Comecemos pelo ponto mais sensível de todos: o
cidadão comum.
Aquele que, ao descobrir que você é maçom, muda
subitamente de expressão — como se um simples arquear de sobrancelhas fosse
capaz de lançar uma maldição. Para ele, a Maçonaria é sinônimo de magia negra,
entidades ocultas, rituais proibidos e forças invisíveis em ação. Uma espécie
de plataforma de entretenimento esotérico, só que sem assinatura.
O paradoxo é que a realidade é quase o oposto.
A essência da tradição maçônica — especialmente em sua vertente latina — é
profundamente naturalista.
Nada de evocações sobrenaturais. Nenhum anjo
que desce, nenhum demônio que sobe, nenhum deus que suspende as leis do mundo
para intervir no destino humano. No centro está o homem: seu mundo interior,
suas contradições, suas sombras e sua capacidade inteiramente terrena de se
transformar. Aquilo que muitos chamam de “mistério” é, para nós, trabalho. Não
“magia” no sentido espetacular ou hollywoodiano, mas a transformação lenta e
concreta que os antigos chamavam de magnum opus: o labor sobre si mesmo.
Sem efeitos especiais. Apenas esforço, método e perseverança.
Os filósofos já advertiam:
Natura non facit saltus.
A natureza não dá saltos.
E tampouco os maçons.
Naturalismo: quando a natureza ocupa o lugar
do céu
Mas o que significa, afinal, esse
naturalismo maçônico?
Sem recorrer a tratados filosóficos, pode-se
resumir assim: a natureza é o grande livro aberto diante de nós; a razão é o
instrumento com que tentamos lê-lo; o homem não aguarda uma salvação vinda do
alto, mas trabalha para se aprimorar e, ao fazê-lo, melhorar a sociedade — aqui
e agora.
Nessa visão, o Grande Arquiteto do Universo não
é um deus intervencionista que pune ou recompensa, mas o princípio de ordem,
harmonia e proporção que estrutura o cosmos. Ele representa a lógica do mundo,
não uma figura antropomórfica nas nuvens. Trata-se de uma espiritualidade
horizontal: sem escadas celestes, sem mãos invisíveis puxando o homem para
cima. O homem permanece homem — mas um homem chamado a despertar para a
consciência.
Gosto de resumir dessa forma:
não somos deuses caídos; somos seres humanos
que ainda não concluíram o seu trabalho de autoconhecimento.
É por isso que, quando alguém pergunta com ar
desconfiado:
“Mas vocês, maçons, praticam rituais
mágicos?”
Sorrio. Porque, se por “mágica” a pessoa
entende desligar o celular, olhar para si mesma sem indulgência e admitir que
estava errada… então sim, fazemos magia. Uma magia difícil.
O que é curioso — ou trágico, dependendo do dia
— é que o naturalismo maçônico é constantemente mal interpretado. O uso de
símbolos, rituais, luzes e silêncio desperta imediatamente associações com
bruxaria. Na realidade, a Maçonaria está muito mais próxima dos antigos cultos
de mistério do que do ocultismo romantizado: Elêusis, os ritos de morte e
renascimento simbólicos, a ideia de que o homem pode ser transmutado
interiormente, como o chumbo em ouro. Não porque um deus o conduza pela mão,
mas porque ele aceita confrontar-se consigo mesmo.
Há uma frase que sempre me acompanha:
Homo homini faber.
O homem é o construtor do homem.
Eis o ponto central. O maçom não espera que o
céu faça por ele aquilo que ele se recusa a fazer por si mesmo. Não pede
milagres; pede ferramentas. Esquadro, compasso, nível, régua — todas maneiras
de dizer: “mede-te, observa-te, corrige-te, realinha-te”.
De fora, esse trabalho é romantizado como
“contato com entidades superiores”. A realidade é menos glamourosa — e muito
mais perturbadora: a entidade que devemos enfrentar somos nós mesmos.
