Por João Anatalino
A lenda da Palavra Perdida
A Lenda da Palavra Perdida é
uma alegoria cabalística, provavelmente criada pelos autores gnósticos dos
primeiros séculos da era cristã. Ela tem como tema central a crença no poder do
Nome Sagrado de Deus e que este era um segredo iniciático da maior relevância.
Embora os sacerdotes da religião judaica já trabalhassem com esse tema desde os
primórdios da adoção do Javismo como religião nacional, foi, entretanto, com o
entrelaçamento das crenças judaicas com a filosofia grega, que o tema ganhou
maior relevância e passou a integrar o conjunto das alegorias que davam corpo á
doutrina que nós hoje conhecemos como gnosticismo.
Na Maçonaria o simbolismo que
envolve o Inefável Nome de Deus é um tema de grande importância iniciática. De
uma forma geral, os maçons adotaram a tradição cabalística de que o verdadeiro
significado desse Nome é um segredo guardado a sete chaves pelos Mestres da
sabedoria arcana. Assim, os ritos maçônicos trabalham com a ideia de que os
sons vocálicos originais do Tetragrama YHVH são interditos ao vulgo, e a
pronúncia correta dessa palavra está confinada á sabedoria de muitos poucos
escolhidos.
Essa ideia está expressa na
alegoria da Palavra Perdida, que é desenvolvida no ritual de alguns graus dos
Ritos Escocês e do Arco Real através da Lenda de Enoque e as Duas Colunas de
Bronze. Em resumo essa lenda diz o seguinte:
As colunas de Bronze
Enoque, durante um sonho que
teve, foi informado que Deus tinha um nome secreto que aos homens não era
lícito saber, porque se tratava de uma palavra de grande poder. Esse nome, Deus
o comunicou aos seus ouvidos, mas proibiu que o divulgasse a qualquer outro ser
humano. Nessa ocasião o Senhor o informou também sobre o castigo que iria ser
lançado sobre a humanidade pecadora, através do dilúvio.
O Inefável Nome de Deus era a
chave que poderia proporcionar aos homens todo o conhecimento secreto e um dia,
quando fossem merecedores, ele lhes seria revelado. Mas para que essa Palavra
Sagrada não fosse perdida após a catástrofe que destruiria a humanidade
inteira, Deus instruiu Enoque para que a gravasse numa pedra triangular, numa
língua só inteligível aos anjos e a ele próprio (a Cabala). Portanto, mesmo que
alguém descobrisse um dia a grafia do Verdadeiro Nome de Deus, isso de pouco
adiantaria ao seu descobridor, pois a pronúncia dessa Palavra Sagrada lhe
estaria interdita.(1)
Antes do dilúvio havia sobre a
terra civilizações bastante desenvolvidas em termos de artes e ciências. Era
uma civilização bárbara, liderada por homens gigantes, os filhos que os
anjos caídos (os nefilins da Bíblia) tiveram com as filhas dos homens. Essa
civilização era má, arrogante e descrente. Por isso Deus anunciou a Enoque
que iria destruí-la. Para preservar os conhecimentos dessas antigas
civilizações Enoque fez com que vários textos, contendo conhecimentos
científicos, fossem gravados em duas colunas, e em cada uma delas esculpiu o
nome sagrado. (2)
Uma delas era feita de
mármore, a outra fundida em bronze. Essas colunas ele as pôs como
sustentáculo em um suntuoso templo que mandou construir em um lugar
subterrâneo, só dele e de alguns eleitos, conhecidos. Esse templo tinha nove
abóbadas, sustentadas por nove arcos. No último arco Enoque mandou gravar
o Delta Luminoso, que simbolizava o Nome Inefável, e fez um alçapão onde
guardou a pedra na qual ele havia gravado esse Nome.
Com o evento do dilúvio todas
as antigas civilizações foram destruídas e seus conhecimentos científicos e
artísticos perdidos. Noé e sua família, os únicos sobreviventes dessa
catástrofe, nada sabiam dessas antigas ciências. Das colunas gravadas por
Enoque, somente a de bronze pode ser recuperada pelos descendentes desse
patriarca. Nela constava o Verdadeiro Nome de Deus, mas não a forma de
pronunciá-lo, pois essa sabedoria estava escrita na coluna de mármore.
Assim, essa pronúncia permaneceu desconhecida por muitos séculos, até que Deus
a revelou a Moisés em sua aparição no Monte Sinai.
Mas Moisés foi proibido de
divulgá-la, a não ser ao seu irmão Aarão, que seria, futuramente, o Sumo
Sacerdote do povo hebreu. Deus prometeu a Moisés, todavia, que mais tarde o
poder desse Nome seria recuperado e transmitido a todo o povo de Israel.
