Reformar os Deuses? E a Maçonaria?


Da Redação

Na interseção entre o esoterismo, a teologia e a filosofia iniciática, a expressão “reformar os deuses” surge como uma provocação inquietante. Durante um grupo de estudo sobre um livro esotérico, a autora Kristine Wilson-Slack se depara com essa frase que, à primeira vista, soa como uma ousadia — talvez até uma blasfêmia. Afinal, seria mesmo possível que os homens reformassem seus deuses? E o que essa ideia tem a ver com a Maçonaria?

Essa provocação nos conduz por caminhos profundos de reflexão sobre o papel da linguagem, da cultura, da espiritualidade e da própria Maçonaria num mundo em constante transformação.

A Arrogância de Reformar os Deuses?

O verbo “reformar” implica desmontar algo até seus componentes básicos e reestruturá-lo sob uma nova forma. Aplicado a deuses — ou à ideia de Deus — isso soa como uma tentativa humana de moldar o divino à sua imagem, e não o contrário. Isso levanta uma questão fundamental: será que a humanidade busca uma divindade que a transforme ou uma divindade que a confirme em seus desejos e ideologias?

Talvez, como Kristine sugere, não estejamos reformando os deuses verdadeiramente, mas apenas os recobrindo com as roupagens de nossas próprias paixões, intolerâncias e ambições. O fanatismo religioso, por exemplo, é um reflexo disso: não uma evolução espiritual, mas a amplificação do ego coletivo, onde o “meu Deus” se opõe ao “teu”, e a compaixão é sacrificada no altar da doutrina.

Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, nos alerta sobre essa distorção: a expansão do ego por meio de cultos tribais e missionários transforma o amor em ódio quando o "outro" é excluído da esfera de proteção do deus local. Assim, ao invés de purificar o próprio coração, o fanático tenta purificar o mundo. O resultado é o divórcio entre amor e verdade.

Teologia, Linguagem e Cultura: Tudo Evolui

Se a biologia e a cultura evoluem, por que a teologia não o faria? A linguagem com que falamos sobre o divino precisa acompanhar a compreensão crescente que temos do universo, da moral e de nós mesmos. Mas há uma diferença entre evolução e deturpação.

A evolução espiritual saudável implica abertura, não ruptura. Trata-se de aprofundar, não substituir; de integrar novos entendimentos sem trair a essência do que é verdadeiro. Quando reformamos os deuses, corremos o risco de construir ídolos do nosso próprio ego — espelhos disfarçados de divindade.

E a Maçonaria?

A Maçonaria, enquanto instituição iniciática, enfrenta esse mesmo dilema. De um lado, conserva rituais milenares, símbolos que resistiram ao tempo e uma tradição que se orgulha de sua antiguidade. De outro, vive num mundo em ebulição cultural, onde a tecnologia, a diversidade e os novos paradigmas exigem flexibilidade e adaptação.

A pandemia da COVID-19 acelerou esse processo. Algumas lojas fecharam suas portas, outras migraram para o espaço virtual. Sessões de estudo passaram a ser feitas online, surgiram podcasts, e até rituais simplificados foram utilizados para manter a chama acesa. Isso é uma traição aos antigos landmarks? Ou é um gesto de sabedoria e resiliência?

A autora é clara: isso não é reformar os deuses. Não é negar a Tradição, mas permitir que ela respire. A Maçonaria que se adapta ao tempo não está rompendo com o passado, mas honrando-o ao garantir que seus princípios não morram soterrados pela poeira do dogma. Afinal, como bem coloca Campbell, Deus é amor, e todos são seus filhos — sem exceção.

Uma Nova Maçonaria Crescendo ao Sol

Entre as raízes da velha Maçonaria e os brotos da nova, há uma ponte. Essa ponte é feita de símbolos, diálogo, espírito fraterno e abertura. A nova Maçonaria não pode se dar ao luxo de ignorar o mundo. Ela deve emergir das profundezas do templo e olhar para o sol — isto é, para a Luz — que simboliza o conhecimento, a verdade e a vida.

Essa Maçonaria renovada, mas não reformada em essência, deve se abrir à diversidade, à inclusão e à igualdade. Não se trata de modificar o ritual sagrado, mas de permitir que ele toque mentes e corações em diferentes contextos. A espiritualidade maçônica deve ser como a chama de uma vela: firme, mas capaz de se mover com o vento sem se apagar.

Conclusão

Reformar os deuses? Talvez não seja esse o caminho. O que precisamos é reformar nossas interpretações, purificar nossos corações, renovar nosso olhar e, como maçons, manter vivo o espírito da busca pela Luz — não a de um dogma fechado, mas a de uma sabedoria viva e luminosa.

A Maçonaria, como toda grande tradição, precisa crescer ou morrer. E crescer, aqui, significa adaptar-se sem perder sua alma. Significa sair das catacumbas do tradicionalismo cego e florescer no mundo como uma árvore de sabedoria, cujas raízes estão no passado, mas cujos frutos alimentam o presente — e o futuro.


Por Luiz Sérgio Castro, baseado em texto de Kristine Wilson-Slack

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