HIRAM: O IRMÃO EXALTADO DE SALOMÃO

A Morte de Absalão
APRESENTAÇÃO
Por que Hiram Abiff foi tão importante a ponto de seu nome, e não o de um rei ilustre como Salomão, ser reverenciado no mundo maçônico por quase 3.000 anos? Uma tentativa de resposta pode ser dada a essa pergunta e, embora essa explicação seja baseada mais em evidências circunstanciais do que em fatos, é um enredo que daria certa lógica a respeito da história dessa época.
A seguir a história maçônica de Hiram AbiffHiram não era simplesmente um arquiteto secular (exotérico), era também um arquiteto de alto escalão maçônico (esotérico), supostamente, uma das três pessoas do mundo que guardavam os verdadeiros segredos da Maçonaria. No entanto, enquanto trabalhava na construção do Templo de Salomão, três rufiões tentaram forçá-lo a contar tais segredos. Por alguma razão não explícita pela Tradição Maçônica, todos esses homens tinham em seus nomes o prefixo “Jubel”. Durante a peleja que se seguiu com essas pessoas, Hiram Abiff foi morto com três golpes na cabeça, tendo seu corpo sido ocultado. Alguns de seus companheiros maçons mais tarde encontraram seu corpo e voltaram imediatamente para contar tudo ao Rei Salomão, o rei ordenou que o corpo de Hiram fosse sepultado com todos os direitos que seu cargo lhe conferia.

Essa história é centrada na época do reinado de Salomão, e, no entanto, parece ter certa correlação com a morte do Príncipe Absalão, irmão mais velho de Salomão. O Príncipe Absalão era filho do Rei Davi, e empreendeu uma rebelião contra o governo de seu pai. Após uma batalha intensa, Absalão foi morto por Joabe com três lanças cravadas no peito. Seu corpo foi então atirado em um precipício e coberto com pedras. Dois mensageiros foram imediatamente enviados ao Rei Davi pra informá-lo do ocorrido, posteriormente um grande mausoléu foi, ou teria sido, construído para Absalão pelo rei.

PRÍNCIPE E ARQUITETO
Embora haja inúmeras diferenças entre essas duas histórias, há também semelhanças, portanto, vale a pena verificar se haveria alguma explicação plausível para essas diferenças. Eis os pontos de discrepância:

a.     A Tradição Maçônica refere-se ao Rei Salomão, enquanto a versão bíblica refere-se ao Rei Davi. De fato, essa talvez seja mais uma explicação do que um problema. Apesar da construção do Templo de Jerusalém ser atribuída ao Rei Salomão, a iniciativa da compra dos materiais e da construção foi do Rei Davi. Além disso, os textos bíblicos indicam que houveram dois indivíduos chamados Hiram (e que eram correlacionados). Como havia dois Hirans (talvez parentes) contemporâneos a dois reis diferentes, não é de se estranhar que possa ter havido alguma confusão. Embora os textos bíblicos indiquem que o Hiram Abiff pudesse ser o mais novo dos dois Hirans, a ligação com o Príncipe Absalão denuncia a probabilidade de o herói maçônico ser, na verdade, Hiramo Ancião, dito “Rei de Tiro”.

b.     O Kebra Nagast ("O livro da Glória dos Reis") registra claramente que o Rei Salomão (ao menos conjuntamente) supervisionava as obras do Templo e, como era um príncipe substituto devido ao assassínio do Príncipe Absalão, é muito provável que Absalão também fosse um construtor. Naturalmente, a profissão aludida aqui era tanto construtor no sentido exotérico como no esotérico, portanto, tanto Salomão quanto Absalão teriam sido maçons.

c.     Os três assassinos de Hiram Abiff chamados de “os três Jubes”, eram Jubela,Jubelo e Jubelum, três nomes idênticos que foram diferenciados pelo uso de sufixos de caráter distinto. São conhecidos de forma coletiva na Tradição Maçônica como os "Jewes", palavra possivelmente derivada de Jubes. A partir disso, surge a seguinte pergunta: por que esses três rufiões teriam o mesmo nome? Uma resposta plausível é que não seriam nomes, mas sim títulos! O que se procuraria, portanto, é uma posição ou cargo antigo conferido a essas três pessoas e que levavam o título de “Jube”. É esse indício bíblico que narra a história notavelmente semelhante da execução do Príncipe Absalão por um comandante do exército chamado Joabe (Juabe). Mas o nome “Joabe” seria, na verdade, um título militar que significa “Comandante de Cem Mil”. E como oRei Davi tinha três comandantes militares no campo de batalha quando o Príncipe Absalão foi morto, poder-se-ia argumentar que Absalão e seu exército foram assassinados pelos “três Joabes” (ou três Juabes) os três comandantes doRei Davi[1]. Há certa sinergia nesse ponto entre a Tradição Maçônica dos três “Jubes” que mataram um grande mestre e a consideração bíblica dos três “Juabes[2] que impediram uma insurreição contra o rei e mataram um príncipe.

