Da Redação
O julgamento do chamado Caso Athanor, encerrado
em Paris após meses de audiências, representa um dos episódios mais delicados
já associados, ainda que de forma indireta, à imagem da Maçonaria
contemporânea. A Justiça francesa concluiu um processo de grande complexidade,
envolvendo acusações que iam desde intimidações até assassinatos, condenando a
maioria dos réus e absolvendo outros, após uma longa investigação judicial.
Embora os crimes julgados pertençam
exclusivamente ao campo da responsabilidade individual de seus autores, a
simples presença do nome de uma loja maçônica no centro das notícias
inevitavelmente desperta questionamentos na sociedade. Mais uma vez, a instituição
vê seu nome associado a acontecimentos que contradizem frontalmente seus
princípios.
Um dos maiores perigos em casos dessa natureza
é transformar a exceção em regra.
A Maçonaria jamais pode ser julgada pelos atos criminosos eventualmente praticados por
pessoas que, em algum momento, fizeram parte de seus quadros. Da mesma forma,
não se responsabiliza uma universidade pelos delitos cometidos por um ex-aluno,
nem uma igreja pelos crimes praticados por um antigo fiel.
O processo francês investigou pessoas,
organizações criminosas e ações concretas. Não julgou a filosofia maçônica, nem
seus ensinamentos.
Essa distinção é fundamental.
A essência da Ordem permanece baseada na
liberdade, na moralidade, na fraternidade e no aperfeiçoamento humano. Nenhum
tribunal colocou esses valores em julgamento.
Talvez o aspecto mais doloroso seja justamente
o uso do nome Athanor.
Na tradição hermética e alquímica, o athanor
representa o forno filosófico onde ocorre a lenta transformação da matéria
bruta em algo mais puro. Para muitos estudiosos do simbolismo maçônico, ele
também remete ao trabalho interior de aperfeiçoamento moral.
Ver esse símbolo associado a uma organização
criminosa produz um inevitável impacto psicológico sobre o público.
Infelizmente, o noticiário raramente distingue
símbolos de seus usos indevidos.
Quando isso acontece, cabe às instituições
explicar, esclarecer e educar.
Durante décadas, a Maçonaria foi cercada por
uma aura de discrição que frequentemente alimentou interpretações equivocadas.
Hoje, porém, vivemos uma época em que o
silêncio pode ser confundido com omissão.
Sempre que episódios dessa natureza ganham
repercussão internacional, torna-se indispensável que as Obediências reafirmem
publicamente seus princípios éticos, deixando claro que qualquer utilização da
fraternidade para interesses particulares constitui uma completa deturpação do
espírito maçônico.
A verdadeira fraternidade jamais serve para
proteger criminosos.
Ela existe para formar homens melhores.
O caso francês oferece uma reflexão que
ultrapassa fronteiras.
Independentemente do país, torna-se cada vez
mais importante que as organizações maçônicas mantenham processos rigorosos de
seleção, acompanhamento e disciplina de seus membros.
Nenhuma instituição humana está totalmente
protegida contra desvios individuais.
Contudo, organizações sólidas demonstram sua
grandeza justamente pela capacidade de identificar desvios, corrigi-los e
preservar seus princípios fundamentais.
A confiança pública depende não apenas da
qualidade dos ensinamentos, mas também da coerência entre discurso e prática.
A cobertura jornalística frequentemente
privilegia manchetes impactantes.
É compreensível.
Entretanto, para quem conhece minimamente a
história da Maçonaria, torna-se evidente que centenas de anos de atuação em
favor da educação, da liberdade de consciência, da filantropia e do
desenvolvimento moral não podem ser reduzidos aos atos de um pequeno grupo de
pessoas que, segundo a Justiça, desviaram-se completamente desses valores.
A própria sentença demonstra que a Justiça
analisou responsabilidades individuais, distinguindo condenações e absolvições
conforme as provas apresentadas. (
Esse aspecto merece destaque.
Quando a Justiça individualiza
responsabilidades, ela reafirma um princípio essencial do Estado de Direito:
cada pessoa responde pelos próprios atos.
O simbolismo maçônico ensina que o verdadeiro
trabalho acontece dentro de cada iniciado.
O "forno alquímico" não produz poder,
influência ou privilégios.
Produz transformação moral.
Quando alguém utiliza a fraternidade como
instrumento para interesses ilícitos, deixa de representar os ideais da Ordem e
passa a representar apenas suas próprias escolhas.
Esse talvez seja o maior ensinamento deixado
pelo Caso Athanor.
Mais do que um episódio policial, trata-se de
um lembrete de que nenhuma organização está imune à ação humana e de que os
valores somente permanecem vivos quando são efetivamente praticados.
No fim, a Justiça cumpre seu papel ao
responsabilizar indivíduos. Já a Maçonaria cumpre o seu quando continua
formando homens comprometidos com a ética, a verdade e a construção de uma
sociedade mais justa.
Porque símbolos podem ser momentaneamente
manchados pelas ações humanas, mas seus verdadeiros significados sobrevivem
quando permanecem sustentados pela prática dos seus princípios.
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