Dia de Ação de Graças: Um Ritual Civil à Luz da Tradição Maçônica


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Da Redação

Este ano, o Dia de Ação de Graças foi celebrado em 27 de novembro, quando dezenas de milhões de americanos se reuniram ao redor de mesas fartas para dizer uma palavra simples, mas essencial: obrigado. Obrigado pelo ano que passou, pela vida que persiste, pela presença dos que amam. Embora seja um feriado nacional enraizado na cultura norte-americana, seu simbolismo ecoa temas caros à Maçonaria: o valor da gratidão, a construção de narrativas fundadoras e a busca por unidade em tempos de divisão.

 Da Colheita ao Mito Nacional

A narrativa tradicional coloca a origem do Dia de Ação de Graças em 1621, em Plymouth, quando colonos ingleses — os célebres Peregrinos — compartilharam com o povo indígena Wampanoag uma festa de colheita. A refeição, embora significativa, era apenas uma entre muitas cerimônias sazonais comuns à época. A sua transformação em mito nacional viria dois séculos mais tarde.

Na Nova Inglaterra do século XVII, inspirados pelo calvinismo, colonos já observavam dias de ação de graças proclamados para celebrar vitórias, curas ou boas colheitas. O salto para o status de feriado nacional ocorreu somente em 1863, quando Abraham Lincoln instituiu oficialmente o Dia de Ação de Graças como ferramenta de união durante a Guerra Civil. Em 1941, Franklin D. Roosevelt, iniciado maçom em 1911, estabeleceu sua data definitiva: a quarta quinta-feira de novembro.

Assim, o feriado é ancestral em sua inspiração agrícola e moderno em sua função política. Ele pertence ao mundo das tradições universais da colheita, mas também ao universo simbólico construído na jovem nação americana.

 Uma Celebração Maçônica? Não, Mas…

O Dia de Ação de Graças não nasceu em lojas maçônicas. Entretanto, quando observamos quem ajudou a moldar o imaginário nacional americano, figuras de grande relevância na história maçônica emergem.

George Washington — iniciado em 1752 na Loja Fredericks, elevado a Mestre Maçom em 1753 e primeiro presidente dos EUA — foi responsável, em 1789, por proclamar um dia nacional de ação de graças à Providência pelo sucesso da Constituição e do novo governo. Seu texto carrega elementos que ressoam com a sensibilidade maçônica: o reconhecimento de um Deus racional, a exaltação da gratidão e o convite à unidade.

Outros autores e historiadores têm notado paralelos simbólicos entre o feriado e elementos da cultura maçônica: a linguagem quase ritualística de antigas proclamações, o papel das lojas em cerimônias públicas e até a participação de Grandes Lojas na colocação de primeiras pedras em monumentos dedicados aos Peregrinos.

Não se pode afirmar que a Maçonaria “inventou” o Dia de Ação de Graças. Contudo, é inegável que a visão maçônica — espiritualidade não dogmática, civismo, consciência histórica — permeia o ambiente cultural no qual esse feriado se consolidou.

 Banquetes, Gratidão e os “Três Suportes”

Para um iniciado, o Dia de Ação de Graças se assemelha a um grande banquete simbólico estendido a um continente inteiro. Três temas, em particular, aproximam essa celebração do universo maçônico:

 1. A Refeição Compartilhada

Rituais maçônicos frequentemente se desdobram em banquetes fraternos. O Dia de Ação de Graças reforça esse gesto primordial: sentar em torno de uma mesa, partilhar, conversar e celebrar a convivência, independentemente das diferenças.

 2. Os Frutos da Terra

A mesa adornada com milho, abóboras e produtos da estação lembra o tríplice símbolo maçônico do trigo, vinho e azeite — prosperidade, alegria e paz — usados em consagrações e cerimônias de lançamento de primeiras pedras.

 3. A Ação de Graças

Em muitas casas americanas, cada pessoa verbaliza aquilo por que é grata. Em Loja, a gratidão é igualmente um exercício essencial: reconhecer o que foi recebido do Grande Arquiteto, dos irmãos, da vida.

Assim, o feriado transforma-se em ritual civil que ecoa valores cultivados no Templo: consciência, partilha, equilíbrio e memória.

 Entre a Luz e a Sombra

Nenhum mito nacional é neutro. Nas últimas décadas, povos indígenas têm reivindicado a restituição da verdade histórica por trás da narrativa romantizada da “primeira refeição”. As comemorações encobriram séculos de violência, expropriação e epidemias.

Esse reconhecimento desconfortável é caro ao pensamento maçônico. Toda luz projeta uma sombra. Um feriado baseado apenas na celebração, sem memória das dores e injustiças, se torna ilusão. Mas um Dia de Ação de Graças consciente pode ser ocasião de revisão ética: a que custo vivemos o que vivemos? Quem está ausente da nossa mesa?

É fácil imaginar lojas maçônicas americanas lembrando a seus membros que a verdadeira fraternidade inclui também aqueles que a história deixou de fora.

 Por que o Tema Ressoa Até Mesmo no Brasil (e Além)?

No Brasil e em outros países, o Dia de Ação de Graças muitas vezes é visto como um ritual televisivo norte-americano. Mas se olharmos além da caricatura, encontramos questões que dialogam com o trabalho maçônico:

 Como um povo constrói e revisa seus mitos fundadores?

 Como expressar gratidão sem cair em dogmatismo ou consumismo?

 Como um ritual civil pode transmitir valores como fraternidade, memória e união?

Em 27 de novembro de 2025, quando famílias americanas ligaram seus fornos, também nós — maçons, estudiosos ou simples observadores — poderemos refletir sobre o valor de agradecer.

Talvez seja o momento de realizarmos nossa própria “ação de graças” maçônica: pelos encontros, pelo trabalho, pelas dificuldades vencidas e pelos irmãos e irmãs que caminham ao nosso lado.

Assim, mesmo não sendo um feriado maçônico, o Dia de Ação de Graças encontra ressonância profunda nos corações iniciáticos: lembra-nos que a fraternidade se constrói em torno de uma mesa, mas também em torno de uma história — plena de luzes e sombras — que precisamos reconhecer para transformar.

Esse texto é baseado em artigo publicado por Erwan Le Bihan na revista 450FM


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