Igreja, Estado e Maçonaria no Norte do Paraná

 


 O Caso da Loja Aristides Lobo (1929–1931)

  Um episódio pouco conhecido da história maçônica paranaense

A história da Maçonaria no interior do Paraná, especialmente no Norte Pioneiro, é marcada não apenas por iniciativas filantrópicas e educativas, mas também por momentos de forte tensão social e religiosa. Um desses episódios, ocorrido entre os anos de 1929 e 1931, envolveu diretamente a Loja Maçônica Aristides Lobo, sediada em Jacarezinho (PR), e a atuação do então bispo diocesano Dom Fernando Taddei.

Pressões externas e o uso do púlpito

No ano de 1929, conforme registros maçônicos preservados em documentos internos, Dom Fernando Taddei teria recebido uma vultuosa soma de recursos concedidos pelo Estado, fato que, segundo a interpretação dos irmãos da época, não teria sido suficiente para satisfazer sua postura combativa diante da Maçonaria local.

Utilizando-se do púlpito como instrumento de influência moral e social, o bispo passou a pressionar diretamente os maçons de Jacarezinho, atingindo principalmente seus familiares, num contexto em que a Igreja exercia enorme poder sobre a vida comunitária. O objetivo implícito dessas ações seria a desativação da Loja Aristides Lobo, considerada indesejável pela hierarquia eclesiástica local.

O registro histórico de 21 de janeiro de 1929

Esse clima de perseguição não passou despercebido pelas Lojas da região. Em 21 de janeiro de 1929, o episódio foi comentado e oficialmente registrado no Livro de Atas da Loja Luz Invisível nº 749, onde consta a preocupação com a situação enfrentada pela Aristides Lobo.

O documento afirma, em síntese, que a Loja não poderia continuar sendo vítima das pressões exercidas pelo Bispo Taddei e que era necessário “reerguer suas colunas”, expressão simbólica que, no vocabulário maçônico, representa a retomada da força, da regularidade e da dignidade institucional.

A tentativa de reerguimento das colunas

Como consequência desse posicionamento fraterno e solidário, houve uma tentativa concreta de reorganização da Loja Aristides Lobo, efetivada em 25 de maio de 1930. O esforço visava restaurar os trabalhos, fortalecer o quadro de irmãos e preservar a presença maçônica em Jacarezinho diante das adversidades externas.

Entretanto, o ambiente social ainda era hostil, e as pressões — diretas e indiretas — continuavam a surtir efeito.

O esvaziamento e o adormecimento da Loja

Menos de um ano depois, em 8 de maio de 1931, uma circular emitida pela própria Loja comunicava que estava ocorrendo um processo de esvaziamento, com diminuição significativa da participação dos irmãos nos trabalhos.

Esse declínio não pode ser compreendido apenas como um fenômeno interno. Ele reflete, sobretudo, a ação de forças externas, religiosas e sociais, capazes de influenciar consciências, gerar medo, constrangimento e, por fim, conduzir ao adormecimento temporário de uma Loja regularmente constituída.

Considerações finais

O caso da Loja Aristides Lobo ilustra, de forma clara, as dificuldades enfrentadas pela Maçonaria brasileira no início do século XX, especialmente em regiões onde a Igreja Católica detinha forte hegemonia moral e social.

Mais do que um conflito institucional, trata-se de um episódio que revela como pressões ideológicas e religiosas podem interferir diretamente na vida de homens livres e de suas organizações, comprometendo a continuidade de trabalhos voltados ao aperfeiçoamento moral, intelectual e social.

Resgatar esse tipo de memória não tem o objetivo de reabrir feridas, mas sim de compreender o passado, valorizar a resiliência dos irmãos e reafirmar que o adormecimento de uma Loja, muitas vezes, não decorre de fraqueza interna, mas da atuação silenciosa de forças alheias aos princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

 

Postar um comentário

0 Comentários