O Grande Mal-Entendido sobre a Maçonaria: Não Somos Feiticeiros — É Disso que Eles Têm Medo

Por Rosmunda Cristiano

Comecemos pelo ponto mais sensível de todos: o cidadão comum.

Aquele que, ao descobrir que você é maçom, muda subitamente de expressão — como se um simples arquear de sobrancelhas fosse capaz de lançar uma maldição. Para ele, a Maçonaria é sinônimo de magia negra, entidades ocultas, rituais proibidos e forças invisíveis em ação. Uma espécie de plataforma de entretenimento esotérico, só que sem assinatura.

O paradoxo é que a realidade é quase o oposto. A essência da tradição maçônica — especialmente em sua vertente latina — é profundamente naturalista.

Nada de evocações sobrenaturais. Nenhum anjo que desce, nenhum demônio que sobe, nenhum deus que suspende as leis do mundo para intervir no destino humano. No centro está o homem: seu mundo interior, suas contradições, suas sombras e sua capacidade inteiramente terrena de se transformar. Aquilo que muitos chamam de “mistério” é, para nós, trabalho. Não “magia” no sentido espetacular ou hollywoodiano, mas a transformação lenta e concreta que os antigos chamavam de magnum opus: o labor sobre si mesmo. Sem efeitos especiais. Apenas esforço, método e perseverança.

Os filósofos já advertiam:

Natura non facit saltus.

A natureza não dá saltos.

E tampouco os maçons.

 Naturalismo: quando a natureza ocupa o lugar do céu

Mas o que significa, afinal, esse naturalismo maçônico?

Sem recorrer a tratados filosóficos, pode-se resumir assim: a natureza é o grande livro aberto diante de nós; a razão é o instrumento com que tentamos lê-lo; o homem não aguarda uma salvação vinda do alto, mas trabalha para se aprimorar e, ao fazê-lo, melhorar a sociedade — aqui e agora.

Nessa visão, o Grande Arquiteto do Universo não é um deus intervencionista que pune ou recompensa, mas o princípio de ordem, harmonia e proporção que estrutura o cosmos. Ele representa a lógica do mundo, não uma figura antropomórfica nas nuvens. Trata-se de uma espiritualidade horizontal: sem escadas celestes, sem mãos invisíveis puxando o homem para cima. O homem permanece homem — mas um homem chamado a despertar para a consciência.

Gosto de resumir dessa forma:

não somos deuses caídos; somos seres humanos que ainda não concluíram o seu trabalho de autoconhecimento.

É por isso que, quando alguém pergunta com ar desconfiado:

“Mas vocês, maçons, praticam rituais mágicos?”

Sorrio. Porque, se por “mágica” a pessoa entende desligar o celular, olhar para si mesma sem indulgência e admitir que estava errada… então sim, fazemos magia. Uma magia difícil.

O que é curioso — ou trágico, dependendo do dia — é que o naturalismo maçônico é constantemente mal interpretado. O uso de símbolos, rituais, luzes e silêncio desperta imediatamente associações com bruxaria. Na realidade, a Maçonaria está muito mais próxima dos antigos cultos de mistério do que do ocultismo romantizado: Elêusis, os ritos de morte e renascimento simbólicos, a ideia de que o homem pode ser transmutado interiormente, como o chumbo em ouro. Não porque um deus o conduza pela mão, mas porque ele aceita confrontar-se consigo mesmo.

Há uma frase que sempre me acompanha:

Homo homini faber.

O homem é o construtor do homem.

Eis o ponto central. O maçom não espera que o céu faça por ele aquilo que ele se recusa a fazer por si mesmo. Não pede milagres; pede ferramentas. Esquadro, compasso, nível, régua — todas maneiras de dizer: “mede-te, observa-te, corrige-te, realinha-te”.

De fora, esse trabalho é romantizado como “contato com entidades superiores”. A realidade é menos glamourosa — e muito mais perturbadora: a entidade que devemos enfrentar somos nós mesmos.

