República Democrática do Congo: Novo massacre ensanguenta Kivu do Norte e expõe o silêncio do mundo

Um novo massacre voltou a mergulhar em sangue o leste da República Democrática do Congo (RD Congo), uma das regiões mais instáveis e violentas do planeta. No sábado, 7 de fevereiro, entre 25 e 35 civis foram brutalmente assassinados em um ataque na localidade de Gelumbe, perto de Beni-Oicha, no extremo norte da província de Kivu do Norte. O ataque é atribuído às Forças Democráticas Aliadas (ADF), grupo extremista que jurou lealdade ao autoproclamado Estado Islâmico em 2009.

A tragédia soma-se a uma longa sequência de massacres que assolam a região há décadas, alimentados por interesses geopolíticos, disputas étnicas e a exploração de recursos naturais estratégicos.


A instabilidade na fronteira entre Kivu do Norte e Ituri

A aldeia de Gelumbe está localizada em uma área sensível, próxima à fronteira entre as províncias de Kivu do Norte e Ituri, onde a presença de grupos armados é constante. O ataque segue o padrão de violência sistemática praticado pelas ADF, que já haviam perpetrado um massacre em novembro de 2025 em Byambwe e, meses antes, assassinaram mais de 40 civis durante um ataque contra a igreja católica de Komanda.

Essas ações terroristas têm como alvo principalmente comunidades rurais e populações cristãs, tanto católicas quanto protestantes, que vivem sob constante ameaça.


“É um horror planejado”

O missionário italiano Padre Giovanni Piumatti, que atua há décadas na diocese de Butembo-Beni, descreveu o massacre em termos chocantes à mídia do Vaticano. Segundo ele, os corpos foram encontrados decapitados e espalhados pelas ruas, evidenciando a brutalidade extrema dos ataques.

“É um horror planejado que continua no silêncio do Ocidente”, afirmou o sacerdote.

Para ele, a violência deixou de ser um episódio ocasional e se transformou em uma rotina semanal, repetindo-se há pelo menos dois ou três anos, sem uma resposta eficaz do Estado congolês ou da comunidade internacional.


Suspeitas de cumplicidade e falhas das forças de segurança

O Padre Piumatti também destacou a desconfiança da população local em relação às Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC). Muitos habitantes acreditam que há algum nível de cumplicidade ou, no mínimo, negligência, já que o fenômeno persiste há anos sem ser contido, mesmo com a colaboração militar da vizinha Uganda.

A sensação de abandono e impunidade reforça o ciclo de violência e o medo constante entre as comunidades locais.


A guerra invisível e os interesses por trás do caos

A instabilidade em Beni é apenas um reflexo de um conflito muito maior que envolve toda a região de Kivu, incluindo as áreas de Goma e Bukavu, riquíssimas em minerais estratégicos e terras raras — recursos fundamentais para a indústria global de tecnologia, energia e armamentos.

Atualmente, parte dessas regiões está sob controle do grupo M-23, apoiado por forças pró-Ruanda, o que intensifica as tensões regionais. Para o Padre Piumatti, o caos não é apenas consequência do conflito, mas parte de uma estratégia deliberada:

“A intenção específica é manter o caos, por várias razões, entre elas a posse de terras e recursos preciosos e, talvez, também interesses tribais.”


Milhões de mortos no silêncio do mundo

Segundo o missionário, as guerras em Kivu já causaram cerca de 10 milhões de mortes ao longo dos anos, uma das maiores tragédias humanitárias desde a Segunda Guerra Mundial — mas frequentemente ignorada pela mídia e pela opinião pública internacional.

A expressão “holocausto africano” já foi usada por pesquisadores para descrever a magnitude desse conflito, marcado por genocídios, estupros em massa, deslocamentos forçados e massacres contínuos.


Conclusão: uma tragédia esquecida

O massacre de Gelumbe é mais um capítulo de uma guerra silenciosa que se arrasta há décadas na República Democrática do Congo. Enquanto o mundo concentra sua atenção em conflitos mais midiáticos, milhões de congoleses continuam vivendo sob terror constante, vítimas de interesses econômicos, rivalidades regionais e da indiferença global.

A tragédia em Kivu do Norte não é apenas uma crise africana — é um espelho brutal das contradições do sistema internacional, que depende dos recursos da região, mas ignora o sofrimento de seu povo.

Fonte: https://www.vaticannews.va

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