Da Redação
O que pensar dos maçons que falam
constantemente sobre os valores da Maçonaria, mas parecem esquecê-los na
prática?
A pergunta é incômoda — e exatamente por isso
precisa ser feita.
Entre a Virtude Proclamada e a Realidade Vivida
Em diferentes países, observa-se um fenômeno
recorrente: líderes e instituições que discursam sobre moralidade, justiça e
virtude, mas falham em resolver seus próprios problemas internos. No caso
francês, muitas críticas apontam para uma tendência de denunciar crises
externas enquanto se negligenciam as fragilidades domésticas.
Mas essa reflexão não deve permanecer restrita
à França. Ela pode — e talvez deva — ser adaptada ao contexto brasileiro.
No Brasil, vivemos tempos de intensa
polarização social e política. E, inevitavelmente, essa polarização atravessa
as portas dos templos maçônicos. Fala-se muito em liberdade, igualdade,
fraternidade e tolerância. Contudo, quantas vezes esses princípios são
verdadeiramente praticados no cotidiano das lojas?
Rumores, Vaidades e Conspirações Internas
Não é raro encontrar:
disputas
veladas por cargos;
rivalidades entre irmãos;
campanhas silenciosas contra este ou aquele
dirigente;
renúncias sucessivas;
desmotivação crescente.
Enquanto isso, discute-se a crise da sociedade,
critica-se o cenário político nacional, condenam-se as falhas das instituições
públicas — mas pouco se faz para corrigir as próprias incoerências internas.
O problema não está apenas nos conflitos. O
problema está na incapacidade de autocrítica.
A Crise de Recrutamento e Permanência
Grandes Orientes e Grandes Lojas brasileiras
também enfrentam dificuldades para atrair e manter novos membros. Jovens
ingressam, mas muitos se afastam poucos anos depois.
Pergunta inevitável:
Por quê?
Será apenas falta de interesse das novas
gerações? Ou há uma desconexão entre o discurso iniciático e a vivência
prática?
Se o ritual é executado mecanicamente, se os
cargos se tornam troféus pessoais, se a fraternidade é seletiva e a tolerância
tem limites ideológicos bem definidos, a Maçonaria deixa de ser uma escola de
virtudes e se transforma em um clube social — ou pior, em um espaço de disputa
de poder.
Igualdade: Mito ou Realidade?
Historicamente, a Maçonaria europeia conviveu
com privilégios sociais, distinções aristocráticas e influências políticas. No
Brasil, embora não haja nobreza formal, ainda se observam distinções
implícitas:
Lojas
formadas por grupos profissionais específicos;
Redes de
influência política;
Aproximação entre maçonaria e poder público;
Estruturas hierárquicas onde o status externo
pesa mais que a vivência interna.
Pergunta-se: a igualdade é um valor praticado
ou apenas declamado?
Fraternidade Condicional
Fraternidade não é cordialidade superficial.
Não é apertar a mão dentro do templo e ignorar o irmão fora dele. Não é
defender a liberdade apenas quando o pensamento alheio coincide com o próprio.
A verdadeira fraternidade exige:
capacidade de ouvir;
disposição ao diálogo;
humildade para reconhecer erros;
maturidade para conviver com divergências.
Sem isso, a iniciação perde seu sentido
transformador.
Tolerância: A Virtude Invisível
A tolerância é frequentemente evocada, mas
raramente vivida em profundidade. Em tempos de radicalização política no
Brasil, muitos irmãos se alinham firmemente a ideologias específicas. Isso não
é problema em si. O problema surge quando o contraditório é visto como ameaça,
não como oportunidade de crescimento.
A frase atribuída a Voltaire resume o ideal
iluminista:
“Posso não concordar com uma palavra do
que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la.”
Quantos maçons brasileiros estariam dispostos a
agir assim hoje?
Cargos, Ambições e Conformismo
Outro ponto sensível é a busca por dignidades e
títulos. O exercício de um cargo deveria significar serviço. No entanto, em
alguns casos, torna-se objetivo final.
Uma vez alcançada a função almejada, instala-se
o conformismo:
Não se
muda o que está errado;
Não se
inovam métodos;
Não se
enfrentam problemas estruturais;
Mantém-se o status quo.
Enquanto isso, a evasão continua, o entusiasmo
diminui e a Ordem envelhece.
A Pergunta Essencial
Se a Maçonaria se define como escola de
aperfeiçoamento moral, então a incoerência entre discurso e prática não é
apenas falha administrativa — é crise identitária.
A questão central não é política, nem social,
nem religiosa.
É ética.
A Maçonaria sobreviverá no Brasil não por seus
títulos históricos, nem por sua influência passada, mas por sua capacidade de
viver concretamente aquilo que ensina simbolicamente.
Um Convite à Autocrítica
Este texto não pretende condenar, mas provocar
reflexão.
Talvez o verdadeiro trabalho iniciático hoje
não esteja em reformar o mundo externo, mas em restaurar a coerência interna.
Menos
discurso.
Mais
prática.
Menos
vaidade.
Mais
serviço.
Menos
rivalidade.
Mais
fraternidade real.
Se a Maçonaria brasileira quiser permanecer
relevante no século XXI, precisará revisitar seus fundamentos e perguntar-se,
com honestidade:
Estamos formando homens melhores — ou apenas
repetindo palavras antigas?
Se esta reflexão lhe inspirar, amplie-a,
aprofunde-a, acrescente exemplos históricos brasileiros, dialogue com a
realidade de sua Obediência. A crítica construtiva é, talvez, o primeiro passo
para a regeneração.
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