21 de Janeiro: Luís XVI na Guilhotina — Conspiração Maçônica ou Necessidade de um Bode Expiatório?

 



Por Alexandre Jones

Há mortes que nunca deixam de morrer. A execução de Luís XVI, em 21 de janeiro de 1793, é um desses eventos que permanecem vivos no imaginário coletivo. Mais do que um fato histórico, a queda do "Rei Capeto" tornou-se um campo de batalha entre a realidade dos fatos e a sedução dos mitos.

Quando um evento é demasiado público e traumático, o ser humano tende a buscar explicações ocultas. Afinal, como explicar a queda de uma monarquia milenar apenas por crises políticas? É aqui que entram duas forças poderosas: a conspiração e a maldição.

 O Que Dizem os Fatos: A Máquina Pública da Revolução

Ao contrário do que sugerem as teorias de bastidores, a morte de Luís XVI não foi uma execução clandestina. Foi um processo institucional meticulosamente documentado.

 Votação Nominal: Em 15 de janeiro de 1793, os deputados da Convenção votaram publicamente, em voz alta. Cada um assumiu sua responsabilidade perante a Nação.

 Contexto de Guerra: O medo da invasão estrangeira e a radicalização das ruas foram os motores reais, e não uma ordem secreta vinda de um porão escuro.

A teoria da conspiração prospéra justamente quando apaga o peso da realidade e substitui a complexidade política por uma agenda única e invisível.

 A Invenção do Mito Maçônico

A ideia de que a Maçonaria articulou a Revolução Francesa foi uma construção deliberada, dividida em duas etapas principais:

 1. O Panfleto como Arma (1791–1792)

O Abade François Lefranc publicou "O Véu Levantado para os Curiosos", onde afirmava que a Revolução era um segredo e a Maçonaria a chave. Para ele, se o mundo estava subvertido, era necessário um instigador oculto. A Maçonaria, com seus rituais e silêncios, era o bode expiatório perfeito.

 2. A Estrutura Teórica de Barruel (1797–1799)

Anos depois, o jesuíta Augustin Barruel transformou boatos em um sistema filosófico. Em suas obras, ele conectou filósofos, Illuminati e Jacobinos em uma narrativa única: uma campanha clandestina contra o altar e o trono. Foi aqui que nasceu a narrativa moderna de conspiração.

 Por que a Maçonaria se tornou o alvo?

A resposta é simples: pelo seu vocabulário. Juramentos, sinais e segredos iniciáticos foram confundidos com segredos políticos. No entanto, os arquivos históricos não mostram uma "cadeia de comando" maçônica; mostram, sim, uma soberania revolucionária exercida à luz do dia.

 O Contraponto Templário: Quando a História vira Parábola

Quando a conspiração não basta para explicar o trauma, recorre-se à metafísica. Surge então o mito da Maldição dos Templários.

Diz a lenda que Jacques de Molay, o último Grão-Mestre templário, ao ser queimado em 1314, convocou o Rei e o Papa ao tribunal de Deus. A morte de ambos no mesmo ano selou o mito. Séculos depois, tentou-se ligar o regicídio de 1793 a uma vingança tardia contra a linhagem de Filipe, o Belo.

 "A conspiração diz: alguém queria isso. A maldição diz: alguma coisa tinha que acontecer."

Conclusão: Entre Rituais e Realidades

A morte de Luís XVI é explicada pela política, mas sentida através do mito. Enquanto os historiadores reafirmam os fatos, a cultura popular criou seus próprios rituais, como o curioso banquete da "cabeça de bezerro", que até hoje ironiza o destino do monarca.

Seja por uma suposta conspiração ou por uma maldição ancestral, o 21 de janeiro nos lembra que a mente humana prefere histórias com culpados definidos e destinos selados. É mais fácil digerir uma lenda do que aceitar o caos da história.

Gostou dessa reflexão histórica? Compartilhe sua opinião nos comentários: você acredita que a história é feita de processos claros ou que sempre há algo oculto sob o véu?

 

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