Notas à beira do caminho

Alcides Villaça - Estadao.com.br
Drummond em foto de 1956
No meio da vida e da caminhada poética, mais precisamente no soneto Legado, de Claro Enigma (1951), Drummond se perguntava: "Que lembrança darei ao país que me deu / tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?" Tantos anos passados, continuam o processo de germinação da sensibilidade e as pontadas agudas da inteligência dessa poesia junto a um grande contingente de leitores, que ela ajudou e ajuda a viver. Sem a pretensão de responder à pergunta do poeta, anoto aqui alguns aspectos de seu legado, da maneira que me parece mais justa: buscando compreendê-lo. 

Um gauche entre nós. É difícil avaliar o alcance da poesia de Drummond entre os leitores e outros poetas. O calibre da inteligência, a variação dos humores, a pluralidade das linguagens e o leque de perspectivas sensíveis abertas (ou fechadas) para o mundo incorporam-se em nós, convocando as reservas essenciais de uma sensibilidade moderna que o poeta espertamente professa como inútil, para melhor investigar e explorar. A engenharia tosca, risível e artificial de um elefante fabricado em pleno improviso, posto a caminhar nas ruas, tão carente de amigos quanto fadado à incompreensão, arma o sentimento do sublime com os apoios da ironia (O Elefante, A Rosa do Povo). Num poema como esse, estamos simultaneamente dentro e fora de uma fome de amor que se torna confessável na exata medida em que se desqualifica. Habitar e desabitar um drama, nas variações de tão belos ritmos e imagens de um mesmo poema, são possibilidades oferecidas por esse espelho privilegiado, aparentemente de uso tão privativo, que o poeta oferece à reflexão nossa. Leia Mais


Tudo começa, aliás, com a assunção íntima e pessoal das disparidades por vezes apenas panfletadas pelos modernistas de 22: Drummond atira-se para valer no dramatismo da inconstância das faces, na instabilidade do sujeito, nos improvisos do estilo. Que altitude estética, que diligência crítica ou que compromisso patriótico pode-se esperar de um gauche? No entanto, esta figura da insuficiência é a máscara poética mais eficaz para tantos desejos sem resposta, que vão da busca metafísica à contemplação das pernas que gostosamente desfilam no bonde aberto.

Toda insuficiência supõe, é claro, a completude no horizonte: a daquela tarde mítica , por exemplo, que "talvez fosse azul/, não houvesse tantos desejos" (Poema de Sete Faces, Alguma Poesia). Entre a hipnose mundana das cinematográficas "pernas brancas pretas amarelas" e o abandono cósmico no mundo sem Deus, o poeta transita por ansiedades que são muito nossas, ou familiares, misturando gravidade e deboche, confissão pungente e sarcasmo, imprimindo aos poemas um estranho sotaque, misto de derrota e altivez, poupando-nos de escolhas simplórias enquanto fundem verdade e dissimulação. Na companhia de um gauche tão expressivo, nosso desajuste íntimo é exercido com direito ao riso lúcido e luxuoso de quem sabe o que fazer com a lírica. Que tal contar com o álibi da máxima plenitude, esperada logo adiante, para aliviar o peso dos nossos fracassos domésticos?

Pode-se compreender a poesia de Drummond a partir desse jogo entre a perda que pode ser ganho e o ganho que pode ser perda ("Ganhei (perdi) meu dia"). Nessa transmutação permanente, tudo se relativiza, em operação muito característica do nosso tempo. Fica sendo possível, por exemplo, amar a um tempo a lucidez implacável de Machado de Assis (A Um Bruxo, com Amor) e os desnorteios patéticos de Carlitos (Canto ao Homem do Povo Charles Chaplin), quando as sensações contrárias sabem compor-se numa singular persona, feita de extremos e com pleno direito à hesitação.

Dentro do mundo, o mundo dentro. O intento caprichoso de um poeta alegadamente "torto" é reavaliado diante das violências do mundo. A par da militância plausível, há o risco do sentimentalismo: a certa altura o poeta figura o mundo da 2.ª Guerra como um menino doente, tocado pelo choro efetivo de um menino doente no apartamento ao lado (Menino Chorando na Noite, Sentimento do Mundo). É a busca da equação dificílima, em que o sentido da experiência pessoal e o da ordem coletiva se abram para uma convergência. Na equação desejada pelo poeta participante, as instâncias da lírica pura e do canto de convocação épica querem se encontrar num acorde entre "as sonatas, os poemas, as confissões patéticas" e a "voz de gente". À falta de tal acorde harmônico, vale a estridência da "flor feia", que vence a náusea e o tédio. A harmonia fundamental está longe e à frente - "Ó vida futura! nós te criaremos" (Mundo Grande) -, como é próprio das utopias, e há que se enfrentar a enorme probabilidade de um fracasso, por exigência da tão pessoal "alma severa", que "se interroga e logo se cala", ameaçando toda euforia.