O imaginário profano espera velas negras,
invocações em línguas esquecidas, presenças que se materializam. O que
encontramos, na maioria das vezes, são luzes rituais discretas, silêncios
densos como pedra e palavras antigas que não servem para comandar espíritos,
mas para nos lembrar de nossas raízes, da memória e da história.
Veritas vos liberabit.
A verdade vos libertará.
Isso não é uma senha para abrir portas
secretas. É um aviso severo: se você não for verdadeiro consigo mesmo, nenhum
ritual o salvará. Acusam-nos de manter contato com “entidades superiores”,
quando a primeira entidade da qual somos obrigados a nos afastar é justamente o
nosso ego. Não somos chamados à submissão nem à obediência cega, mas à
humildade e ao autocontrole.
Nesse sentido, realizamos verdadeiros
“exorcismos” — não contra forças metafísicas obscuras, mas contra preconceitos,
narcisismos, medos e ressentimentos profundamente enraizados. Sem ilusões.
Apenas a verdade, muitas vezes incômoda.
Vertical
e horizontal: salvação ou responsabilidade?
A distinção é clara. A espiritualidade
tradicional, sobretudo a cristã, é vertical: o homem ergue os olhos ao céu,
espera a graça, implora redenção vinda do alto. A visão naturalista associada a
certo tipo de Maçonaria é radicalmente horizontal: não há pecado original a ser
apagado por intervenção divina, nem uma natureza humana corrompida que precise
ser resgatada de fora.
O homem é visto como aperfeiçoável, não como
miserável. Não como um santo decaído, mas como um canteiro de obras a céu
aberto.
Como mulher, confesso que essa visão tem para
mim um efeito libertador. Não sou “culpada por natureza”, nem preciso
justificar minha existência. Sou um ser em caminho, com o dever — antes mesmo
de qualquer direito — de me conhecer e de me aprimorar.
Nosce te ipsum.
Conhece-te a ti mesmo.
Isso não é um conselho gentil. É uma exigência.
E a Maçonaria, quando vivida de modo autêntico, impede que desviemos o olhar
sempre que nos confrontamos com o espelho interior.
Sim, quem escreve é uma mulher. Uma mulher
maçom. Um paradoxo que ainda incomoda: avental, ritual e uma perspectiva
feminina numa tradição por séculos expressa quase exclusivamente por vozes
masculinas.
Quando entro no Templo, não levo fórmulas
secretas para manipular o destino. Levo cansaço, dúvidas, erros recentes,
alguma impaciência. Saio não com um talismã no bolso, mas com uma consciência
mais aguda.
Se existe alguma “magia”, ela está em ver
homens e mulheres reais, com limitações reais, reunidos na penumbra de um
templo, tentando sinceramente se tornar melhores. Sem espetáculo. Apenas
trabalho constante.
Oscar Wilde escreveu que a verdade raramente é
pura e nunca é simples. Na Maçonaria sabemos disso melhor do que ninguém —
sobretudo quando se trata da verdade sobre nós mesmos.
E eis o grande mal-entendido: o não iniciado
procura mistério onde não existe e ignora aquilo que se revela diante de seus
próprios olhos. O mistério não está no avental, no compasso ou na palavra
latina sussurrada em silêncio.
O verdadeiro mistério é outro:
por que, numa era de gratificação instantânea,
alguém escolheria entrar num lugar onde lhe pedem silêncio, trabalho interior,
responsabilidade, aceitação de limites e confronto com as próprias sombras?
A virtude reside no meio.
Ao rejeitar o sobrenatural confortável e os
monstros imaginários, a Maçonaria naturalista obriga o indivíduo a permanecer
exatamente aí: entre o que ele é e o que pode vir a ser. Entre a natureza que o
habita e a forma que deseja lhe dar.
Quem espera feitiços ficará decepcionado.
Quem aceita fazer perguntas descobrirá que o
verdadeiro ritual não acontece fora, mas dentro.
E que, sim, a transformação interior é muitas
vezes mais assustadora do que qualquer demônio inventado — sobretudo quando a
entidade mais difícil de enfrentar somos nós mesmos.







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