Da Redação
Em 13 de agosto de 1940, o regime de Vichy,
instalado na França após a derrota diante da Alemanha nazista, promulgou uma
lei contra as chamadas “sociedades secretas”, tendo a Maçonaria como um de seus
principais alvos. Lojas foram dissolvidas, templos e arquivos confiscados e
maçons passaram a sofrer perseguições, exclusões de cargos públicos e exposição
de seus nomes. A propaganda oficial associou a Maçonaria a supostas
conspirações políticas, ao judaísmo e à derrota francesa. Exposições e filmes,
como Forces occultes,
ajudaram a difundir essa imagem. Apesar da repressão, muitos maçons mantiveram
atividades clandestinas e alguns participaram da Resistência. O episódio
demonstra como propaganda, intolerância e autoritarismo podem transformar uma
instituição legal em inimiga do Estado.
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13 DE AGOSTO DE 1940:
QUANDO VICHY DECLAROU GUERRA À MAÇONARIA
A
perseguição aos maçons durante o regime de Vichy
Em
13 de agosto de 1940, poucas semanas depois da derrota francesa diante da
Alemanha nazista e da instalação do governo do marechal Philippe Pétain, o
regime de Vichy promulgou uma das primeiras medidas dstinadas a transformar
profundamente a sociedade francesa: a lei contra as chamadas “sociedades
secretas”.
Embora
o texto legal não mencionasse expressamente a Maçonaria, ela era o principal
alvo da medida. A legislação representou o início de uma política sistemática
de perseguição, exclusão e propaganda antimaçônica que se intensificaria nos
anos seguintes.
O
episódio merece ser lembrado não apenas como um capítulo da história da
Maçonaria francesa, mas como um exemplo de como regimes autoritários podem
transformar organizações sociais e políticas em bodes expiatórios para explicar
derrotas nacionais e justificar a supressão de liberdades.
A
França havia sido derrotada militarmente pela Alemanha em uma campanha
extremamente rápida. O armistício foi assinado em 22 de junho de 1940 e, em
julho, o marechal Pétain recebeu poderes constitucionais que deram origem ao
chamado Estado Francês, com sede em Vichy.
O
novo regime rompeu com diversos princípios da Terceira República e passou a
defender uma chamada “Revolução Nacional”, baseada em valores autoritários e
tradicionalistas, sintetizados na conhecida fórmula “Trabalho, Família,
Pátria”.
Nesse
ambiente, a República, o parlamentarismo, os partidos políticos e determinadas
organizações da sociedade civil passaram a ser apresentados como responsáveis
pela decadência francesa.
Entre
os grupos escolhidos como responsáveis pelos problemas do país estavam os
comunistas, os socialistas, os judeus e os maçons. A antiga e fantasiosa ideia
de um suposto “complô judaico-maçônico” ganhou novo espaço na propaganda
política.
A
lei de 13 de agosto de 1940 determinou a dissolução das associações e
organizações cuja atividade fosse considerada clandestina ou secreta.
A
escolha da expressão “sociedades secretas” permitia ao governo atingir a
Maçonaria sem necessariamente mencioná-la nominalmente. Poucos dias depois,
porém, um decreto declarou nulas as associações correspondentes ao Grande
Oriente de França e à Grande Loja de França.
A
medida teve consequências muito além do simples encerramento das lojas.
O
objetivo era também afastar maçons dos postos de responsabilidade do Estado.
Funcionários públicos passaram a ser submetidos a declarações destinadas a
comprovar que não pertenciam à Maçonaria.
A
perseguição atingiu professores, policiais, militares, funcionários
administrativos e outros servidores. Posteriormente, novas medidas ampliaram a
exclusão dos maçons da administração pública.
Assim,
a condição de maçom passou a ser tratada pelo Estado como uma espécie de
incompatibilidade com o serviço público.
A
repressão não ficou restrita à legislação.
As
sedes das organizações maçônicas foram ocupadas, os templos foram fechados e
documentos foram apreendidos. Os arquivos encontrados tornaram-se instrumentos
importantes para a identificação dos membros das lojas.