A aptidão insistente para uma poesia política (digamos assim), ensaiada e afirmada pelo poeta ao longo dos anos de 40, não suprime as sombras da incontornável aptidão lírica, que contrastam a luz forte da primeira. Parece ser uma vocação irresistível acionar uma produtiva desconfiança diante de toda ostentação de completude, venha esta de onde vier. Esvaziada a expectativa histórica dos melhores dias futuros, rebaixados que foram às tensões ideológicas e ameaçadoras do pós-guerra, sobrevém o canto elegíaco, o discurso carregado das imagens mais ricas e poderosas que o poeta encontrou para dar eco, justamente, a um canto que parecia de todo sepultado pela modernidade. Em face do aparente anacronismo, o poeta se explica, mais uma vez se inaugura (" E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno") e dá outra volta contra o parafuso das inclinações de época e dos gostos prestigiosos.

Em vez cantar no coro de vitória do minimalismo silábico, do troca-troca das letras e dos infartos da sintaxe, apregoados com esgares de genialidade na década de 50, entoa em inesperado solilóquio o discurso monumental da Máquina do Mundo, sólida forma clássica convocada para fazer ressoar... o vazio dos conteúdos épicos, recusados pelo silêncio do andarilho mineiro que imerge, mais e mais lírico e reflexivo, na noite também vazia, que solenemente se fecha. Diagnóstico atualizável e instigante, como se vê, de uma época cada vez mais maravilhada com as promessas de uma definitiva totalização técnica de todas as experiências. Aceitar o "eterno" como antídoto do "moderno" (numa época decisiva para os impulsos da modernização do país) é um posicionamento histórico entranhado numa recusa só aparentemente caprichosa. O indivíduo prossegue em seu caminho, desfiando mais uma perda e ganho: "enquanto eu avaliando o que perdera, / seguia meu caminho, de mãos pensas".

Os vários tempos e um adeus. Está no poema Infância, logo no início de seu livro de estreia, o primeiro tributo poético de Drummond à memória pessoal. No caso, homenagem do jovem e tenso adulto, com suas precoces "retinas tão fatigadas", à feliz solidão do menino imaginativo que, escoltado por mangueiras e dentro da ordem familiar, reconhecia no que lia - a história de Robinson Crusoe - uma laboriosa construção da completude individual. Esse menino retornará na velhice, na trilogia do Boitempo (entre 1968 e 1979), para dialogar com o velho poeta acerca das inclinações poéticas de ambos. Entre uma época e outra há, no entanto, muita memória a considerar. Lembranças tensionadas, mordentes, culposas, que se valem da transfiguração e da ponderação mais funda para avaliar a responsabilidade do indivíduo na construção de uma história, seja a pessoal, a familiar, a social, a universal. No verso "Toda história é remorso" (Estampas de Vila Rica, Claro Enigma), a síntese radical é negativa, mas já houvera negações que pareciam definitivas e puderam atravessar um momento de alta sublimação, como em Viagem na Família (José, 1942). Está em Lição de Coisas (1962) um tributo à memória de tudo o que se explorou nas variações dos temas e das linguagens frequentados e um último passo no encalce da forma absoluta.

A distensão (relativa) da velhice permite ao poeta assumir com vezo autobiográfico as mil faces cotidianas de um passado que está disposto a reviver no presente. A trilogia de Boitempo é uma ampla autobiografia, flagrada nas impressões poéticas que teimam em se reorganizar, numa prazerosa compulsão. Questionado por insistir nas "lembranças bobocas de menino", o poeta rebate: "(...) eu conto o meu presente: / com volúpia voltei a ser menino". Os leitores mais velhos compreenderão. A volúpia é de fato, tão visivelmente prazerosa, que faria pensar numa velhice e numa poesia apaziguadas - impressão desfeita com a crueza do póstumo Farewell (1996), o livro-despedida.

Entre os duros golpes acusados pelo poeta no balanço final da vida, além das evidências da "carne envilecida", estão a liquidação inapelável de todo e qualquer idealismo (veja-se o poema Última Canção) e a assunção definitiva dos determinismos mineiros, da persistência de um mundo de onde o poeta nunca teria saído e em cujo soturno subsolo se faz enterrar (A Ilusão do Migrante). Sobra para os leitores, na dedicatória do livro, a palavra "gratidão", pela qual o poeta reconhece os que o compreenderam, compreendendo-se.

Numa das cartas a Mário de Andrade, assegurava-lhe Drummond que suas maiores emoções ele as vivera com uma caneta na mão. Comentando isso com um jovem aluno, entrevi sua expressão de piedade pelo triste poeta de gabinete, que não se atirou à vida. Não tive como lhe dizer que, entre as tantas formas de se atirar à vida, uma é se valer de uma caneta para perseguir e achar as falas humanas mais urgentes e precisas, essenciais para quem as diz e indispensáveis para quem as ouve.

Drummond colocou-se a serviço de uma verdade poética tão essencialmente pessoal, em domínios tão próprios, que reconhecemos nela muito da verdade de nós mesmos. As mais altas exigências de sua consciência lírica conjugam-se com as quedas mais prosaicas: depois da poesia de Drummond, essa conjunção parece a parte mais natural da nossa humanidade.

ALCIDES VILLAÇA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
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Editor Luiz Sergio Castro