da organização, o suposto executor do homicídio foi absolvido por falta de provas suficientes. Também foram absolvidos o casal acusado de contratar o assassinato, uma vez que o tribunal considerou inexistentes os elementos necessários para comprovar sua participação.

Tentativas de assassinato e espionagem

O processo também abordou planos frustrados para assassinar a empresária Marie-Hélène Dini, além de projetos contra ativistas ligados ao movimento dos Gilets Jaunes e contra Hassan Touzani.

Além das tentativas de homicídio, foram julgados casos de espionagem industrial, incêndios criminosos, roubos, agressões físicas e outras ações coordenadas pela quadrilha.

Durante o julgamento, um investigador perguntou a Vaglio quantos assassinatos haviam sido contratados pela organização. A resposta chamou atenção: segundo ele, o número "poderia ser contado nos dedos de uma mão", embora apenas um homicídio tenha efetivamente sido consumado.

O falso vínculo com os serviços secretos

Um dos aspectos mais curiosos do processo foi a estratégia utilizada para recrutar participantes.

Os líderes da organização convenciam alguns colaboradores de que estariam participando de operações clandestinas autorizadas pela Direction Générale de la Sécurité Extérieure (DGSE), o serviço francês de inteligência externa.

Em determinado momento, dois jovens agentes ligados à área de segurança acreditaram estar sendo recrutados para eliminar uma suposta agente do Mossad, em uma missão secreta de segurança nacional.

As investigações demonstraram que toda essa narrativa era fictícia e servia apenas para manipular os executores.

A reação da Grande Loja

Um aspecto destacado durante todo o processo foi a postura adotada pela Grande Loja da Aliança Maçônica Francesa (GL-AMF).

Assim que surgiram as primeiras evidências envolvendo integrantes da Loja Athanor, a Grande Loja suspendeu os envolvidos e posteriormente dissolveu a oficina.

Após a conclusão do julgamento, os membros condenados deverão responder aos procedimentos disciplinares internos que podem culminar em sua expulsão definitiva da Obediência.

Um caso individual, não institucional

Christopher Hodapp chama atenção para um ponto frequentemente ignorado em parte da cobertura da imprensa e nas redes sociais.

O julgamento não colocou a Maçonaria francesa no banco dos réus.

As condenações atingiram indivíduos específicos por crimes específicos. Nenhum tribunal responsabilizou a GL-AMF ou a Maçonaria francesa como instituição.

Segundo as investigações, um pequeno grupo de membros utilizou indevidamente os vínculos fraternais e o ambiente de confiança existente dentro da Loja Athanor para desenvolver uma organização criminosa voltada exclusivamente ao lucro pessoal.

A história da Loja Athanor

A Loja Athanor nº 759 havia sido regularmente constituída pela Grande Loja da Aliança Maçônica Francesa (GL-AMF), Obediência fundada em 2012 após uma dissidência ocorrida na Grande Loja Nacional Francesa (GLNF).

A GL-AMF reúne atualmente cerca de 15.400 membros distribuídos em aproximadamente 684 lojas, sendo reconhecida como uma potência maçônica regular, que admite apenas homens, exige a crença em Deus e pratica os rituais tradicionais da Maçonaria regular.

Não havia qualquer irregularidade em sua constituição.

O problema, conforme demonstrou a investigação, foi a infiltração de um grupo de indivíduos que passou a utilizar a estrutura da Loja para finalidades criminosas, em situação frequentemente comparada ao histórico escândalo da Loja P2, liderada por Licio Gelli, na Itália, durante as décadas de 1970 e 1980.

Impactos para a imagem da Maçonaria

Embora o episódio tenha provocado grande repercussão na imprensa francesa e internacional, especialistas observam que o caso deve ser interpretado como um grave desvio de conduta individual, e não como reflexo dos princípios maçônicos.

Ainda assim, o escândalo certamente continuará alimentando debates sobre sociedades discretas, organizações fraternais e o uso indevido de relações de confiança para fins ilícitos.

A Loja Athanor deixou de existir, seus principais integrantes foram condenados pela Justiça e a GL-AMF tomou providências disciplinares contra os envolvidos. O impacto do caso sobre a imagem pública da Maçonaria francesa, contudo, ainda deverá ser sentido por muitos anos.


Crédito da fonte original:

Este artigo foi elaborado com base na reportagem "France: Verdicts Handed Down in the Athanor Lodge Case", de Christopher Hodapp, publicada em seu blog Freemasons for Dummies, sendo este texto uma adaptação jornalística original em língua portuguesa, com reorganização, contextualização e síntese das informações.


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