A
partir dessas informações, o governo passou a organizar listas de maçons,
incluindo nomes de dirigentes e membros das obediências.
Em
1941, uma nova legislação agravou a situação ao estabelecer a publicação de
listas de dignitários maçônicos e sua exclusão da função pública.
A
perseguição administrativa transformava, assim, uma filiação filosófica e
associativa em motivo de punição política.
Um
dos personagens mais importantes dessa campanha foi Bernard Faÿ, professor do
Collège de France e administrador da Biblioteca Nacional.
Em
novembro de 1940, Pétain confiou a Faÿ a direção do chamado Serviço das
Sociedades Secretas. O órgão foi instalado simbolicamente no próprio edifício
do Grande Oriente de França, na rua Cadet, em Paris.
A
escolha do local possuía forte significado político e propagandístico.
O
antigo espaço maçônico passou a funcionar como centro de investigação e
documentação destinado justamente a combater a instituição que anteriormente o
utilizava.
Arquivos,
fichas, fotografias e documentos apreendidos foram utilizados para alimentar a
campanha antimaçônica.
A
repressão também ultrapassou a esfera administrativa. A Maçonaria passou a ser
apresentada ao público como uma organização conspiratória, antipatriótica e
responsável pela derrota francesa.
O
regime de Vichy percebeu que a perseguição seria mais eficaz se fosse
acompanhada de uma campanha destinada a convencer a opinião pública.
Exposições,
publicações, jornais e posteriormente o cinema foram utilizados para apresentar
a Maçonaria como uma força oculta que controlaria a política francesa.
Em
outubro de 1940, uma exposição antimaçônica foi organizada no Petit Palais, em
Paris. O objetivo era revelar ao público aquilo que a propaganda apresentava
como os supostos “segredos” da Maçonaria)
A
linguagem utilizada procurava associar os símbolos maçônicos a uma suposta
conspiração internacional.
O
compasso, o esquadro e outros elementos tradicionais da simbologia maçônica
foram retirados de seu contexto filosófico e apresentados como sinais de uma
organização clandestina.
Era
uma estratégia típica da propaganda política: transformar símbolos conhecidos
em evidências aparentes de uma conspiração inexistente.
O
auge dessa campanha propagandística ocorreu com o filme Forces occultes,
produzido durante a ocupação alemã e lançado em 1943.
O
roteiro foi escrito por Jean Marquès-Rivière, antigo maçom que posteriormente
se tornou um ativo propagandista antimaçônico. A produção contou com Robert
Muzard e a Nova Films, empresa ligada à propaganda colaboracionista.
O
filme apresentava uma visão inteiramente ficcional da Maçonaria, associando-a a
políticos corruptos, interesses financeiros internacionais e uma suposta
conspiração que teria levado a França à guerra e à derrota de 1940.
A
própria propaganda visual do filme explorava elementos destinados a provocar
medo: homens encapuzados, espadas, rituais secretos, símbolos maçônicos e uma
atmosfera deliberadamente sombria.
A
Maçonaria deixava de ser apresentada como uma instituição filosófica para ser
retratada como uma organização criminosa.
Hoje,
Forces occultes é estudado principalmente como documento histórico da
propaganda colaboracionista e antimaçônica do período. A tentativa de
apresentá-lo como um documentário histórico é, portanto, profundamente
enganosa.
Um
dos aspectos mais graves da propaganda de Vichy foi a associação entre
Maçonaria e judaísmo.
Essa
combinação não nasceu em 1940. Ela fazia parte de uma tradição conspiracionista
muito anterior, segundo a qual judeus e maçons fariam parte de uma suposta
conspiração internacional destinada a controlar governos e sociedades.
O
nazismo explorou intensamente esse tipo de propaganda. Na França ocupada, Vichy
encontrou nessa narrativa um instrumento para justificar simultaneamente
diferentes formas de exclusão.
Estudos
históricos mostram que a legislação de Vichy contra maçons e judeus foi
implementada em um contexto de crescente perseguição e exclusão social.
É
importante, entretanto, não confundir a propaganda do regime com a realidade
histórica.