d.     Tanto Hiram Abiff quanto o príncipe Absalão foram mortos por três golpes dados pelos três Jubes (três Joabes). A Tradição Maçônica indica que esses três golpes foram dados na cabeça de Hiram Abiff enquanto a Bíblia afirma que foram no coração de Absalão. Embora essa possa ser uma diferença genuína entre esses textos, é possível que tenha sido apenas uma pequena confusão de significados. A palavra hebraica usada aqui, lebab, reflete essa confusão, pois, além de “coração”, pode ser também “intelecto”, “conhecimento”, “memória” e “pensamento”, dando espaço a diversas interpretações em sua tradução.

e.     Hiram Abiff é notoriamente conhecido na Tradição Maçônica como o “Filho da Viúva”, mas o príncipe Absalão ainda tinha um pai (o Rei Davi), fato que parece invalidar essa comparação entre Absalão e Hiram Abiff. De fato, isso não é possível. A mãe de Absalão era Maaca, cujo papel como primeira esposa foi posteriormente assumido por outras (e novas) consortes do Rei Davi. É provável que, após a perda de seu status como primeira esposa, Maaca tenha ficado conhecida como “A Viúva”, devido ao fato de não ser mais íntima ou ter a predileção do rei. Os textos bíblicos parecem confirmar que essa era a terminologia usada na época, quando mencionam as concubinas do Rei Davi. Dez delas tornaram-se guardiãs da casa (harém), e como esse novo cargo não lhes permitia mais o contato sexual com o rei, ficavam então conhecidas como Viúvas[3]. Essa explicação é sustentada posteriormente pela história contada ao Rei Davi acerca da luta entre dois irmãos e a morte subsequente de um e o exílio do outro. Essa história foi na verdade um conto alegórico que diz respeito à luta de Absalão com seu irmão Amom e seu exílio em Gesur. O interessante, no entanto, era a questão de que a mãe desses dois irmãos era viúva, se tal viúva seria uma alusão a Maaca tirada do posto de primeira esposa, consequentemente faria por alusão o próprio Absalão “Filho de uma Viúva”[4].

f.        A Tradição Maçônica indica que Hiram Abiff foi um herói, enquanto os bíblicos indicam o príncipe Absalão como insurrecto do reino. O que seria menos uma questão de contenda e mais de perspectiva, aquele que empreende ataque contra um homem é inevitavelmente o que defende outro. A Bíblia seria puramente um livro escrito pelos escribas da corte do Rei Davi (que de fato havia cometido uma série de graves equívocos), vencedores dessa batalha singular, enquanto os textos maçônicos poderiam ter sido escritos pelos apoiadores de Absalão, possivelmente construtores que ainda rendiam fidelidade a seu antigo mestre.

g.        O historiador Josefo disse que o pai[5] de Hiram Abiff foi chamado de Ur[6], um nome pode ser ligado a Absalão, que se rebelou contra o seu pai, matou seu meio irmão Amom e tentou tomar o reino de Davi. Tais ocorridos teriam acontecido em cumprimento da profecia de Natã em virtude do pecado deDavi por se rebelar contra seu combatente Urias ou Ur-iah, conspirando contra ele e assassinando-o para tomar a sua mulher, Absalão seria o vindicador do pecado de Davi contra Ur-iah[7], seu filho simbólico.

h.        Se o Hiram maçônico era na verdade Hiramo Ancião, o “Rei de Tiro”, possivelmente deve ter sido um familiar de Absalão que concretizou a construção do Templo de Jerusalém durante o reinado de Salomão. Como foi Salomão quem herdou o posto de Absalão de príncipe regente e, como o Kebra Nagast afirma que o Rei Salomão supervisionava a construção do Templo, não seria tão absurdo conjecturar que Hiramo Jovem, fosse na verdade o próprio Rei Salomão. Da mesma forma, tanto Josefo quanto o livro de Crônicas afirmam que foi o Rei Salomão quem fez os artefatos de metal para o Templo, incluindo o célebre “Mar de Bronze”. A primeira vista é presumível que Salomão tivesse comissionado esses materiais e que Hiram os tivesse fabricado, mas os textos ressaltam as várias ocasiões que o Rei Salomão o fez. Sendo o Rei Salomão o Arquiteto Maçônico Chefe (Grão-Mestre), é possível que tenha recebido todo o crédito pela construção do Templo, e tivesse sido considerado ainda, como o seu único arquiteto.

