Um episódio histórico que revelou o choque entre o totalitarismo fascista e os princípios da liberdade iniciática.
Introdução
O século XX assistiu à ascensão de regimes totalitários que buscaram controlar não apenas o Estado, mas também as organizações civis, culturais e filosóficas. Entre esses regimes, o fascismo italiano, liderado por Benito Mussolini, destacou-se por sua hostilidade às instituições independentes, especialmente à Maçonaria.
Em 23 de fevereiro de 1923, ocorreu um dos episódios mais emblemáticos dessa perseguição, quando o regime fascista determinou que seus membros deveriam escolher entre o Partido Fascista e a Maçonaria.
O decreto fascista de 23 de fevereiro de 1923
Naquela data, o Conselho Fascista decidiu que todos os fascistas que fossem maçons teriam que escolher entre o Fascismo e a Maçonaria. A medida tinha caráter político e ideológico, pois Mussolini considerava a Ordem uma organização autônoma e potencialmente subversiva ao controle do Estado totalitário.
O fascismo não admitia lealdades paralelas. Para o regime, qualquer instituição que cultivasse pensamento crítico, internacionalismo e liberdade de consciência era vista como ameaça.
A resposta do Grande Oriente da Itália
O Grande Oriente da Itália respondeu com firmeza e serenidade. Declarou que os maçons que fossem fascistas teriam total liberdade para deixar a Ordem, afirmando que tal atitude estaria de acordo com o amor à pátria, valor fundamental ensinado nas Lojas.
A posição maçônica buscava evitar conflitos diretos, preservando o princípio da liberdade de consciência individual e a fraternidade entre os irmãos.
Renúncias e início da violência
Após o decreto, muitos maçons renunciaram à Ordem, seja por convicção política, seja por medo de represálias. Entretanto, a decisão não encerrou a hostilidade do regime. Pelo contrário, iniciou-se um período de intensa violência contra a Maçonaria.
- Lojas foram atacadas e fechadas;
- Propriedades maçônicas foram destruídas;
- Maçons foram perseguidos, intimidados e marginalizados.
A Maçonaria passou a ser vista como inimiga do Estado fascista, por representar um espaço de pensamento independente e pluralismo intelectual.
O apelo do Grão-Mestre Torrigiani
O Grão-Mestre Domizio Torrigiani tentou alertar Mussolini sobre a violência e a injustiça da perseguição. Sua tentativa de diálogo, porém, foi ignorada pelo regime.
Em agosto de 1924, Mussolini declarou que os fascistas deveriam descobrir os nomes de todos os maçons que não estivessem de acordo com o governo fascista, estimulando a vigilância, a denúncia e a repressão sistemática.
Fascismo e Maçonaria: choque de princípios
O conflito entre fascismo e Maçonaria foi mais do que político; foi filosófico e simbólico.
- O Fascismo defendia o Estado total, a obediência absoluta e o culto ao líder.
- A Maçonaria defendia a liberdade de consciência, o aperfeiçoamento moral do indivíduo e a fraternidade universal.
Esses princípios eram incompatíveis. Onde o fascismo exigia submissão, a Maçonaria ensinava autonomia moral e pensamento crítico.
Conclusão
O episódio de 23 de fevereiro de 1923 tornou-se um marco da repressão fascista contra a Maçonaria na Itália. A perseguição não foi apenas contra uma instituição, mas contra a liberdade intelectual e a autonomia da sociedade civil.
A história demonstra que regimes autoritários temem organizações que cultivam pensamento livre e valores universais. A perseguição à Maçonaria sob Mussolini permanece como um alerta histórico sobre os perigos do totalitarismo.
“Quando o Estado exige fidelidade absoluta, toda fraternidade independente torna-se suspeita; e quando o pensamento livre é perseguido, a própria civilização está em risco.”
Artigo histórico • © Luiz Castro

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