Em 1º de março de 1923, falecia em , aos 73 anos, um dos maiores vultos da história intelectual e política do Brasil: Ruy Barbosa de Oliveira. Nascido em , em 5 de novembro de 1849, Ruy foi jurista, advogado, político, diplomata, escritor, filólogo, jornalista, tradutor e orador — um verdadeiro polímata cuja trajetória se confunde com a consolidação da República brasileira.
Maçom convicto, Ruy Barbosa encarnou, em sua vida pública, valores caros à Maçonaria: a defesa da liberdade, da justiça, da igualdade jurídica e da soberania dos povos.
Formação e Primeiras Lutas
Bacharel em Direito pela tradicional em 1870, Ruy iniciou sua carreira na Bahia, onde se destacou na defesa das eleições diretas e na campanha abolicionista. Sua atuação precoce já revelava o espírito combativo e idealista que marcaria toda a sua vida.
Ganhou projeção nacional ao traduzir, em 1877, a obra “O Papa e o Concílio”, de Johann Joseph von Döllinger, acrescentando uma extensa introdução crítica, na qual censurava a postura de D. Pedro II diante da chamada Questão Religiosa. O jovem jurista demonstrava, ali, independência intelectual e coragem moral — virtudes que se tornariam sua marca registrada.
Arquiteto da Primeira República
Com a Proclamação da República, foi convocado por para integrar o nascente governo republicano. Tornou-se um de seus principais organizadores e figura central na elaboração da Constituição de 1891.
Ruy revisou os projetos constitucionais da comissão presidida por e apresentou um substitutivo que rompeu definitivamente com a tradição parlamentarista do Império, consagrando o presidencialismo nos moldes do sistema norte-americano. Atuou firmemente na defesa do federalismo, da separação entre Igreja e Estado e da consagração das garantias individuais.
Sua participação foi decisiva para dar à jovem República uma estrutura jurídica moderna e alinhada aos princípios liberais.
Intelectual de Estatura Nacional
A produção intelectual de Ruy Barbosa ultrapassa a centena de volumes, reunindo discursos, pareceres jurídicos, artigos e polêmicas que atravessaram décadas. Foi sócio fundador da , sucedendo na presidência da instituição.
Reuniu ainda uma das maiores bibliotecas particulares do país, com cerca de cinquenta mil volumes. Sua residência no Rio de Janeiro foi transformada na , centro de pesquisa e preservação de sua obra.
O “Águia de Haia”
Sua consagração internacional ocorreu em 1907, na Conferência de Paz de Haia, convocada a convite do Barão do Rio Branco. Diante das grandes potências — Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos —, Ruy Barbosa defendeu com brilho a tese da igualdade jurídica entre as nações.
Quando se propôs a criação de um tribunal internacional composto apenas pelas grandes potências, ele insurgiu-se contra a ideia, argumentando que privilegiar países com maior poderio militar estimularia a corrida armamentista e conduziria o mundo à guerra, contrariando o espírito da Conferência.
Sua atuação foi tão marcante que a imprensa internacional o destacou como uma das maiores forças pessoais do encontro. A partir dali, passou à história como o “Águia de Haia” — símbolo da altivez brasileira no cenário internacional.
Legado e Memória
Em 1949, seus restos mortais foram trasladados para a cripta do Fórum Rui Barbosa, no Palácio da Justiça da Bahia, perpetuando sua memória em sua terra natal.
Ruy Barbosa deixou também um testamento moral, sintetizado na frase que ele próprio escreveu para seu epitáfio:
“Estremeceu a Justiça; viveu no Trabalho; e não perdeu o Ideal.”
Essa sentença resume não apenas sua biografia, mas um programa de vida. Estremecer a Justiça — no sentido de defendê-la com vigor. Viver no Trabalho — como expressão de disciplina e dedicação. Não perder o Ideal — mesmo diante das derrotas políticas e das incompreensões do seu tempo.
Para a Maçonaria brasileira, Ruy Barbosa permanece como exemplo de intelectualidade aliada à ação, de coragem cívica e de fidelidade aos princípios. Sua vida demonstra que o verdadeiro obreiro da liberdade não se curva às circunstâncias: ele as enfrenta, com a palavra, com a razão e com a consciência.

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