Da Redação
O viajante percorreu longos dias de estrada em
busca dos supostos assassinos de Hiram. Desde o início, algo não lhe parecia
correto: os crânios encontrados não eram humanos. Pequenos demais, deformados
pelo fogo de maneira impossível — aquilo não correspondia à história contada.
Concluiu, então, que os três assassinos jamais haviam sido capturados.
Permaneciam livres.
Ao chegar a uma aldeia, notou uma casa
diferente das demais. Enquanto a maioria era feita de terracota, aquela
construção se destacava: sólida, de pedra talhada, quase senhorial.
Disseram-lhe que ali vivia um mestre de obras recém-chegado, instalado havia
poucas semanas.
O viajante bateu à porta.
Uma pequena abertura se revelou, protegida por
uma tela metálica, e uma voz grave ecoou:
— O que você quer?
— Procuro por Abibalc.
— Cale-se e entre.
A porta se abriu. O homem que o recebeu era
idoso. Vestia uma túnica simples, mas sua presença impunha respeito. Cabelos
brancos, barba bem cuidada, olhar penetrante. Havia nele algo de nobre, apesar
do corpo curvado pelo tempo.
O interior da casa era modesto, porém
acolhedor. Bancos de madeira rodeavam uma mesa, e, ao fundo, via-se um pátio
com azulejos e uma fonte silenciosa.
— Não há nenhum Abibalc aqui. Esqueça esse
nome. O que deseja?
Exausto, o viajante pediu descanso. Caminhara
sete dias desde Jerusalém. Ofereceram-lhe água para os pés, vinho, pão e
azeitonas.
Após recuperar o fôlego, disse:
— Estive entre aqueles que investigaram o monte
onde foram enterrados os crânios dos supostos assassinos de Hiram.
O velho o observou com atenção.
— E então?
— Não eram humanos.
— E o que isso muda?
— Eu sei a verdade.
O velho respondeu friamente:
— Você não sabe nada. E, se soubesse, não
poderia dizer.
— Sei que os assassinos de Hiram ainda vivem.
— Hiram nunca foi assassinado.
— Então está vivo?
— Não.
— Morto, então?
— Também não.
O viajante franziu a testa.
— Isso é impossível.
O velho inclinou-se levemente e disse:
— Existe uma terceira possibilidade: Hiram
nunca existiu.
O silêncio pesou no ambiente.
— Está delirando — respondeu o viajante. — Quem
construiu o Templo de Salomão?
— Nós. Os mestres, os trabalhadores. Todos nós.
O velho então começou a relatar:
A história que se contava sobre três aprendizes
perversos era falsa. Eles não eram ignorantes nem ambiciosos além da conta.
Eram artesãos experientes, respeitados, pacientes. Mas desconfiavam. Algo lhes
era ocultado.
Nunca tinham visto Hiram de perto. Ele era uma
presença distante, quase mítica. Quando enviavam mensagens, recebiam respostas
indiretas. Nunca um encontro face a face.
— Tudo parecia emanar dele — disse o velho —,
mas nunca o ouvíamos de verdade.
Movidos pela curiosidade, decidiram investigar.
Numa noite silenciosa, invadiram o templo ainda em construção. Vasculharam tudo
até alcançar o Santo dos Santos.
Lá, não encontraram o homem que procuravam.
Apenas um baú.
Dentro dele: vestes, insígnias, uma joia de
ouro.
— As roupas estavam vazias — disse o velho.
Foi então que compreenderam.
Hiram não era um homem. Era um papel.
Diferentes mestres vestiam seus trajes e
representavam sua figura. Ora parecia mais alto, ora mais baixo; mais velho,
mais jovem. A figura de Hiram era uma construção coletiva — uma autoridade
simbólica.
— Não existe um único detentor do conhecimento
— explicou o velho. — Nunca existiu uma palavra secreta, uma verdade absoluta,
uma pedra filosofal. O saber sempre foi nosso, compartilhado.
Segundo ele, a invenção de Hiram servia para
manter a ordem e a autoridade entre os trabalhadores. Um símbolo maior,
inalcançável.
Quando descobriram isso, foram surpreendidos
por três mestres armados com ferramentas. Conseguiram fugir, mas sabiam que
algo maior estava por vir.
— Eles precisavam encerrar a história — disse.
— Criaram o assassinato de Hiram.
Os crânios exibidos como prova?
— Eram de macacos.
Uma encenação.
Um aviso.
Os três macacos: aquele que não vê, não ouve e
não fala.
O viajante permaneceu em silêncio, absorvendo
tudo.
— E você? — perguntou. — Quem é?
— Não me chame de Abibalc. Esse nome me foi
dado. Eu sou Gabar, um construtor. Apenas isso.
A noite caiu. Conversaram longamente, entre
vinho, pão, azeitonas e tâmaras. O viajante foi convidado a permanecer.
Ao amanhecer, partiu.
À beira do Mar da Galileia, observou o sol
nascer. Em sua mão, apertava uma joia triangular de ouro — levada consigo em
segredo.
Pensava em tudo o que ouvira.
E se fosse verdade?
E se Hiram jamais tivesse existido?
Então sua missão não passava de uma ilusão.
Mas talvez o velho tivesse mentido.
Ou talvez houvesse ainda uma terceira verdade,
oculta entre todas.
Sem respostas definitivas, o viajante retomou o
caminho para Jerusalém.
Agora, restava-lhe decidir: qual história contar?
Esse
artigo é baseado em matéria de autoria de Pierre Gandonniere publicada em :
https://450.fm/2026/03/18/le-grand-mensonge-dhiram/#comments
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1 Comentários
Cada dia que passa esse blog fica mais legal!
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