Segundo a tradição cabalística isso só aconteceu nos tempos de Shimon Ben
Iohai, o codificador da Cabala, mas nem todo o povo de Israel compartilhou
dessa sabedoria, uma vez que ela continuou sendo transmitida apenas aos rabinos
que atingiam os graus mais altos na chamada Assembléia Sagrada.
Segundo essa lenda, Moisés
havia mandado que o Nome Inefável, com a pronúncia correta, fosse gravado
em uma medalha de ouro e guardado na Arca da Aliança juntamente com as tábuas da
lei. Dessa forma, o Sumo Sacerdote, em qualquer tempo, poderia compartilhar
dessa sabedoria e invocar o Grande Arquiteto do Universo na forma
correta.
Esse era o segredo da Schehiná,
ou seja, a estratégia segundo a qual Deus se manifestava ao povo de Israel,
através da Arca da Aliança. Porém, a Arca da Aliança foi perdida em uma
batalha que os israelitas travaram contra os sírios. Mas, guardada por leões
ferozes, os sírios nunca conseguiram abri-la e mais tarde ela foi recuperada
pelos sacerdotes levitas. Durante as batalhas que o povo de Israel travou
contra os filisteus pela posse da Palestina, a Arca foi perdida mais uma vez,
sendo capturada pelo exército inimigo. Os filisteus, que não sabiam do
poder que tinham nas mãos, fundiram a medalha de ouro com o Nome Inefável e a
colocaram num ídolo dedicado ao Deus Dagon.(3)
Esse foi um dos motivos pelos
quais Deus instruiu Sansão para que este praticasse seu último ato de força no
Templo dos filisteus em Gaza, matando um grande número deles. E dessa forma o
registro escrito dessa Palavra foi perdido para sempre.
Assim, durante longo
tempo a forma de pronunciar o Nome Inefável ficou oculta, até que Deus o
revelou a Samuel e este o transmitiu aos reis de Israel, Davi, e depois a
Salomão.
Após construir o Templo de
Jerusalém, (que reproduzia a forma e a estrutura do templo construído por
Enoque, inclusive com os nove arcos, onde, no nono, se erguia o Altar do Santo
dos Santos, no qual a Arca da Aliança estava depositada), Salomão determinou a
Adoniran, Stolkin e Joaben a construção de um templo dedicado á Justiça. Estes,
após escolher e cavar o terreno para a preparação dos alicerces verificaram que
o lugar escolhido era exatamente o mesmo onde Enoque havia construído o seu
templo. Após demoradas pesquisas e árduos trabalhos escavando as ruínas,
descendo a diversos níveis subterrâneos, os mestres destacados por Salomão, sob
o comando de Adonhiran, descobriram a coluna de bronze onde o sagrado
Delta estava gravado. Foi essa coluna que serviu de modelo para Hiram fundir as
duas colunas de bronze que ornavam o Templo de Salomão.
Dessa forma, o Verdadeiro Nome
de Deus foi recuperado e pode ser transmitido ao povo de Israel na sua forma
escrita, mas a sua pronúncia permaneceu um segredo compartilhado por poucas
pessoas, pois a coluna de mármore, onde essa sabedoria estava inscrita, fora
destruída pelo dilúvio. Somente Salomão, o Rei de Tiro e os três mestres que
desceram ao subterrâneo detinham esse conhecimento, pois este lhes fora
transmitido pelo profeta Samuel, antes de morrer. Com o desaparecimento
daqueles personagens, ficou perdida novamente a pronúncia da Palavra Sagrada.
Os mórmons e a Lenda de
Enoque
Esse é o conteúdo da lenda
maçônica, que revela um conhecimento iniciático de grande relevância, pois o
personagem Enoque não é exclusivo da tradição hebraica. Ele, na verdade, é um
arquétipo presente na mitologia de vários povos antigos e cultuado como
“mensageiro dos deuses” e arauto do conhecimento divino, transmitido aos homens
na terra.
No Egito ele era associado ao
deus Toth, que teria trazido aos homens o conhecimento da escrita, da
metalurgia e da agricultura. Na Grécia foi conhecido como Hermes, o Senhor da
Magia e da ciência. Na tradição celta havia um personagem análogo, que ficou
conhecido na mitologia daquele povo como Merlin, o mago, guardião dos portais
do conhecimento. Entre os maias ele foi Quetzacoatal, o civilizador, que trouxe
para aquele povo o conhecimento que ostentava aquela antiga civilização.
Em todas essas tradições, o
personagem aparece como guardião das chaves do conhecimento, que antigas
civilizações ostentaram e perderam em virtude do mau uso que fizeram deles.
