Da Redação
Olá, bem-vindos ao nosso podcast de hoje. Hoje
vamos desvendar um mistério que ecoa pelos corredores do tempo e pelas vielas
da história. Uma pergunta que muitos já fizeram e poucos conseguiram responder
com absoluta certeza: afinal, por que São João é o padroeiro da Maçonaria?
São João Batista e São João Evangelista. Duas
figuras bíblicas, dois nomes, um só título: os Santos Padroeiros da Maçonaria.
Mas como uma organização que se orgulha de ser não religiosa, aberta a todas as
crenças, adotou dois santos cristãos como seus protetores?
A resposta, como tudo na Maçonaria, está
envolta em simbolismo, história e... um pouco de mistério. Vamos mergulhar
nessa história.
Para começar, precisamos voltar no tempo.
Imagine a Europa da Idade Média, mais especificamente a Inglaterra e a Escócia.
Nessa época, as cidades eram construídas por artesãos habilidosos, e esses
artesãos se organizavam em guildas e sociedades. E cada uma dessas sociedades,
cada ofício, costumava dedicar-se a um santo padroeiro. Era uma tradição: o
santo recebia a devoção dos membros e, em troca, oferecia proteção e favores
especiais. Não era estranho, portanto, que uma associação de construtores tivesse
também o seu santo.
Mas o que torna a ligação da Maçonaria com os
dois Joãos tão especial e, ao mesmo tempo, tão enigmática?
Vamos aos fatos.
No calendário da igreja medieval, dois santos
chamados João se destacavam. Primeiro, João Batista, o "precursor", a
voz que clamava no deserto, anunciando a chegada de Jesus. E segundo, João
Evangelista, o "discípulo amado", o apóstolo, irmão de Tiago, a quem
a tradição atribui a autoria do Evangelho de João.
Aqui começa o primeiro véu de mistério. Quando
e onde a Maçonaria adotou esses dois santos? Não sabemos ao certo. Há séculos
essa ligação existe, mas o "como" e o "porquê" exatos se
perderam no tempo.
No entanto, isso não significa que não possamos
especular, e é aí que a coisa fica interessante.
A Maçonaria moderna, como a conhecemos, nasceu
em um mundo predominantemente cristão: a Europa do Iluminismo. E apesar de
sempre ter aberto suas portas para homens de todas as religiões, a sua
simbologia, naturalmente, acabou sendo influenciada pela cultura cristã ao seu
redor. É daí que vem a iconografia dos dois São João.
Mas há uma leitura mais profunda na Maçonaria
para essa escolha. A dualidade. Os dois santos representam duas faces de uma
mesma moeda.
Imagine:
João Batista é o zelo, a paixão. Ele é a chama
que arde no deserto, a energia da transformação, o chamado à ação.
João Evangelista, por sua vez, é o
conhecimento, a introspecção, a compreensão profunda da fé. Ele é a luz que
ilumina o caminho, o "Verbo" que se fez carne.
Juntos, eles simbolizam o caminho equilibrado
do maçom: a paixão aliada ao conhecimento, a ação guiada pela reflexão. Uma
loja maçônica dedicada aos dois santos é, portanto, um espaço para canalizar
essa paixão e buscar a iluminação. E não é por acaso que as festas desses dois
santos são celebradas próximas aos solstícios: João Batista, no solstício de inverno;
João Evangelista, no solstício de verão. Luz e escuridão, ação e contemplação,
o ciclo eterno da natureza.
Mas há uma teoria mais concreta, apontada por
estudiosos, que nos leva a uma pista literal.
A tradição nos conta que, antigamente, os novos
maçons prestavam seu juramento sobre uma Bíblia aberta... em um capítulo
específico: o primeiro capítulo do Evangelho de João.
As palavras iniciais são poderosas e soam
familiares até hoje: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus."
Esta era a "Palavra", o
"Verbo".
Nos séculos XVII e XVIII, a "Palavra
Maçônica" era um segredo sagrado e fundamental, revelado apenas ao maçom
iniciado. Essa palavra era a chave que dava acesso a todos os privilégios da
fraternidade e, para os pedreiros "operativos", significava acesso ao
trabalho e ao sustento.
É natural, portanto, a conexão simbólica entre
a "Palavra Maçônica", o segredo da ordem, e a "Palavra"
divina do Evangelho de João. A escolha do Evangelho de São João para o
juramento pode ter sido uma forma de elevar a obrigação do maçom a um patamar
sagrado, ligando o segredo da fraternidade à própria palavra de Deus.
E essa ligação era tão importante que os maçons
daquela época, por vezes, eram chamados de... "Maçons de São João".
De fato, em alguns registros do século XVIII, visitantes de lojas escreviam
esse título após seus nomes: "Maçom de São João".
É fascinante, não é?
Portanto, podemos supor que a origem da ligação
com os dois Joãos começou com São João Evangelista, por conta do seu Evangelho.
E que São João Batista foi adicionado posteriormente, talvez para completar a
dualidade, para equilibrar a força do zelo com a sabedoria do conhecimento.
Mas, como eu disse, nada disso pode ser
comprovado. Os "Maçons de São João" não deixaram manuais explicando
sua escolha. O silêncio deles é um convite à nossa reflexão.
E para fechar com chave de ouro, vamos lembrar
de um marco fundamental: em 1717, em Londres, foi formada a primeira Grande
Loja oficial de Maçons, a Grande Loja Premier da Inglaterra. Mais tarde, em
1813, ela se uniu a outra grande loja para formar a Grande Loja Unida da
Inglaterra. E desde então, a tradição foi consolidada, mas a origem permaneceu
nas sombras da história.
Então, meus caros ouvintes, por que São João é
o padroeiro da Maçonaria?
É uma mistura de tradição medieval, de
simbolismo poderoso sobre a dualidade humana, e de uma profunda conexão entre a
"Palavra" do Evangelho e o "segredo" da Ordem. É uma
história que mescla o concreto do ritual com o abstrato da busca pela
iluminação.
E talvez, o verdadeiro motivo seja justamente
esse: a Maçonaria nos convida a fazer nossas próprias perguntas, a buscar
nossas próprias respostas, e a encontrar, no equilíbrio entre a paixão e a
razão, o nosso próprio caminho.
E fique atento aos próximos episódios, onde
continuaremos desvendando os símbolos e a história por trás da Maçonaria.
Até a próxima!

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