O imaginário profano espera velas negras, invocações em línguas esquecidas, presenças que se materializam. O que encontramos, na maioria das vezes, são luzes rituais discretas, silêncios densos como pedra e palavras antigas que não servem para comandar espíritos, mas para nos lembrar de nossas raízes, da memória e da história.

Veritas vos liberabit.

A verdade vos libertará.

Isso não é uma senha para abrir portas secretas. É um aviso severo: se você não for verdadeiro consigo mesmo, nenhum ritual o salvará. Acusam-nos de manter contato com “entidades superiores”, quando a primeira entidade da qual somos obrigados a nos afastar é justamente o nosso ego. Não somos chamados à submissão nem à obediência cega, mas à humildade e ao autocontrole.

Nesse sentido, realizamos verdadeiros “exorcismos” — não contra forças metafísicas obscuras, mas contra preconceitos, narcisismos, medos e ressentimentos profundamente enraizados. Sem ilusões. Apenas a verdade, muitas vezes incômoda.

 Vertical e horizontal: salvação ou responsabilidade?

A distinção é clara. A espiritualidade tradicional, sobretudo a cristã, é vertical: o homem ergue os olhos ao céu, espera a graça, implora redenção vinda do alto. A visão naturalista associada a certo tipo de Maçonaria é radicalmente horizontal: não há pecado original a ser apagado por intervenção divina, nem uma natureza humana corrompida que precise ser resgatada de fora.

O homem é visto como aperfeiçoável, não como miserável. Não como um santo decaído, mas como um canteiro de obras a céu aberto.

Como mulher, confesso que essa visão tem para mim um efeito libertador. Não sou “culpada por natureza”, nem preciso justificar minha existência. Sou um ser em caminho, com o dever — antes mesmo de qualquer direito — de me conhecer e de me aprimorar.

Nosce te ipsum.

Conhece-te a ti mesmo.

Isso não é um conselho gentil. É uma exigência. E a Maçonaria, quando vivida de modo autêntico, impede que desviemos o olhar sempre que nos confrontamos com o espelho interior.

Sim, quem escreve é uma mulher. Uma mulher maçom. Um paradoxo que ainda incomoda: avental, ritual e uma perspectiva feminina numa tradição por séculos expressa quase exclusivamente por vozes masculinas.

Quando entro no Templo, não levo fórmulas secretas para manipular o destino. Levo cansaço, dúvidas, erros recentes, alguma impaciência. Saio não com um talismã no bolso, mas com uma consciência mais aguda.

Se existe alguma “magia”, ela está em ver homens e mulheres reais, com limitações reais, reunidos na penumbra de um templo, tentando sinceramente se tornar melhores. Sem espetáculo. Apenas trabalho constante.

Oscar Wilde escreveu que a verdade raramente é pura e nunca é simples. Na Maçonaria sabemos disso melhor do que ninguém — sobretudo quando se trata da verdade sobre nós mesmos.

E eis o grande mal-entendido: o não iniciado procura mistério onde não existe e ignora aquilo que se revela diante de seus próprios olhos. O mistério não está no avental, no compasso ou na palavra latina sussurrada em silêncio.

O verdadeiro mistério é outro:

por que, numa era de gratificação instantânea, alguém escolheria entrar num lugar onde lhe pedem silêncio, trabalho interior, responsabilidade, aceitação de limites e confronto com as próprias sombras?

A virtude reside no meio.

Ao rejeitar o sobrenatural confortável e os monstros imaginários, a Maçonaria naturalista obriga o indivíduo a permanecer exatamente aí: entre o que ele é e o que pode vir a ser. Entre a natureza que o habita e a forma que deseja lhe dar.

Quem espera feitiços ficará decepcionado.

Quem aceita fazer perguntas descobrirá que o verdadeiro ritual não acontece fora, mas dentro.

E que, sim, a transformação interior é muitas vezes mais assustadora do que qualquer demônio inventado — sobretudo quando a entidade mais difícil de enfrentar somos nós mesmos.



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