26 de Janeiro - 100 anos do Dia em que a Televisão Nasceu


Pesquisa e Edição

Luiz Sérgio Castro

Há exatos cem anos, em janeiro de 1926, um pequeno laboratório no bairro do Soho, em Londres, tornou-se palco de um dos momentos mais decisivos da história da comunicação. Ali, o inventor escocês John Logie Baird realizou a primeira demonstração pública do que pode ser considerado uma verdadeira televisão. Poucas dezenas de pessoas presenciaram o evento, mas o que foi visto naquele dia mudou para sempre a relação da humanidade com a imagem e a informação.

Hoje, no século XXI, a televisão está tão integrada ao cotidiano que parece impossível imaginar a vida sem ela. No entanto, até o início do século XX, a ideia de transmitir imagens em movimento à distância soava excessivamente ambiciosa — quase fantasiosa. Foi Baird quem mostrou, na prática, que esse sonho era tecnicamente possível.

Um invento improvável que abriu caminho para a TV

O aparelho apresentado por Baird em janeiro de 1926 parecia mais um engenhoso quebra-cabeça do que um eletrodoméstico moderno. Era formado por componentes simples, muitos deles já conhecidos da ciência da época. Entre essas peças, uma se destacou como fundamental: o disco de Nipkow.

Patenteado na década de 1880 pelo engenheiro alemão Paul Nipkow, o disco perfurado girava rapidamente, captando a imagem linha por linha e permitindo sua transmissão eletrônica. Baird teve a visão de integrar esse dispositivo ao seu projeto, criando o que chamou de “Televisor” — um precursor direto da televisão.

Nascido em agosto de 1888, na cidade escocesa de Helensburgh, Baird mudou-se para o sudoeste da Inglaterra já adulto. Em meados da década de 1920, mantinha um laboratório em Londres, onde se dedicava intensamente a experimentos e aperfeiçoamentos técnicos. Além da televisão, ele também foi responsável por invenções curiosas, como uma lâmina de barbear de vidro, meias térmicas e até um sistema que lembrava um radar primitivo, supostamente utilizado durante a Segunda Guerra Mundial.

Preparando a televisão para o grande público

Antes da histórica demonstração de 1926, Baird já vinha chamando atenção. No início de 1925, apresentou sua tecnologia na famosa loja de departamentos Selfridges, em Londres, exibindo silhuetas em movimento captadas por seu sistema. Meses depois, conseguiu transmitir uma imagem mais detalhada em tons de cinza: a cabeça de um boneco de ventríloquo.

O desafio seguinte era ainda maior: transmitir a imagem de um ser humano com qualidade aceitável. Para isso, Baird contou com a ajuda de um jovem funcionário de escritório de 20 anos, William Edward Taynton, que se tornou o primeiro “rosto humano” da história da televisão.

Esses experimentos ocorreram no laboratório instalado no sótão do número 22 da Frith Street, no Soho. Hoje, o endereço abriga o famoso café Bar Italia, mas uma placa azul na fachada lembra os visitantes de que ali nasceu a televisão.

26 de janeiro de 1926: a TV se torna realidade

Embora já tivesse feito demonstrações públicas na Selfridges, foi em 26 de janeiro de 1926 que ocorreu a primeira exibição pública de imagens televisivas propriamente ditas. Naquele dia, Baird reuniu membros da Royal Institution em seu laboratório no Soho para apresentar os avanços alcançados. Um repórter do jornal The Times também esteve presente.

A reportagem publicada dias depois descreveu a experiência com cautela. Segundo o jornal, a imagem transmitida — novamente utilizando a cabeça de um boneco — era fraca e frequentemente desfocada. Ainda assim, os observadores conseguiram perceber os movimentos da cabeça e até associar a imagem à voz de uma pessoa falando. Para a época, isso era extraordinário.

O legado de John Logie Baird

O jornalista do The Times escreveu que ainda era cedo para saber até onde o sistema de Baird poderia chegar em termos de uso prático. O tempo, porém, mostrou que aquela experiência foi um divisor de águas. A tecnologia mecânica desenvolvida por Baird garantiu-lhe, ainda na década de 1920, um contrato com a BBC, permitindo transmissões experimentais.

No fim da década de 1930, a emissora optou por abandonar o sistema mecânico em favor de um modelo totalmente eletrônico, desenvolvido pela Marconi-EMI, mais eficiente e moderno. Mesmo assim, o papel pioneiro de Baird jamais foi apagado.

John Logie Baird faleceu em 14 de junho de 1946, mas seu nome permanece ligado a um feito essencial: ele provou que a televisão não era uma utopia. Cem anos depois, ao olharmos para telas cada vez mais sofisticadas, interativas e digitais, vale lembrar que tudo começou com imagens tremidas, desfocadas e surpreendentes — vistas por alguns poucos curiosos em um sótão londrino.



 

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