Papas e Marios demais

Sérgio Augusto - Estadão
Logo a Grécia e a Itália, os dois berços da civilização ocidental. Não é justo. Zeus e Júpiter não olharam por elas.


Do Olimpo cinematográfico, Jean-Luc Godard bem que tentou ajudar a Grécia, com uma audaciosa solução para sua crise econômica, mas não lhe deram ouvidos. Godard não é Nouriel Roubini, nem preside o FMI ou o Banco Central Europeu, nem diploma de economista possui. Imaginação, porém, tem de sobra.

Partindo do princípio de que nossa dívida com a Grécia é impagável – a ela devemos a filosofia, a democracia e a tragédia –, Godard sugeriu que se criasse uma espécie de taxa de ressarcimento pelas contribuições gregas ao progresso material e espiritual da humanidade. "Toda vez que usássemos a palavra ‘lógico’ (do grego logos), por exemplo, pagaríamos 10 de direitos autorais à Grécia", recomendou o cineasta. "Assim a crise acabaria num dia e os gregos não teriam de vender o Parthenon aos alemães."

Há lógica nesse raciocínio, infelizmente inaceitável pela lógica (epa! já estaria devendo 20 à Grécia) do raciocínio econômico. Do contrário, poderíamos estendê-lo à Itália, por tudo aquilo que ela nos proporcionou (das "flores do Lácio" e da Renascença ao espaguete e aos filmes de Fellini), já de cara depositando em seus cofres outros 20, por conta dos dois "raciocínios" (do latim ratiociniu) da frase anterior.

De todo modo, façamos como na Traviata: brindemos. Brindemos à queda, tão longamente aguardada, de Berlusconi.

Com moderação. Afinal de contas, ele não foi concretamente defenestrado por sua participação num esquema de corrupção, compadrio, evasão fiscal, enriquecimento ilícito e prostituição, nem pela estagnação econômica do país, nem por seus flertes com a Máfia, nem pelo conflito de interesses entre seu império midiático e seus cargos políticos, nem por sua xenofobia, seu sexismo, sua cafajestice, e sim porque a União Europeia, o FMI e o mercado financeiro internacional decidiram que ele não é confiável para levar adiante o programa de austeridade a ser enfiado pela goela dos italianos.

A receita é a mesma de sempre: cortes nos gastos públicos para aumentar o superávit primário, privatizações, etc, com enormes chances de piorar ainda mais a situação. Não deu certo em outros países. Exceto, claro, para os croupiers do cassino financeiro, os banqueiros e as grandes corporações.

Segurando o frasco do purgante, os Merkozy, Frau Merkel e Monsieur Sarkozy, avalistas e porta-vozes da banca, os novos donos do poder, os sucessores virtuais dos Papasconi (Papandreu e Berlusconi). "Se tivéssemos tido outro governo há mais tempo, não estaríamos agora sob as ordens do Banco Central Europeu", deplorou o líder do Partido Democrático italiano, Pier Luigi Bersani.

Há quanto tempo, precisamente? O eleitorado italiano teve pelo menos duas oportunidades de conter a ascensão do fanfarrão milanês, pela via eleitoral. Apático, omisso, não o fez. Favorecido por uma classe política covarde e venal, o premier bunga-bunga só se sentiu forçado a pedir penico após 15 anos e três mandatos, não sem antes condicionar sua renúncia, prometida para este fim de semana, à aprovação de um plano de reforma que em nada afetará seus proventos.

Tem muito Papa (Papandreu, Papademus) e Mario (Monti e Draghi) nessa crise. E plutocratas. Lucas Papademus, o tecnocrata escalado para comandar o governo de coalização grego, foi vice-presidente do Banco da Grécia e já dirigiu o Banco Central Europeu. Mario Monti, sucessor de Berlusconi, é senador, mas Mario Draghi, chefão do BCE desde o dia 1º, com passagem pelo Banco Mundial e o Goldman Sachs, trabalhava no Tesouro da Itália quando daquelas artimanhas financeiras com derivativos para diminuir o déficit do país (de 7% para 2,7%) e habilitá-lo a ingressar na zona do euro. Até dias atrás, acreditava-se que apenas a Grécia usara desse expediente para o mesmo fim. Tutti buona gente.

"Precisamos de líderes, não de gestores", clamava na sexta-feira um jornalista do El País, já com as barbas de molho por ser espanhol. Líderes gestores seriam a melhor opção. Líder político Berlusconi era, e talvez continue sendo se conseguir livrar-se de todos os processos que despencarão sobre ele nos próximos meses e o governo Mario Monti der chabu.

As duas maiores lideranças europeias, Merkel e Sarkozy, vocacionalmente gestores, precisam se entender tão bem quanto ao futuro do euro e da eurozona como quando articularam o xeque-mate no Berlusconi. A chanceler alemã desautorizou as especulações em torno de mudanças drásticas no grupo do euro, visando a preservar a UE e sua moeda. No mesmo dia, numa palestra na Universidade de Estrasburgo, Sarkozy aventou a hipótese de dividir a UE em 17 Estados federados (o tal núcleo duro) e 10 Estados confederados, a Segunda Divisão do continente.

Até agora não ficou suficientemente claro na minha cabeça se Berlusconi foi destronado para que a crise econômica italiana pudesse ser monitorada com maior segurança ou se a crise, devidamente inflada, foi usada como a ultima ratio para destroná-lo. Se há mais de 20 anos a relação déficit-PIB, na Itália, não é inferior a 100% (chegou a 130%), se faz tempo que seu setor público prima pela ineficiência e sua indústria pela baixa competitividade, por que só nos últimos meses passaram a questionar a solvência do país? A Itália não é a Grécia, não é um mero país endividado da periferia da eurozona.

O economista Kash Mansori acredita que a Itália simplesmente levou as sobras de um processo iniciado na Grécia, que pagou mais por mudanças na psicologia do mercado, cada vez mais paranoico, do que por desrespeito aos fundamentos econômicos. Mansori também põe em dúvida a eficácia, a curto e médio prazo, dos cortes previstos pelo programa de austeridade. Sem primeiro estancar a drenagem de recursos pelos Sarneys de lá, qualquer reforma na Itália está de antemão condenada ao fracasso.
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Editor Luiz Sergio Castro