A
existência de maçons judeus não significava que Maçonaria e judaísmo
constituíssem uma organização conjunta. Tratava-se de uma construção
conspiracionista utilizada para produzir um inimigo interno.
A
repressão produziu consequências concretas na vida de muitos franceses.
Maçons
perderam empregos, cargos públicos e posições profissionais. Muitos tiveram
seus nomes publicados e passaram a ser identificados publicamente como membros
de uma organização considerada inimiga do Estado.
O
regime também criou mecanismos para identificar antigos membros das lojas e
investigar sua trajetória profissional.
A
legislação de 1940, portanto, não deve ser interpretada apenas como uma medida
administrativa. Ela fazia parte de uma política mais ampla de exclusão política
e social.
Como
observa a historiografia sobre o período, os maçons estavam entre os grupos
escolhidos pelo regime para a chamada “purificação” da administração pública.
Com
a dissolução das lojas, muitos maçons foram obrigados a interromper suas
atividades.
Entretanto,
a proibição não significou o desaparecimento imediato da Maçonaria.
Em
setembro de 1940, por exemplo, surgiu em Paris uma das primeiras iniciativas
maçônicas clandestinas, conhecida como Atelier de la Bastille, reunida na
residência de Albert Kirchmeyer. Posteriormente, outras redes clandestinas
surgiriam.
Alguns
maçons também participaram da Resistência francesa.
Essa
realidade desmonta outro aspecto da propaganda de Vichy: a tentativa de
apresentar todos os maçons como inimigos da França.
A
história foi muito mais complexa.
Houve
maçons que colaboraram com o regime, assim como houve maçons que resistiram à
ocupação. Como acontece em praticamente todos os grandes acontecimentos
históricos, as escolhas foram individuais e não podem ser reduzidas a uma única
posição política.
O
episódio de 13 de agosto de 1940 oferece uma importante reflexão sobre os
perigos da intolerância política.
Em
momentos de crise, sociedades podem procurar explicações simples para problemas
complexos. Governos autoritários frequentemente exploram esse sentimento para
identificar grupos que possam ser responsabilizados por derrotas, crises
econômicas ou conflitos políticos.
Foi
o que ocorreu com a Maçonaria na França de Vichy.
Uma
instituição existente legalmente havia décadas foi transformada, por meio de
propaganda e legislação, em inimiga do Estado.
Primeiro
vieram as acusações. Depois, a legislação. Em seguida, as listas, as exclusões,
o confisco de propriedades e a propaganda.
A
história mostra, portanto, que a perseguição à Maçonaria não começou com
violência física. Começou com a construção de uma imagem pública negativa e com
a transformação do maçom em “inimigo interno”.
O
dia 13 de agosto de 1940 permanece como uma data importante para a história da
Maçonaria francesa.
Não
porque represente apenas o fechamento de lojas ou a suspensão de trabalhos
ritualísticos, mas porque demonstra até onde pode chegar um Estado quando
decide transformar uma associação civil em alvo político.
A
experiência de Vichy mostra também a importância da memória histórica.
Estudar
esse período não significa transformar a Maçonaria em vítima permanente nem
ignorar suas próprias contradições históricas. Significa compreender como a
intolerância, a propaganda e o autoritarismo podem destruir instituições,
carreiras e vidas.
A
Maçonaria francesa saiu da Segunda Guerra Mundial profundamente debilitada. Mas
não desapareceu.
Sobreviveu
à perseguição, à clandestinidade e à propaganda.
E
talvez essa seja a principal lição de 13 de agosto de 1940: instituições podem
ser proibidas, templos podem ser fechados e arquivos podem ser confiscados; mas
ideias que sobrevivem à perseguição demonstram que a liberdade de consciência
não pode ser eliminada por decreto.
Também foram consultadas, para conferência e contextualização histórica, informações do Histoire par l’Image, estudo de Pierre-Yves Beaurepaire sobre a propaganda antimaçônica de Vichy, além de referências historiográficas sobre a legislação do regime.
Fonte principal: GADLU.INFO – Web
Maçonnique – Franc-Maçonnerie.
Fonte complementar: Histoire par l’Image,
Ministério da Cultura da França.

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