Edição: Luiz Sergio Castro
Durante mais de três séculos, a Maçonaria
construiu seu prestígio sobre pilares bem definidos: discrição, rituais
reservados e um sistema de convites que fazia do ingresso um gesto silencioso e
quase honorífico. Na Inglaterra e no País de Gales, não se “batia à porta” de
uma loja maçônica; era preciso ser observado, avaliado e, então, discretamente
acolhido. Esse universo, porém, está se desfazendo rapidamente — e os números
contam a história.
Em 2008, a Maçonaria britânica reunia cerca de
225 mil membros. Hoje, esse contingente encolheu para aproximadamente 170 mil.
Em menos de duas décadas, quase um quarto dos maçons desapareceu. Diante dessa
erosão contínua, a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) decidiu adotar uma
estratégia que teria escandalizado gerações anteriores: fazer publicidade.
Desde 2021, campanhas de recrutamento no
Facebook passaram a integrar o plano de sobrevivência da instituição. A
primeira investida digital trouxe cerca de mil novos membros e conseguiu, ainda
que temporariamente, estancar a queda. Animada pelos resultados, a UGLE repetiu
a experiência no ano seguinte e, agora, lançou uma nova rodada de anúncios.
Segundo reportagem recente do The
Telegraph, pelo menos oito lojas, em diferentes regiões, pagam por
publicidade online desde o início de dezembro.
O tom das mensagens representa uma ruptura
simbólica com os costumes maçônicos. Em vez da espera silenciosa por um
convite, os potenciais candidatos são encorajados a se apresentar
espontaneamente. Uma loja em Buckinghamshire anuncia: “A porta está aberta… não
espere ser convidado”. Outras são ainda mais diretas: “Junte-se aos Maçons”,
“Seja algo incrível”, “Torne-se parte de uma irmandade”. Em West Sussex, uma
loja se promove como clube social: “Procurando um novo círculo de amigos? A
Loja Fiscian adoraria conhecê-lo(a)”.
Para Adrian Marsh, secretário da Grande Loja
Unida da Inglaterra, o objetivo é reformular a imagem da Maçonaria para um
público cada vez mais cético. Em entrevista ao The Telegraph, ele afirmou que as campanhas
procuram apresentá-la como “agradável, tradicional, divertida” e singularmente
capaz de oferecer “um ambiente completamente inclusivo, apolítico e laico, onde
os indivíduos são tratados igualmente, independentemente de raça, religião,
sexualidade ou origem social”.
Ainda assim, a pergunta permanece inevitável:
se a Maçonaria é tudo isso, por que está encolhendo de forma tão acentuada?
Parte da resposta está em transformações
sociais mais amplas. Em todo o Ocidente, associações voluntárias — de igrejas a
clubes esportivos — enfrentam dificuldades para atrair compromissos de longo
prazo. Gerações mais jovens mostram-se menos dispostas a ingressar em
organizações formais, sobretudo aquelas que exigem frequência regular e
lealdade vitalícia.
Mas a Maçonaria enfrenta um desafio adicional e
mais específico: o colapso do sigilo. Durante séculos, a promessa de
conhecimento reservado e de redes privilegiadas sustentou o fascínio das lojas.
Essa aura, contudo, se dissipou na era do Google. O historiador John Dickie,
autor de um influente estudo sobre a Maçonaria na história moderna, afirmou à
NPR que o sigilo “perdeu muito de sua aura”. Quando qualquer pessoa pode
conhecer os fundamentos dos rituais maçônicos em poucos minutos online, a
sensação de ingresso em um mundo fechado deixa de existir.
O episódio ocorrido no final de 2023 ilustra
bem esse processo: uma cerimônia de iniciação maçônica filmada secretamente no
Arizona viralizou nas redes. Paralelamente, memórias de ex-maçons, como Por que deixei a Maçonaria,
de Serge Abad-Gallardo, e Eu
era maçom, de Maurice Caillet, encontraram amplo público. Ambos
relatam terem sido atraídos pela ideia de conhecimento elitista e apoio mútuo
discreto, apenas para descobrir que o “segredo” frequentemente se reduzia a
algo mais prosaico: compreender quem exerce influência sobre quem.
Essa rede de relações, antes envolta em
silêncio, está agora sob escrutínio inédito na Grã-Bretanha. Em dezembro, a
Polícia Metropolitana de Londres determinou que agentes e funcionários
declarassem qualquer filiação, passada ou presente, a organizações hierárquicas,
confidenciais e baseadas em apoio mútuo — uma descrição amplamente interpretada
como referência à Maçonaria. A medida veio após anos de controvérsias internas
envolvendo suspeitas de favoritismo em promoções e alegações de interferência
em investigações. Até o momento, 316 membros da corporação revelaram suas
ligações com lojas maçônicas.
A UGLE tenta barrar a política por meio de
ações judiciais, argumentando que a divulgação sempre foi aceita quando
voluntária e que a obrigatoriedade violaria convenções de direitos humanos.
Críticos, contudo, sustentam que sem transparência a confiança pública nas
forças de segurança não pode ser restaurada. Para alguns observadores, esse
embate toca o cerne da crise de recrutamento: se o sigilo deixa de proteger a
influência — ou passa a gerar suspeitas —, um dos incentivos tradicionais para
ingressar discretamente simplesmente desaparece.
Nesse cenário, a postura da Igreja Católica
surge como um contraste notável de continuidade. Desde 1738, com a encíclica In eminenti apostolatus do
papa Clemente XII, os católicos estão proibidos de ingressar na Maçonaria.
Papas posteriores reafirmaram a condenação, como Leão XIII em Humanum Genus (1884), que
advertiu sobre a tentativa de minar os fundamentos cristãos da ordem social, e
Bento XIV em Providas
Romanorum (1751), que criticou o sigilo e os juramentos
vinculantes. Em 1983, a Congregação para a Doutrina da Fé, então liderada pelo
cardeal Joseph Ratzinger — futuro papa Bento XVI —, declarou que o juízo
negativo da Igreja “permanece inalterado”. Em 15 de novembro de 2023, o
Dicastério para a Doutrina da Fé reiterou que católicos não podem ser maçons e
alertou pastores para um aparente aumento do interesse pela instituição entre
os fiéis.
Enquanto a Maçonaria experimenta anúncios no
Facebook e slogans de “portas abertas”, a Igreja mantém uma linha doutrinária
firme há quase três séculos. A ironia é evidente: uma organização outrora
definida pelo silêncio e pela iniciação seletiva agora disputa atenção no
mercado digital, vendendo a irmandade como mais uma opção de estilo de vida.
Resta saber se essa reinvenção será suficiente
para reverter a queda de 25% no número de membros. O que já está claro é que a
Maçonaria britânica não atua mais nas sombras. E, ao se expor à luz, talvez
descubra que aquilo que foi seu maior trunfo — o mistério — transformou-se,
paradoxalmente, em sua maior fragilidade.
Fonte: ZENIT News – Londres, 27 de
janeiro de 2026



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