4 de Fevereiro de 1935: Quando Fernando Pessoa Desafiou o Regime Pela Maçonaria


Pesquisa e Edição: Luiz Sérgio Castro

Em 4 de fevereiro de 1935, as páginas do jornal Diário de Lisboa estamparam uma das mais contundentes e inesperadas defesas da liberdade de associação da história de Portugal. O autor? Fernando Pessoa, o poeta dos heterônimos, que, embora nunca tenha vestido o avental maçônico, sentiu o dever ético e intelectual de erguer sua voz contra a intolerância do Estado Novo.

 O Contexto: As Sombras do Totalitarismo

Portugal vivia sob a égide de Oliveira Salazar. O regime preparava o terreno para a Lei n.º 1901, que visava proibir as chamadas "sociedades secretas". O alvo principal era a Maçonaria, vista pelo regime como um reduto de pensamento liberal, republicano e, portanto, perigoso à estabilidade da ditadura.

Foi nesse cenário de repressão iminente que Pessoa publicou o artigo intitulado simplesmente "A Maçonaria".

A Defesa de um "Não-Maçom"

Pessoa começa o texto com uma honestidade desarmante: declara-se expressamente não-maçom. No entanto, sua defesa não era por afinidade ritualística, mas por um imperativo de justiça e cultura.

Os principais pilares do argumento de Pessoa foram:

 A Maçonaria como Instituição Civilizadora: Pessoa argumentou que a Ordem não era uma conspiração política, mas uma escola de fraternidade e espiritualidade que contribuiu imensamente para a formação da civilização ocidental.

 O Erro da Intolerância: Para o poeta, proibir a Maçonaria era um ato de "ignorância agressiva". Ele via na perseguição uma tentativa do Estado de esmagar a individualidade e o livre-pensamento.

 Conexão Espiritual: Sendo um profundo estudioso do esoterismo, Pessoa compreendia a linguagem simbólica da Maçonaria melhor do que muitos iniciados. Ele defendia que o "segredo" maçônico não era um crime oculto, mas uma dimensão da busca humana pela verdade.

 O Triste Desfecho de 1935

A "brilhante defesa" de Pessoa, embora tenha ecoado nos círculos intelectuais e causado desconforto no governo, não foi suficiente para deter a máquina legislativa de Salazar.

A cronologia daquele ano foi implacável:

1. 4 de Fevereiro: Publicação do artigo de Pessoa.

2. Maio de 1935: A Lei n.º 1901 é oficialmente promulgada.

3. Consequência: A Maçonaria e outras ordens (como a Carbonária) foram postas na ilegalidade. Suas sedes foram fechadas, seus bens confiscados e seus membros vigiados pela polícia política (PIDE).

 O Legado do Gesto

Fernando Pessoa faleceria pouco depois, em novembro do mesmo ano, deixando esse artigo como um de seus últimos grandes atos públicos. A defesa da Maçonaria por um "estranho à Ordem" permanece até hoje como um símbolo de que a liberdade de consciência é um valor universal, que deve ser defendido mesmo por aqueles que não pertencem ao grupo atacado.

 "A Maçonaria é uma instituição que, através dos tempos, tem mantido acesa a chama da fraternidade e do aperfeiçoamento humano." — Um sentimento que Pessoa imortalizou em prosa, antes que o silêncio da censura caísse sobre Portugal por quase quatro décadas.


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