A lenda maçônica, tal qual ela
aparece nos rituais, não será encontrada nos chamados apócrifos de Enoque. Ela
provavelmente foi inspirada nos textos dessas obras, mas não consta
textualmente delas. Vale registrar que ela encontra um curioso paralelo no
Livro de Mórmon, onde um personagem chamado Mórmon, referido como
profeta-historiador, invoca os conhecimentos de uma antiga civilização que
teria sido a antecessora dos maias, astecas e incas, as grandes civilizações da
América.

Assim nasceu o Livro de
Mórmon, Bíblia da Igreja dos Santos dos Últimos Dias. Trata-se, como se vê, de
uma curiosa versão da lenda maçônica das Colunas de Enoque, e não é possível
saber no que uma influenciou a outra. Considerando que tanto o
profeta-historiador Joseph Smith, quanto seu sucessor no comando da Igreja
mórmon, Brigham Young, eram maçons, bem como um bom número dos primeiros
líderes dessa seita, pode-se especular que eles tinham conhecimento dessa fonte
e a utilizaram para compor o seu curioso trabalho.
A Lenda de Enoque na
Maçonaria
A lenda de Enoque, na tradição
maçônica se refere ás viagens que o iniciando tem que fazer, a exemplo dos três
Mestres de Salomão, para encontrar a Palavra Sagrada. Simbolicamente, para o
maçom, essas viagens equivalem a uma descida dentro de si mesmo a fim de
liberar a luz que existe dentro dele. Aqui temos novamente a evocação, tão cara
aos gnósticos e aos alquimistas, da necessidade de encontrar “dentro de si
mesmo” aquela energia que faz o homem integrar-se à divindade.
Diz a lenda maçônica que com a
perda do verdadeiro significado, o Nome Sagrado foi substituído pelas
iniciais IHVH, que depois de pronunciada é coberta com três Palavras
Sagradas, três sinais e três palavras de passe; somente após o cumprimento
desse ritual se chega ao Nome Inefável. De acordo com essa tradição, os cinco
primeiros iniciados no grau de Cavaleiro do Real Arco foram os próprios reis
Salomão e Hiram, rei de Tiro, e os três Mestres que descobriram o templo
sagrado de Enoque. Um juramento de não pronunciar o Verdadeiro Nome de Deus em
vão foi feito pelos mestres recém-eleitos, juramento esse que se repete na
elevação ao referido grau.
Diz ainda a lenda que mais
tarde outros Mestres foram admitidos nessa sabedoria, até o numero de vinte e
sete, sendo a cada um deles distribuído um posto. Outros Mestres, que tentaram
obter o grau sem o devido merecimento receberam o justo castigo, sendo
executados e sepultados no subterrâneo onde a pedra gravada com o Nome Inefável
fora encontrada.(5)
A cristianização da
lenda
Por fim, cabe considerar que a
Maçonaria cristã se apropriou dessa lenda para aproximá-la da tradição
associada com o magistério de Jesus Cristo. Essa transposição iniciática foi
feita pelos adeptos da filosofia rosa-cruz, que incorporaram nela a mística da
paixão, morte e ressurreição de Cristo. Assim, a Palavra Perdida passou a ser
soletrada pelas iniciais da inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz de
Jesus: INRI, que na tradição rosacruciana designa as iniciais de uma de suas
mais significativas metáforas.
Isso porque INRI é um
acróstico da frase “Ígnea Natura Renovatur Integra”, que quer dizer “a natureza
se renova pelo fogo”, metáfora alquímica que simboliza o processo pelo qual os
alquimistas obtinham a pedra filosofal, ou seja, diluindo e recompondo a
matéria prima da obra infinitas vezes até atingir a sua “alma”. Assim, Pilatos,
na verdade, estaria revelando, nos dizeres colocados na cruz de Cristo, o
processo segundo o qual nossas almas poderiam obter a salvação, ou seja,
morrendo e revivendo infinitas vezes, até depurar por completo o “grão de luz”
que constitui o seu núcleo. Dessa forma, o corpo de Jesus simboliza a “matéria
prima” da Grande Obra de Deus.
Para os maçons, todavia, face
á influência dos pitagóricos e dos gnósticos, a questão que está ligada ao
Verdadeiro Nome de Deus exprime também as idéias que a Maçonaria tem de tempo
infinito, espaço infinito, a vida infinita, enfim, todas as manifestações da
essência divina na realidade universal, que são tanto adjetivas quanto
substantivas. Explicando que nenhum dos nomes de Deus adotados pelo homem é considerado
pela Ordem como certo e definitivo, a Maçonaria sugere que o Irmão apenas
admita que Deus existe, mas não lhe dê nenhum nome nem tente conformá-lo á uma
imagem, pois que esse conceito não pode ser reduzido á fórmulas que a mente
humana pode desenvolver.