Por alguma razão, quando da construção do Templo, parece que esses dois arquitetos, Absalão e Salomão, foram denominados de Hiram. Deste modo, Hiram (Absalão) foi conhecido desde o nascimento, já que era o príncipe mais velho e herdeiro legítimo do Rei Davi. Após um desentendimento com seu pai e a consequente morte de seu irmão, Amom, Hiram (Absalão) ficou exilado em Gesur. Sendo príncipe, ele teria (aprendido e) conquistado muitos dos altos cargos, inclusive os sacerdotais, incluindo ai, possivelmente o título (e ofício) de Arquiteto Chefe.

Apesar de Absalão ter sido o príncipe regente e sucessor do trono quando da morte do Rei Davi, decidiu organizar uma rebelião contra seu pai e há suspeita de que ele possuía apoio político e militar. Os exércitos opositores encontraram-se no campo de batalha e, durante ao combate subsequente, Absalão foi morto por três golpes na cabeça, dados pelos três comandantes militares do Rei Davi, os chamados “Joabe”. O corpo de Absalão foi jogado em um precipício e acobertado por pedras não sendo descoberto por algum tempo.

Os segredos da astronomia, da alquimia, da geometria e da matemática não eram dominados somente pelos artífices e juízes eclesiásticos, mas faziam parte também das práticas reais da época. Conhecimento é poder e, assim como cita o verso do Kebra Nagast, o Rei Salomão em particular vangloriava-se de seu grande conhecimento, Salomão estava simplesmente seguindo os passos de seu irmão assassinado Absalão?

O IRMÃO EXALTADO
Joabe e Absalão

A palavra “Abiff” que normalmente compõe o nome de Hiram quer dizer “Seu Pai”, no entanto, é preciso lembrar que este termo possui um significado mais amplo na língua hebraica, poderia dar a noção de mestre[8], instrutor, conselheiro e talvez até patrono[9]. Sugerindo que Hiram pudesse ser o instrutor de Salomão no ofício e/ou patrono (e principiador) dos trabalhos no Templo, papel segundo esta abordagem bem plausível para Absalão.

Apesar da palavra “Abiff” componente do nome “Hiram Abiff” ser constantemente investigada, relativamente pouco se aborda quanto o próprio nome “Hiram”. Sabe-se que há mais de um indivíduo na Bíblia portando este nome, que o mesmo figura sob outras formas como Airam e Adoniram e que sua grafia correta seria CHIYRAM.

Alguns etimólogos afirmam que CHIYRAM procede de CHIYRA “Família Nobre”, outros que seria uma forma contraída de ACHIYRAM "Meu Irmão é Exaltado" ou "Irmão (o) Altivo". De toda maneira, a Bíblia faz uso constante de adjetivismo[10] nos nomes de seus personagens (históricos ou não), assim Hiram alude à família, seja como nobre ou exaltado, seriam os Hirans, familiares a Davi e Salomão? Talvez a recorrência bíblica do termo “Hiram” como no caso dos “Joabes/Jubes” indicasse um título, portado inclusive por Absalão?

Assim como ainda hoje é praticado, a forma de tratamento entre os membros da maçonaria é “Irmão”, o maçom que atinge o Grau de Mestre no qual é encenada a Lenda de Hiram passa por uma cerimônia chamada “Exaltação”, logo todo Mestre Maçom é um “Irmão Exaltado". Quem seria o familiar qual Salomão poderia se referir como “Irmão Exaltado" ou “Hiram” no hebraico (que estava ou estivesse num posto superior)? A resposta mais lógica seriaAbsalão, o último príncipe sucessor e possível primeiro arquiteto do Templo.

Alias o próprio nome de ambos os filhos de Davi compartilham a mesma raiz assim como os Hirans, o Ancião o Jovem compartilham CHIYRAM. Salomão vem de SHALOMOH enquanto Absalão de ABSHALOM[11], ambos oriundos da palavra hebraica SHALOM “Paz”[12], tal similaridade se repetiria no possível título “Hiram” (CHIYRAM)?

Um elemento discrepante seria que Hiram, o Ancião era intitulado como o “Rei de Tiro” e não como príncipe da corte e Davi, entretanto, o nome hebraico para Tiro é “TSOR”, que também significa “rocha” ou “pedra”, “MELEK CHIYRAM” é traduzido como “Rei Hiram”, mas MELEK também pode denotar príncipe. Ou seja, ao invés de “Rei de Tiro”, seu título poderia muito bem ser “Príncipe da Pedra” em alusão a sua posição de arquiteto[13], o regente dos trabalhadores em pedra, também notando que o termo “Príncipe[14] ainda hoje é o título de diversos Graus da Maçonaria Filosófica.

Mesmo na morte, Hiram pelo mistério de sua vida compele aos maçons a um mistério, a busca da Palavra Perdida, mas na investigação de sua história se trilha por com uma miríade interminável de fontes, autores, obras, fatos e suposições... Talvez este seja justamente o objetivo d’A Lenda de HiramCompelir o Maçom a tanto conhecimento quanto seja necessário para a busca da Verdade!

Em vida Absalão e Hiram seriam o mesmo indivíduo? Certamente sua morte nunca responderá tal questão... Em vida, Hiram forjara Colunas de Bronze para a sustentação doTemplo Salomônico, com sua morte, forjou Colunas de Mistério para a sustentação da Tradição Maçônica.

Curiosamente o local no qual a tradição israelita afirma que o corpo do filho mais velho de Davi jaz é chamado de “Coluna de Absalão[15]. Na Tradição Maçônica as Colunas do Templo eram cavas[16] a fim de no seu interior serem guardados os mais valiosos mistérios, e na Coluna de Absalão haveria para os maçons algum Mistério Perdido a ser encontrado?



REFERÊNCIAS

As Chaves de Salomão: O Falcão de Sabá, Ralph Ellis
A Chave de Hiram, Christopher Knight e Robert Lomas
Mística Judaica, Walter I. Rehfeld


[1] Originalmente Joabe, Abisai e Itai.

[2] Os “Joabes” ou “Juabes” poderiam ainda ser os subordinados do comandante Joabe que o acompanharam na perseguição a Absalão, e que após ser este três vezes ferido, também o golpearam.

[3] Bíblia, 2 SM 20,3.

[4] Bíblia, 2 SM 14,5.

[5] Notadamente o sentido de “pai” no âmbito teológico da época possuía um sentido muito mais amplo que o de “genitor”. Poderia indicar a noção de mestre, instrutor, conselheiro e até patrono.

[6] Josefo, Ant. 8,76.

[7] Além desse “laço profético” entre Absalão e Urias (ou Ur-iah), em As Chaves de Salomão: O Falcão de Sabá, Ralph Ellis defende que Urias e Absalão seriam na realidade o mesmo indivíduo, havendo na Bíblia uma repetição da mesma história só que em 2 diferentes versões.

[8] E ainda como “Mestre Apoiador” ou “Padrinho” que na maçonaria moderna quer dizer o maçom que escolhe e inicia um profano e consequentemente fica incumbido de instruí-lo já como (Irmão) Aprendiz Maçom.

[9] Padroeiro; Defensor de causa ou ideia; Pessoa já falecida, de reconhecido valor no campo das Artes, das Letras ou da Ciência; Figura militar ou civil de grande vulto, já falecida, escolhida como protetora de cada uma das forças armadas, unidade militar etc.

[10] Recurso literário onde o nome de determinado elemento ou personagem de uma narrativa alude a sua natureza ou principal característica.

[11] Além disso, Absalão e Abiff também partilham de uma raiz, “AB”, que significa pai.

[12] Nos Templos Maçônicos (tidos como uma representação do universo pelos Maçons) encontramos 02 colunas possivelmente descendentes das colunas dos reinos unificados do Alto e Baixo Egito (também tido como uma representação do universo pelos Egípcios) quais haviam derivado alegoricamente até aos israelitas como as legendárias Boaz e Jaquim. Estas colunas haviam adornado o portão do Templo de Salomão. Para esses israelitas ancestrais, as colunas representavam tanto o poder real "Mishpat" quanto poder sacerdotal "Tzedek", e quando unidas suportavam o grande arco do Céu, cuja pedra-chave era a terceira grande palavra de seu anseio, "Shalom" que significa “Paz” e de onde advém o nome do Rei Salomão (Shalomoh).

[13] Arquiteto vem do grego “Architekton” que significa “mestre construtor”.

[14] 16º Príncipe de Jerusalém, 20º Soberano Príncipe da Maçonaria, 22º Príncipe do Líbano, 24º Príncipe do Tabernáculo, 26º Príncipe da Mercê, 28º Príncipe Adepto e 32º Soberano Príncipe da Maçonaria.

[15] Ou “Pilar de Absalão”. "Ora, Absalão, quando ainda vivia, tinha tomado e levantado para si uma coluna, que está no vale do rei, porque dizia: Filho nenhum tenho para conservar a memória do meu nome. E chamou aquela coluna pelo seu próprio nome; por isso até ao dia de hoje se chama o Pilar de Absalão." - 2 SM 18:18. Sua construção foi posteriormente re-datada por alguns arqueólogos para os primeiros séculos depois de Cristo, mas isso não impediria que o sítio já tivesse sido explorado previamente como o objetivo de sepulcro.

[16] A preservação do conhecimento em colunas dentro da Tradição Maçônica (e na israelita) é farta. Tal costume seria iniciado por Seth (filhos de Adão) e perpetuado pelos filhos da Lameque (Jubal, Jabal, Tubalcaim e Naamá) e Enoque.

FONTE: PEDRA OCULTA


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Editor Luiz Sergio Castro