Esse postulado sugere ainda
que o espírito humano está ligado á essência primeira e única de todas as
coisas e não necessita de quaisquer outros canais de ligação com a Divindade, a
não ser a sua própria consciência e a sua sensibilidade.
Assim, pode-se dizer que para
a Maçonaria o simbolismo do Nome Sagrado está no ensinamento iniciático que ele
veicula. Esse ensinamento nos diz que existe uma chave, uma palavra, um verbo,
a partir do qual todas as coisas foram e são construídas. Essa palavra, esse
verbo, se traduz peloInefável Nome de Deus, verdadeiro e único Principio
Criador, imutável e apriorístico, de onde tudo emana e para onde tudo um dia
retorna. É uma inspiração que vem do Evangelho de São João, onde se diz que no
principio era o Verbo, o Verbo era Deus, e um Deus era o Verbo. Que ele estava
no inicio com Deus e nada do que foi feito foi feito sem Ele, e tudo o que foi
feito, foi feito por Ele. Na doutrina joanista, esse Verbo, o Logos, é o
atributo de Jesus Cristo, pois este, sendo o Filho de Deus, é feito da mesma
essência do Pai e representaria a própria encarnação divina na terra. Assim,
para os cabalistas cristãos, Jesus é a própria Shehiná, a manifestação divina
no mundo.
A Palavra Perdida é o
“Logos”
A Bíblia diz que quando Deus
se apresentou a Moisés no Monte Sinai ele não disse qual era seu nome. Ele,
conhecido pelos israelitas como oInominado, por ser absoluta potência,
não tinha um nome que pudesse ser pronunciado por lábios humanos. Ele Era. Por
isso Ele disse “Eu sou”, significando com isso que Ele era o Verbo
Divino, a partir do qual tudo o que existe no universo toma forma e
consistência. Ser é a qualidade essencial de Deus. Qualidade essa que Ele
transmitiu aos homens quando lhes deu nome e consciência de si mesmos.
Porque todo verbo
é uma potência a ser desenvolvida. E todo verbo, em si mesmo, não tem sentido
nem significado se não tiver um predicado. Deus então criou o universo para que
ele fosse o seu predicado, da mesma forma que os homens têm uma missão a cumprir,
missão essa que os predica.
Isso significa
que o Verbo, transmitido ao homem na forma do seu espírito, o fez senhor da
criação terrestre. E como o homem aprendeu a articular “eu sou”, teve
também que perguntar a si mesmo “o que?” E foi para responder a
essa inquietante pergunta “eu sou o que?”, que ele também se viu
obrigado a construir um predicado para si mesmo. Esse foi o detalhe que fez a
diferença entre os homens e as outras espécies animais.
Por isso é que “ser
é verbalizar”. Ser é dar sentido á existência, é ter uma resposta para
a pergunta: o que somos nós? Em certos momentos da vida até podemos confundir o
ser com “estar” ou “ter”. Mas estar vivo não é ser vivo,
estar feliz não é ser feliz, e ter algo que se parece com vida
ou felicidade não é ser realmente vivo e feliz. Ser é
um estado de perfeita organização interior que não pode ser afetado por nenhum
acontecimento exterior.
É nesse sentido que a
Maçonaria adota como núcleo simbólico a procura da Palavra Perdida,
alegoria que evoca o poder místico que o Verdadeiro Nome de Deus possui.
A Palavra Perdida é o chamado Nome Inefável, cujo
conhecimento confere ao seu detentor o supremo conhecimento, senha necessária,
segundo as tradições gnósticas e cabalistas, para o homem possa entrar no céu,
depois de subir todos os graus da Escada de Jacó. E nessa alegoria tipicamente
cabalista está presente todo o conteúdo iniciático da proposta espiritual da
Maçonaria. E na Maçonaria, como na Cabala, esse é o seu verdadeiro e único
segredo.
(1) Na imagem, o Delta com o
Tetragrama Sagrado.
(2) A Bíblia se refere aos
três descendentes de Cain, Jubal, Jabel e Tubal-Cain como aqueles que iniciaram
a civilização nas técnicas da agricultura, pastoreio e metalurgia.
(3) Conforme o ritual da
Maçonaria.
(4)Foto de Joseph Smith,
fundador da Igreja Mórmon. Fonte: veja.abril.com.br
(5) Aqui se encontra outra
referência á Lenda de Hiram.
João Anatalino
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